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'Ao perder o medo da morte, perde-se o medo da vida'

Sociedade

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Luís Barra

O dirigente da Associação Internacional de Estudos de Quase-Morte defende que estas experiências são uma porta para novos modelos da consciência

O best seller Uma Luz ao Fim do Túnel (Ed. Esfera dos Livros, 392 pág., €19), sobre a neurofisiologia dos estados-limite, surgiu da análise de textos milenares, relatos de sobreviventes e pesquisas de laboratório que induzem estados místicos. O médico lançou, também, juntamente com universidades americanas, o Projeto Túnel, local de partilha virtual e de recolha de dados para o estudo de fenómenos pouco conhecidos do cérebro.

Como se interessou pelo estudo do paranormal?

"Paranormal" é um termo enganoso, usado para catalogar experiências desconhecidas, hoje explicadas pela ciência. Sou filho de um psiquiatra e cedo me interessei pelo modo como construímos o real. Acompanhei pacientes que relataram experiências de quase-morte (EQM) e podia vê-las como uma invenção do cérebro. Mas há espaço para ir mais longe, na neurologia.

Em que consistem as experiências de quase-morte (EQM)?

Os relatos de sobreviventes que tentaram suicidar-se ou entraram em coma têm em comum a sensação de tranquilidade, a visão de um túnel a vida em filme, o contacto com seres envoltos em luz. O tempo psicológico da experiência é, em geral, muito maior do que o tempo real. Há registos em pessoas declaradas próximas da morte cerebral, em crianças e em invisuais à nascença. Ou em ateus, agnósticos e religiosos. É um mistério, incompatível com o modelo da neurologia atual.

As experiências são sempre de êxtase?

Para cerca de 8% dos sobreviventes, a experiência foi assustadora, uma bad trip, como a que Platão descreveu no décimo livro da República. Os orientais conseguem ter estados alterados de consciência pelo uso de mantras. Viver uma experiência mística ou extrassensorial pode surgir naturalmente ou de forma induzida (pela estimulação do lobo temporal direito do cérebro, durante alguns segundos, graças a um capacete de elétrodos) e é acompanhada por alterações eletromagnéticas. A questão é saber porque temos esta função e para que serve.

Quais são as hipóteses científicas?

Especula-se sobre o bem-estar obtido durante e após a EQM, atribuível às endorfinas, libertadas através do exercício aeróbico intenso, por exemplo. Outra hipótese é tratar-se de confusão mental associada à intoxicação carbónica, pelas quebras de pressão arterial mas tal não explica novas competências que muitos revelam depois e que os modificam completamente. Talvez sejam qualidades humanas que vão sendo reprimidas na infância. A criança percebe que "é um disparate", por exemplo, sentir uma presença que não se vê e passa a ignorar isso, na construção do real. 

O lobo temporal é o portal para outras construções do real, igualmente humanas?

Para a religião, a consciência está na alma; para a ciência, ainda não é claro. A comunidade científica vai falar disso em junho, no congresso internacional Global Future 2045, em Nova Iorque. A lógica puramente cartesiana foi ultrapassada. Supõe-se que a consciência está no cérebro e, eventualmente, ancorada noutra dimensão ou estado quântico, como propõe a teoria dos microtúbulos (estruturas proteicas envolvidas na organização celular e neuronal). O desprendimento destes, numa EQM, poderia explicar os flashbacks e os saltos no tempo. Mas ainda não sabemos.

Já esteve "do outro lado"?

Tive uma educação católica mas não sou praticante. Medito três vezes por semana. Há sete anos, na sequência de uma crise cardíaca, tive uma EQM. Quando se perde o medo da morte, perde-se o medo da vida. A espiritualidade expande-se. Sou um homem da ciência, com mente aberta. Como pai, digo aos meus dois filhos que aprendam a pensar, a duvidar do que lhes é apresentado. Se assim não fosse, ainda hoje pensaríamos que a Terra era plana!