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Adeus, amniocentese?

Sociedade

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Acaba de chegar a Portugal uma análise ao ADN dos fetos, para despistar a trissomia, numa fase inicial da gravidez. CONHEÇA TODAS AS ALTERNATIVAS E OS SEUS PRÓS & CONTRAS

A partir daqui, tudo é possível: "Este novo exame representa um passo importante no rastreio pré-natal, ao conseguir decifrar parte do ADN do feto com o simples recurso a uma análise ao sangue da mãe, logo às dez semanas", explica Álvaro Cohen, médico da Unidade de Diagnóstico da Maternidade Alfredo da Costa e secretário da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Diagnóstico Pré-Natal, referindo-se ao Harmony Prenatal Test, que chegou a Portugal há pouco mais de dois meses. Nem o seu preço elevado (670 euros) impediu que os laboratórios do grupo Germano de Sousa, que detém a representação em Portugal da marca, já tivessem realizado cerca de 120 testes. O grupo está a tentar estabelecer acordos com seguradoras, para comparticiparem os testes feitos aos clientes, uma vez que, no Serviço Nacional de Saúde, com o atual cenário de restrições orçamentais, essa possibilidade está, por agora, excluída.

Apesar da revolução tecnológica que representa, ao conseguir identificar possíveis malformações dos fetos, de forma direta, em vez de analisar alterações nas hormonas da mãe, o novo método não exclui a necessidade de realizar a temida amniocentese e outros exames invasivos, como a biópsia das vilosidades coriónicas. Mas "possibilita a diminuição dos testes invasivos, ao reduzir o número de falsos positivos para as trissomias 21,18 e 13", assegura a médica patologista Maria José Sousa.

Rastreios a aumentar

Esta responsável pelo núcleo de diagnóstico pré-natal dos laboratórios Germano de Sousa faz também outras contas. Com os testes tradicionais, e que hoje em dia já estão integrados nas práticas clínicas de muitos hospitais e centros de saúde, cerca de 5 mil mulheres eram indicadas para realizarem testes invasivos. Com o Harmony, a taxa de falsos positivos baixa de 5% para 0,1%, o que significa que apenas uma centena de grávidas serão aconselhadas, erradamente, a sujeitarem-se a uma amniocentese. As estimativas da Associação Portuguesa de Diagnóstico Pré-Natal indicam que todos os anos morrem, em Portugal, cerca de cem bebés saudáveis, em consequência de complicações após a amniocentese.

Quanto à fiabilidade do teste, Álvaro Cohen também alerta para o facto de a diferença não ser significativa, uma vez que os exames combinados do primeiro trimestre já apresentam uma margem de erro de apenas 5% contra 1% do Harmony. As análises ao sangue da mãe juntamente com as ecografias de avaliação da translucência da nuca, da face e do nariz já detetam a maior parte dos casos de trissomias e podem ser feitas a partir da décima segunda semana de gestação.

Um risco que aflige pais e médicos porque, apesar das trissomias representarem apenas 0,2% das patologias da gravidez, em Portugal, o aumento da idade média das mães (mais de 20% têm idades superiores a 35 anos) faz crescer também o perigo de se verificarem alterações dos cromossomas. "Com estes avanços, penso que iremos fazer cada vez menos amniocenteses e biópsias das vilosidades coriónicas", acredita Álvaro Cohen. Mas, no caso do Harmony, considera que "o preço elevado faz com que seja indicado para poucas pessoas: apenas para as que têm dinheiro".

PRÓS & CONTRAS

As vantagens

Rastreio combinado 

  • Consegue detetar cerca de 95% dos casos de trissomias

  • Custo no setor privado: cerca de €50; Gratuito no SNS e comparticipado pelas seguradoras

Teste Harmony

  • Redução dos casos de falsos positivos para 0,1%

Amniocentese 

  • É um dos exames que apresentam maior fiabilidade de resultados

  • Custo no setor privado: €170. Gratuito no SNS e comparticipado pelas seguradoras 

... e desvantagens

Rastreio combinado

  • Taxa de falsos positivos entre 3% e 4%

  • Só pode ser realizado entre as 11 e as 14 semanas de gestação

Teste Harmony

  • Tem um custo elevado (€670), sem comparticipação das seguradoras ou do SNS

  • Apenas despista três tipos de trissomia, não analisa outras malformações 

Amniocentese 

  • É feita apenas a partir das 15 semanas

  • Sendo um método invasivo, apresenta entre 0,5% e 1% de risco de provocar aborto