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A vida desconhecida dos pais de Zeca Afonso

Sociedade

Pouco depois do regresso do horror timorense, já João, Mariazinha, 
Maria das Dores, José Nepomuceno e Zeca se apresentavam recompostos para a foto, em Coimbra

O irmão mais velho do cantautor desvenda agora o horror por que passaram, com a filha pequena, Mariazinha, num campo de concentração japonês, em Timor ocupado pelo exército imperial nipónico, na II Guerra Mundial

Foi uma hora do Diabo aquela em que, em 1939, o juiz José Nepomuceno Afonso dos Santos, da carreira judicial ultramarina, escolheu a comarca de Díli, entre as que estavam disponíveis. A ida para a cidade timorense obrigou a uma separação da família: com José Nepomuceno, à época com 38 anos, seguiram a mulher, Maria das Dores, 38, e a filha Mariazinha, com sete anos. Os outros dois filhos, João, 11 anos, e Zeca, 9, ficaram entregues à beatíssima Avrilete e ao salazarista João Filomeno, tios paternos, entre Coimbra e Belmonte.

O juiz, a mulher e a filha chegaram ao porto de Díli a 1 de setembro de 1939, o exato dia em que as tropas da Alemanha invadiram a Polónia e desencadearam a II Guerra Mundial. Pior augúrio era impossível. Tanto assim que, integrado nas forças do Eixo (com a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini) contra os aliados, o Japão imperial ocuparia militarmente Timor, após um desembarque na praia de Díli, aos primeiros minutos de 20 de fevereiro de 1942. O seu poder de fogo foi tal que não ficou pedra sobre pedra na cidade, que seria depois saqueada sem piedade.

Num livro autobiográfico que agora publica, intitulado O último dos colonos - Entre um e outro mar (Ed. Sextante, 335 págs., €16,60), obra que chega às livrarias no próximo dia 30, o advogado João Afonso dos Santos, com uns enxutos 87 anos, filho e irmão mais velho de Zeca e Mariazinha, revela um segredo familiar (e mesmo intrafamiliar) com sete décadas. Entre novembro de 1942 e agosto de 1945, José Nepomuceno, Maria das Dores e Mariazinha escaparam por um qualquer milagre à sentença de morte por fome ou doença no campo de concentração de Liquiçá, onde se encontravam prisioneiros, num amontoado de 600 portugueses cercados por arame farpado e vigiados pelo cruel exército imperial japonês. Durante todo esse tempo, João e Zeca não souberam se os pais e a irmã estavam vivos ou mortos. E, absurdo dos absurdos, o juiz, já de regresso à metrópole, em 1946, teria de responder a um processo disciplinar que lhe foi instaurado por "abandono de posto"...

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