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A lista de Sousa Mendes

Sociedade

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Na próxima semana, meia centena de sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, salvos graças aos vistos do diplomata Aristides de Sousa Mendes, chegarão à aldeia de Cabanas de Viriato, para honrar a sua memória

Olivia Mattis nunca esquecerá a história que ouvia a sua avó Lucie contar. A 10 de maio de 1940, ainda dormia com o marido, em Bruxelas, quando ouviu o som de uma explosão e correu para a janela. Já era de manhã, o sol brilhava - e mísseis prateados rasgavam o céu azul.

Lucie correu a ligar o rádio. A Alemanha acabara de invadir a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo. Embora ninguém desconfiasse da perseguição que os nazis haviam de fazer aos judeus, a sua ideologia antissionista já era conhecida. Em poucas horas, o casal fez as malas, chamou alguns familiares e apanhou um comboio para Paris.

Dias depois, o seu bairro, na capital francesa, foi bombardeado. O clã Mattis continuou a fuga para sul e chegou, por acaso, a Bordéus. Aqui, um rabi ultraortodoxo, de longos caracóis ruivos, falou-lhes de um diplomata português. "Este cônsul está a ajudar centenas de pessoas", terá dito. A família logo entregou os passaportes no consulado. Em poucas horas foram devolvidos, carimbados. Escaparam para Portugal, embarcando no cargueiro Santarém, com destino ao Rio de Janeiro e, meses depois, começaram uma nova vida em Nova Iorque.

A história que a avó de Olivia contava terminava sempre assim, com a referência a um cavalheiro sem nome, que salvara 12 membros da família. A sua identidade permaneceu um mistério, durante sete décadas. Até que, em abril de 2010, o pai de Olivia fazia zapping e parou num canal francês, intrigado pelo filme Disobedience, do cineasta Joel Santini. Quando passaram os créditos, tomou nota do nome do realizador e enviou-lhe um e-mail, a que este respondeu de imediato. O pai de Olivia reencaminhou as mensagens para a filha. "Descobri o homem que salvou a nossa família", escreveu. "Chama-se Aristides de Sousa Mendes." 

O nascer de uma fundação

Olivia diz que o diplomata "tornou-se rapidamente numa obsessão". A musicóloga, com um doutoramento na Universidade de Stanford, começou a reunir informação sobre o português e organizou uma lista de pessoas, nos EUA, interessadas em Sousa Mendes. "Mas foi apenas quando conheci a sua família, e percebi as dificuldades por que tinham passado, que decidi envolver-me", diz. "Contaram-me que sonhavam recuperar a casa onde ele viveu, em Cabanas de Viriato, mas não tinham fundos. Então disse: 'Vamos angariar esse dinheiro nos EUA.'"

Nesse verão de 2010, Sebastian Mendes, neto do diplomata, reuniu-se em Washington com Lissy Jarvik e Harry Oesterreicher, cujas famílias receberam vistos, e Miguel Ávila, um gestor português emigrado na Califórnia. "No final da reunião, a fundação encontrava-se desenhada", afirma. "Tínhamos administração, presidente, estatutos, tudo." Em setembro, a Sousa Mendes Foundation já existia legalmente.

O primeiro objetivo era angariar dinheiro para recuperar a Casa do Passal (no último ano, juntaram cerca de 40 mil euros). Além disso, pretendiam divulgar a história do cônsul, com a realização de palestras, filmes e exposições, e, finalmente, queriam identificar todas as pessoas salvas.

Meses depois, Olívia visitou os pais, em Salt Lake City, no Utah, e aproveitou para conhecer a Biblioteca da História da Família. Nesta instituição, gerida pela igreja Mormon, acedeu a uma gigantesca base de dados. Com a lista de vistos emitidos a seu lado, pesquisou um primeiro apelido e... surgiu um resultado. O nome aparecia num rol de passageiros de embarcações com destino aos EUA. A seguir, mais um, e outro e outro. Rapidamente, percebeu que a lista era muito mais extensa do que imaginara. "Com o mesmo passaporte, podiam viajar várias pessoas", explica. Hoje, calcula-se que as assinaturas de Sousa Mendes tenham salvo cerca de 30 mil pessoas.

Olívia regressou a Nova Iorque, ampliou e imprimiu a lista de nomes e fez uma enorme colagem, que espalhou no chão da sua sala. Em janeiro do ano passado, perguntou a vários colaboradores da fundação se queriam ajudar nesta operação gigantesca de busca. Todos disseram que sim.

Nove pessoas trabalham hoje no projeto, esclarece Olivia, que é agora presidente da fundação. "Vivem em vários Estados americanos e uma investigadora reside na Bélgica. Ninguém trabalha a tempo inteiro e são todos voluntários, mas dedicam uma grande parte do seu tempo a esta missão." Em 18 meses, identificaram cerca de 3 mil pessoas que Sousa Mendes ajudou a fugir dos nazis. A maioria reside nos EUA, mas há outros no Brasil, Canadá, Israel, Bélgica, França, Holanda, Suíça, Portugal, Rússia e Polónia.

A equipa tem o trabalho facilitado: já não precisa de visitar bibliotecas. Tem acesso a páginas online como a ancestry.com ou a familysearch.org através das quais podem aceder a enormes bases de dados. "Se encontramos alguém... bingo! Fazemos um telefonema." 

Uma descoberta transformadora

No início do ano passado, Jonah Peretti, fundador dos sites  de informação Huffington Post e BuzzFeed, recebeu um desses telefonemas. 

A sua mãe, Della, estava em Genebra, na Suíça, mas ele contactou-a imediatamente. "Mãe, telefonaram-me de uma fundação. Dizem que fomos salvos por um homem chamado Sousa Mendes." A americana lembrou-se, então, de uma carta que a mãe escrevera antes de morrer, contando a sua fuga da Suíça. Quando regressou à Califórnia, recuperou o manuscrito:"Assim que chegámos a Portugal, tudo melhorou, de forma mágica... víamos sorrisos, era limpo, acolhedor, cuidado... Que alívio!"

Sobre a passagem pelo País, era tudo. "Fiquei chocada", lembra Della. "Seis pessoas da minha família receberam vistos e não sabia da existência do cônsul. Ninguém o conhece nos EUA. Como é possível?"

Meses depois, reformou-se da Universidade de Berkeley, onde era responsável por um mestrado em ciências da educação. "Estava à procura de um projeto para a minha reforma e este veio ter comigo", congratula--se. Prepara agora a tradução de um livro de banda desenhada que a fundação vai editar, faz parte da sua equipa de pesquisa e dá palestras. Por estes dias, participará numa viagem organizada pela Sousa Mendes Foundation, ao lado de Olivia Mattis e de outras 44 pessoas de oito países. Começaram no dia 9 de junho, em Paris, e terminam a 23, em Lisboa. Pelo caminho, irão visitar Bordéus, Vilar Formoso, Figueira da Foz e Cabanas de Viriato, para honrar a memória do cônsul.

Antes de partir para França, a 11 de abril, a professora discursou, no Tribunal Civil de Queens, em Nova Iorque, perante mais de 80 pessoas. O tema foi "Aristides de Sousa Mendes: um herói desconhecido". A americana contou a história de um homem nascido no seio de uma família privilegiada, que se tornou diplomata e contrariou as ordens de Salazar, ao emitir milhares de vistos, entre 16 e 23 de junho de 1940; mostrou imagens das suas assinaturas, muito corretas no início, depois desleixando os contornos, sobrando apenas um apelido mal desenhado nos últimos documentos; relatou o percurso dos fugitivos e mostrou uma fotografia da estação de comboios de Vilar Formoso, a primeira imagem que os refugiados tinham de Portugal; descreveu, finalmente, o julgamento deste homem, a forma como foi expulso da carreira diplomática, e como morreu, a 3 de abril de 1952, viúvo, com muitos dos 15 filhos dispersos pelo mundo, queimando as portas da sua casa para se manter quente. Della sublinhou todos os pormenores, captando a atenção dos americanos, que nunca tinham ouvido falar deste português, mas que foram sentindo de forma cada vez mais profunda as suas palavras, deixando primeiro cair algumas lágrimas, e rebentando, por fim, em aplausos.

 

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Edição número 1068 de 13 de Junho de 2013