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"A Gaiola Dourada", de Ruben Alves, já foi visto por mais de 430 mil

Sociedade

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D.R.

"Do cartão (da mala de Linda de Susa) passámos ao ouro". A frase não é de Ruben Alves, realizador do filme, que falou em exclusivo à VISÃO

Depois de um período em Portugal, a promover o seu filme de estreia, visto já por mais de milhão e meio de europeus, Ruben Alves, o ator e realizador lusodescendente de 33 anos, está de volta a Paris. Num intervalo entre gravações, falou ao telefone com a VISÃO, a quem disse conhecer a nova vaga de emigração, que está a levar ex-emigrantes, e filhos destes, de volta ao país para onde partiram nos anos 60/70.

"Tenho uma antiga colega de colégio que, aos 18 anos, depois de terminarmos o 12º ano, cumpriu a vontade de voltar a Portugal", conta. Entretanto perderam o contacto, mas ela escreveu-lhe agora a dar os parabéns pelo filme.

Ruben imaginava-a ainda em Portugal, mas a amiga está de novo em Paris: "Ela foi em 1998, no El Dorado portugês. Mas agora disse-me que a situação do país estava complicadíssima e que, por isso, tinha regressado a França, com o marido português e os dois filhos".

A história da antiga colega de Ruben passa por um verdadeiro regresso à "gaiola dourada". Filha de uma porteira portuguesa, cresceu numa casa de rés-do-chão com grades, como as características casas das concierges, em Paris. Foi a essa mesma casa que regressou recentemente para ocupar o lugar de porteira, revela o jovem realizador: "A mãe reformou-se e ela foi substituí-la".

Para Ruben, o fenómeno de "reemigração" (a expressão é do sociólogo José Madureira Pinto, ver edição impressa) vem ilustrar esse "caráter típico português, do desenrasca, do fazer-se à vida". Hoje, julga, a situação é ainda mais grave: "Dantes as pessoas partilhavam a sopa e o pão, hoje em dia quando há pobreza já não é assim. A mundialização individualizou-nos, tornou-nos egoístas", observa.

Com casa em Lisboa, onde volta sempre que pode de férias, para desfrutar da luz da cidade, do clima e da gastronomia do país onde os pais nasceram (o pai é natural de Guimarães, a mãe da Amadora), Ruben vê com tristeza a crise: "Portugal tem tudo para ser um país fantástico", julga e aumenta o tom de voz para o sublinhar. Mesmo à distância, tem uma posição crítica face às medidas tomadas pelo Governo: "Um Estado forte é o mais importante. Quando se começa a privatizar tudo está a perder a força. Esse enfraquecimento não deveria acontecer, mesmo quando se atravessa um momento de crise".

Tem recebido inúmeras mensagens de portugueses e, nomeadamente, de emigrantes e ex-emigrantes. Uma delas marcou-o especialmente: "Uma senhora portuguesa, emigrante cá, veio ter comigo em lágrimas e disse-me: 'É lindo o que fez. A gente estava desde os anos 80 com a imagem da mala de cartão da Linda de Susa. O Ruben traz a Gaiola e, de cartão passámos a ouro'".