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"A Jane Goodall não come chimpanzés e eu não como peixe"

Sociedade

Todd Brown

Em entrevista à VISÃO, a bióloga marinha Sylvia Earle defende que "podemos apanhar algum peixe do mar", mas garante que "a pesca industrial não é sustentável"

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

É impossível conversar com Sylvia Earle e continuar a abrir uma lata de atum com a mesma leviandade ou afirmar com orgulho que se prefere comprar “peixe de mar”. Aos 84 anos, a bióloga marinha norte-americana assume-se como uma porta-voz do oceano. Primeira mulher a dirigir a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e tendo passado milhares de horas debaixo de água, conhece a vida marinha como ninguém. Dedica-se agora à sua fundação Mission Blue, que com o apoio da Rolex elege áreas de proteção marinha pelo planeta. No mar dos Açores, viu cachalotes e concretizou o sonho de mergulhar em plena dorsal mesoatlântica, a imensa cordilheira que atravessa o Atlântico, aparecendo à tona em alguns sítios, como os Açores e a Islândia. “Foi uma grande satisfação, sob várias perspetivas. Geológica, biológica, psicológica...” Volta a Portugal como “cabeça de cartaz” da conferência O Futuro do Planeta, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que decorre em Lisboa, a 14 e 15 de setembro.

O arquipélago dos Açores foi classificado recentemente como Local de Esperança (Hope Spot). Como lhe pareceu o estado do mar quando lá esteve?
Uma das coisas maravilhosas dos Açores é a presença de cachalotes. Uma população que lá vivia ainda antes de existirem pessoas e que eu acredito que continuará a viver lá no futuro. Vimos mães e juvenis, e um cachalote a sair totalmente da água. Há uma longa história de baleeiros, que os caçavam. Mas hoje o valor do cachalote vivo é muito superior ao que tinha quando era morto. São uma fonte de respeito, prazer e lucro para os açorianos.

O que significa a classificação de Hope Spot?
Estas áreas de proteção marinha funcionam como locais de descanso para o oceano, lugares seguros para animais que gostamos de comer ou transformar em produtos. Não podemos apanhá-los sem controlo e esperar que estes animais continuem a existir. Quer gostemos de os ver vivos ou no nosso prato é preciso tomar medidas enquanto ainda há animais. Por exemplo, os tubarões ficaram reduzidos a 10% do que já foram. É uma loucura! Os tubarões andam pelo mundo há 400 milhões de anos e no nosso tempo, no último século, em especial nos últimos 50 anos, e com a nossa capacidade de capturar, matar e vender, destruímos os tubarões e outros animais selvagens de uma forma sem precedentes.

Como chegámos aqui?
Se os humanos querem ter um futuro próspero, ou sequer um futuro, têm de respeitar e cuidar do mundo natural. Quando eu era criança, havia a ideia de que o oceano era capaz de comportar tudo, que podíamos pôr lá qualquer coisa que desapareceria ou tirar o que quiséssemos que seria recuperado. Mas eu sei, ao ter sido testemunha ao longo destes 50 anos, passando milhares de horas debaixo de água (vivi dez vezes debaixo de água, num submarino, como cientista), que o oceano está em sério declínio. Por esta razão, espero poder inspirar as pessoas e mostrar que é o oceano que nos mantém vivos e que temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o proteger e o restabelecer. Precisamos de fazer as pazes com a Natureza. Se falharmos nesta missão, o nosso futuro é sombrio.

E ainda vamos a tempo?
Não vamos conseguir voltar ao que já foi. Mas podemos inverter a tendência atual. Sabemos o que temos de fazer. O que falta é a vontade.

Defende a responsabilidade individual. Mas há um limite à capacidade individual que não conseguimos ultrapassar sem o compromisso dos governos ou das grandes empresas.
Os governos e as grandes empresas são compostos por pessoas. Somos nós que nomeamos o governo. Podemos fazer escolhas. Vai ser preciso mais do que políticas empresariais ou leis governamentais. Se as pessoas fizerem as escolhas certas relativamente ao que comer, ao que usar, como viver... É isso que conta verdadeiramente. É claro que ajuda haver leis para reforçar os comportamentos adequados. Mas se as pessoas não concordarem com estas leis, não as respeitarão. É mudando as mentes e os corações das pessoas que lá chegamos. Há 100 anos, o mundo natural estava praticamente intacto. Éramos muitos menos e podíamos cortar árvores ou pescar peixe que estava tudo bem. Hoje vemos que 90% do peixe que é explorado comercialmente desapareceu dos oceanos. Fomos saltando de uma espécie para outra até chegarmos a peixes de águas profundas, longe da costa. Não podemos continuar neste nível. Tiramos demasiado, muito depressa. E isto é tudo uma questão de escolha, de hábitos.

O que defende? Que deixemos de comer peixe, que escolhamos peixe de aquacultura? O que faz, come peixe?
Não, não! A Jane Goodall não come chimpanzés e eu não como peixe. Cresci numa quinta e basicamente consumíamos o que produzíamos. Quando íamos para a costa de New Jersey, no verão, comíamos peixe. O oceano é um sistema vivo, não é só rocha e água. Sim, podemos apanhar algum peixe do mar. Mas a pesca industrial não é sustentável. Somos muito bons na extração. Mas não o somos na manutenção dos ecossistemas. O atum, as enguias… Quem poderia imaginar que iríamos acabar com os stocks de enguias, que hoje se resumem a 3% do que existia quando eu era criança? Somos insaciáveis no nosso apetite por vida selvagem!

Como se reflete na Terra o que se está a passar no oceano?
O oceano é o maior ecossistema do planeta e na verdade o que está em risco é a manutenção da vida na Terra, de uma forma que seja adequada aos humanos. Se destruirmos a vida, ficaremos com um planeta muito semelhante a Marte. É possível que consigamos adaptar-nos a Marte, mas não vai ser fácil. Não podemos respirar o ar, não há nada para comer, a água existe, mas não duma forma que possamos consumi-la. A Terra é o resultado de 4,5 mil milhões de anos de desenvolvimento, que deram origem a um planeta com os ingredientes perfeitos para a nossa existência. Hoje somos quase oito mil milhões e estamos a consumir os sistemas que sustentam a nossa existência. A questão é: podemos continuar a progredir? Sim, mas não mantendo os mesmos hábitos, os mesmos costumes. Alimentarmo-nos de vida selvagem já não é uma opção. Temos de cultivar aquilo que consumimos. As pessoas irão, seguramente, continuar a pescar algum peixe do mar. Mas a extração industrial de vida selvagem, do oceano, não é sustentável. Basta olhar para os números: 90% de perda em menos de meio século.

O que propõe então? Que cultivemos o peixe ou que não o comamos de todo?
Ouçam os peritos: temos de basear a nossa alimentação em plantas. É melhor para o planeta e para a nossa saúde. Podemos sobreviver muito bem sem comer animais. Quanto mais alto vamos na cadeia alimentar, maior a quantidade de toxinas que estes animais contêm. Percebo que as pessoas que não tenham muitas opções, as populações costeiras, continuem a viver da pesca. Mas isso não inclui as grandes empresas que levaram a pesca para uma escala insustentável. Isso não é alimentar as pessoas que realmente precisam.

Mas a agricultura intensiva também não é totalmente sustentável.
Consegue imaginar alimentar oito mil milhões de pessoas com vida selvagem? Não é possível! A única forma de manter este nível de prosperidade é pelo cultivo de quatro tipos de plantas, especialmente: milho, arroz, trigo e soja. Isto representa cerca de 80% das calorias que as pessoas, em todo o mundo, consomem. E ainda há a fruta e os vegetais. Há 500 anos, quando Magalhães deu a volta ao mundo, éramos apenas 500 milhões 
de pessoas na Terra. Hoje, somos 7,7 mil milhões e temos uma capacidade de extração de vida selvagem que afetou de forma dramática a vitalidade deste planeta vivo. Que futuro queremos? Queremos cortar a última árvore, comer o último atum? Ver os glaciares e os gelos polares a derreterem? Sabemos o que fazer. Os ursos polares não sabem o que fazer; os elefantes, que até são muito espertos, não sabem como lidar com este declínio planetário que não causaram. Fomos nós que o causámos. Mas nós também somos a cura. Temos um superpoder no século XXI, chama--se conhecimento. Há 100 anos não poderíamos saber o que sabemos hoje. Nem os maiores génios conseguiriam fazer o que está hoje ao nosso alcance.

O oceano é o primeiro sítio onde podemos ver o impacto das alterações climáticas.
Exato.

Já se encontrou com o Presidente Trump? Teve oportunidade de o sensibilizar para estas questões?
Não. E estou convencida de que ele não iria querer ouvir-me. É uma pessoa que não tem uma mente aberta, não olha para as evidências.

Ter um Presidente que nega as evidências limita o poder de atuação dos cidadãos.
Limita se a pessoa achar que limita, se se convencer de que não pode fazer nada, de que é apenas um. Este tipo de pensamento paralisa-nos. Os miúdos não estão a deixar que isto aconteça. Podemos fazer escolhas. Não temos de comer atum. Podemos decidir parar e deixá-lo em paz. É uma escolha pessoal que pode fazer a diferença. Não posso dizer às pessoas o que fazerem, mas posso sugerir que olhem para os problemas e escolham uma área em que possam atuar. Pode ser a retirar os plásticos no oceano, a apoiar um político em que se revejam. Tratemos o mundo natural com dignidade e respeito. E as pessoas também. Basta olhar para as evidências. Eu acredito que já está alguma coisa a acontecer. As pessoas percebem a importância de haver água limpa, ar que se possa respirar.

O que propõe exige uma grande mudança, a vários níveis.
Mudam-se os tempos e as culturas mudam inevitavelmente. Olhemos para a atitude perante a escravatura, ou as mulheres, ou a alimentação. Hoje comemos coisas que há 50 anos ninguém imaginaria que estivessem no menu. Desenvolvemos o gosto, temos curiosidade por experimentar coisas novas. Criou-se um gosto por caviar. É uma preferência associada ao luxo, aprendida. E por causa disso o número de esturjões que existe hoje em dia é uma pequeníssima fração do que existia há 100 anos. Podem nem sequer sobreviver a este século, se não os deixarmos em paz. Se gosta mesmo de caviar, é boa ideia parar de o comer. Agora! Para que talvez no futuro haja peixe suficiente para que possamos satisfazer a nossa gula com as suas ovas. Quanto mais raro se torna, maior a tentação, maior o luxo. Já aconteceu com o atum. Há sítios onde se tornou tão raro que passou a ser um luxo. Mas o atum que compramos em lata, no supermercado, é muito barato. Parece barato, mas é porque os nossos impostos estão a subsidiar as frotas industriais, que fazem extração em larga escala. Não representa o custo real porque não contabiliza o buraco que fica no oceano, nas zonas onde foi pescado. Isto tem um valor que não está a ser contabilizado. A pesca industrial é uma atividade muito lucrativa. O peixe é de graça, as embarcações e o combustível são subsidiados, não há impostos a pagar sobre a zona explorada.

Na aquacultura é diferente.
Sim, pode haver alguma aquacultura útil. Mas não a criar carnívoros para alimentar as pessoas. Não é custo-eficiente. Um atum demora 10 a 14 anos para ir de ovo a adulto.

Onde acha que a sua voz é mais necessária?
Olhamos para o oceano e vemos apenas a camada superficial. Não fazemos a mínima ideia do que está por baixo, mas devíamos. É o nosso sistema de apoio à vida. Precisamos de mudar a forma como pensamos acerca do oceano. E se optar por comer um animal selvagem, saiba o que é, de onde veio, que idade tem e, por favor, coma-o com grande respeito, porque ele certamente o merece.

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