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Como um buraco na cabeça de uma enfermeira levou a que se tratasse a enxaqueca de forma errada durante mais de 70 anos

Sociedade

"A paciente", de Felix Vallotton

Leemage

As observações feitas nesta paciente, em 1936, ajudaram a classificar a enxaqueca como uma patologia de origem vascular - uma teoria só completamente abandonada há 10 anos

É uma das doenças mais incapacitantes dos nossos dias mas também uma das mais complexas de tratar. As causas da enxaqueca – ou das enxaquecas, uma vez que há mais de 200 tipos diferentes – ainda não estão cabalmente esclarecidas e, ao longo do século XX, várias teorias foram sendo debatidas.

A hipótese de que esta seria uma doença de origem vascular ganhou popularidade depois da publicação de um estudo de caso na revista Allergy por um médico do Tennessee, Alfred Goltman, em 1936. A paciente acompanhada era uma enfermeira de 26 anos que se queixava de dores de cabeça intensas, com náuseas e vómitos, desde a infância. As suas enxaquecas duravam 1 a 3 dias e Goltam procurou perceber se as causas poderiam dever-se a alguma alergia, tendo comprovado que era intolerante ao trigo e sensível também ao pó, penas, leite, queijo, mariscos e alguns frutos secos e legumes. De resto, todas as suas análises de sangue e urina apresentavam resultados normais. Ao observá-la reparou que tinha na cabeça uma depressão na zona frontal esquerda. Quatro anos antes, outro médico tinha feito uma abertura circular no seu crânio para realizar uma “exploração cerebral” durante um episódio de enxaqueca, apenas com anestesia local. O neurocirurgião Raphael Eustace Semmes tinha estudado em Harvard com Harvey Cushing, considerado o pai da neurocirurgia moderna. Depois de cortar a dura, a membrana espessa que cobre o cérebro, verificou uma descompressão do cérebro, com saída de muito líquido. Não tendo encontrado evidência de um tumor, considerou que a libertação da pressão que existia no cérebro seria suficiente para aliviar as dores de cabeça da mulher. Não foi – e por isso ela continuou em busca de outros tratamentos médicos.

No consultório de Goltam, durante um episódio de enxaqueca, o médico conseguiu observar que o cérebro da enfermeira inchava de tal forma que parecia sair pelo buraco exploratório de Semmes, criando-se uma protuberância que, descreveu, “não era macia como o tecido cerebral”, assumindo antes a aparência de um tumor. Quando a dor passava, o inchaço desaparecia e a massa voltava a retrair-se na concavidade.

A publicação do estudo de Goltam deu força à teoria, proposta pela primeira vez durante o século XIX, de que a enxaqueca tinha uma origem vascular, caracterizando-se pela dilatação dos vasos sanguíneos durante um ataque.

Só na segunda metade do século XX começaram a ser estudadas de forma mais aprofundada as causas multifatoriais desta doença neurológica

Só na segunda metade do século XX começaram a ser estudadas de forma mais aprofundada as causas multifatoriais desta doença neurológica

A teoria vascular influenciou os caminhos de muitos cientistas durante décadas. Só depois do ano 2000 começaram a surgir estudos que a colocavam completamente de parte. Entretanto, milhões de pacientes tomavam medicamentos vasoconstritores tentando debelar as enxaquecas Muitos não sentiam qualquer alívio nem viam o número de episódios diminuir, prosseguindo por isso, por vezes durante anos, a busca por uma solução médica que parecia não existir.

Em 2009, uma análise de estudos realizada por Peter Goadsby e publicada na revista Brain, provou de forma definitiva que, apesar de existirem alterações vasculares durante a enxaqueca – e os pacientes queixam-se frequentemente de dores latejantes -, não é essa a causa da dor sentida. Em diferentes grupos de pacientes foram induzidas vasodilatações iguais às observadas durante as enxaquecas, mas em nenhum deles a dor era desencadeada. Ou seja, como explica, Goadsby, “não é a dilatação mas a ativação do receptor da dor que é importante na enxaqueca”, sendo “a vasodilatação um epifenómeno que não é necessário nem suficiente” para que surjam os sintomas. A dor só surge quando há a libertação de determinados neuropéptidos nas fibras sensitivas C nos terminais da divisão oftálmica do trigémeo.

Estas investigações influenciaram de forma determinante os novos rumos que a indústria farmacêutica explora agora, para descobrir a forma de “desligar” o mecanismo que espoleta algumas enxaquecas, ainda sem tratamento eficaz conhecido. Percebeu-se também que medicamentos criados para outras patologias, como a epilepsia e a depressão, ajudavam a aliviar os sintomas de muitos pacientes (embora nem sempre se perceba o “porquê”).

Dois milhões de portugueses têm enxaquecas e, entre estes, há um grupo de 700 mil pessoas a quem a esta doença neurológica afeta de forma mais severa, quer pela intensidade das dores de cabeça quer pela frequência: três a quatro vezes por mês.

Quem sofre de enxaquecas regulares deve procurar apoio médico, até porque estão a surgir novas terapias todos os anos e não haverá nada mais doloroso do que permanecer com esta doença – longe vão os tempos em que se faziam “buracos exploratórios” para decifrar este enigma do cérebro.

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