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Relato na primeira pessoa de um passageiro do primeiro voo de 20 horas do mundo 

Sociedade

Em março do ano passado, a companhia áerea Qantas já tinha feito um voo sem escalas entre Londres e Sydney. Agora, a experiência foi feita entre Nova Iorque e aquela mesma cidade australiana

A bordo, seguiam cientistas, médicos e voluntários. Eis como, de Nova Iorque, nos EUA, a Sydney, na Austrália, aquele Boeing Co.Dreamliner se tornou um laboratório voador

Simplificando, trata-se de uma ultramaratona sem escalas. Qualquer coisa como 16 200 quilómetros, ao longo de 19 horas e meia, e sim, foi quase tão exigente quanto parece, escreve o autor que viajou a convite da Qantas Airlines, a maior empresa aérea australiana, e a terceira mais antiga do mundo.

O voo chegou à Austrália na manhã de domingo e as dezenas de passageiros que aceitaram embarcar naquele Boeing Co.Dreamliner chegaram todos sãos e salvos, mesmo que alguns não tivessem bem a certeza de que dia era.

Interessada em vender esta rota, que consegue economizar tempo a esta travessia, a companhia decidiu então lançar esta viagem de teste e partir à descoberta de uma maneira de reduzir aquela que é uma inevitável desvantagem: o jet leg, que por enquanto continua a rebentar corpo e espírito depois de tantas horas nas nuvens.

Ora então foi assim, segundo o relato da Bloomberg, que contava com um jornalista seu dentro do avião.

Embarque

Passam poucos minutos das nove da noite em Nova Iorque, o avião acabou de levantar no Aeroporto Internacional JFK e acionamos de seguida o modo experiência. Ou seja, como o objetivo é adaptarmo-nos ao fuso horário do destino o mais rápido, ajustam-se logo todos os relógios à hora da cidade australiana. Isso significa então que não são horas de descansar. É por isso que as luzes permanecem acesas e temos instruções para ficar acordados por, pelo menos, seis horas. Basicamente, até ser noite na Austrália. Começam os problemas para alguns passageiros.

Na classe executiva estão seis passageiros frequentes da Qantas que sejam um programa feito à sua medida, para poderem comer e beber, exercitarem-se e dormir. Usam leitores de movimentos e sensores nos pulsos e foi-lhes solicitado que registassem as suas atividades: Aliás, já estão em observação há alguns dias e serão monitorizados durante um total de 21 dias. A maioria vê filmes atrás de filmes, ou aproveita para ler, mas um deles acaba por adormecer por uns minutos. Para ser justo, estou solidário com ele: que interessa que seja meio-dia em Sydney se o meu corpo insiste que é perto da meia noite em Nova Iorque?

Duas horas depois

É hora de comer e um momento-chave desta experiência. Os pratos especialmente preparados devem animar-nos, mas a porção saborosa de camarão escalfado com pimenta e limão acaba por revelar-se uma espécie de tabefe na cara da culinária, se esta a tivesse. O bacalhau picante ao estilo chinês, com arroz de jasmim e sementes de gergelim, repete a ação explosiva. Resultado: fico momentaneamente acordado.

Os 40 passageiros do avião, incluindo a imprensa, estão todos na classe executiva. A verdade é que, com tão poucos passageiros, não é preciso alguém ir em económica. À conversa com Alan Joyce, o CEO acabou por revelar que os voos a sério do Project Sunrise – caso o projeto avance - terão mais espaço para as pernas em económica do que os aviões tradicionais, e haverá ainda espaço na parte traseira da aeronave para quem quiser fazer alongamentos.

Já as seis cobaias humanas que estão no centro das atenções deste laboratório-voador vão sentadas de um só lado da cabine. Mas eu quero fazer a minha própria bateria de testes para ver como é que o meu corpo se está a aguentar.

A conselho de um médico antes da viagem, estou armado com equipamento para monitorizar a pressão arterial, a frequência cardíaca e ainda a saturação de oxigénio. Tenciono ainda responder a um teste de memória e a um questionário humorístico. A ver se um voo tão longo prejudica o meu cérebro ou o meu sentido de humor.

Os testes de três horas que faço durante a primeira metade do voo refletem as demandas dessa viagem. A pressão arterial está alta, embora não muito alta, e a frequência cardíaca também aumentou. Já o meu humor até está mais ou menos bem, mas não se recomenda assim tanto e vou perdendo, gradualmente, a capacidade de me rir.

Três horas de voo

A pressão física desta experiência é muito clara. À minha volta há passageiros de pé só a tentarem manter-se acordados. Foi-nos ainda pedido que mentivessemos um diário das horas de sono e a servir-nos de iPads para avaliar a fadiga, o tempo de reação, a carga de trabalho e o nível de stress. Reparo então que aquele passageiro frequente e sonolento, sentado na parte da frente do avião, está novamente a dormir.

Quatro horas depois

Marie Carroll, professora da Universidade de Sydney, que supervisiona o estudo com os passageiros daquele voo, reúne então as suas tropas na parte de trás do avião. Momentos depois estão encostados aos carros de comida, a esticar-se. De seguida, umas flexões entre as cadeiras de económica, que vão vazias. No fim, tentam uns movimentos de dança sincronizada nos corredores. Tudo em nome da ciência.

É que parece brincadeira, mas ultrapassar o jet leg é mais difícil do que parece. Além das noites sem dormir e do cansaço acumulado do dia, os especialistas reconhecem que determinados processos cruciais à nossa vida, como a função cardíaca e o metabolismo, ficam abalados quando o nosso relógio biológico é interrompido.

Sete horas de voo

São horas de uma segunda refeição. Para mim, ser alimentado duas vezes numa sucessão de acontecimentos relativamente rápida ajuda o tempo a passar, sobretudo nesta primeira parte do voo. O menu também foi feito a pensar nisso e nas horas que se seguem: rico em hidratos de carbono, a sua intenção é, literalmente, deixar-nos a dormir. A sopa de batata doce com creme frâiche é espessa e rica, e a sanduíche de queijo tostado só um bocadinho menos gulosa. É quando o chef do avião me diz que está a preparar as nossas refeições há três dias,

As luzes estão finalmente apagadas e parece que fomos dispensados. Caio redondo a dormir durante seis horas, mais do que me lembro de dormir sem acordar qualquer outro voo, mesmo quando tive o privilégio de uma cama em classe executiva.

Catorze horas no ar

Em geral, a minha própria monitorização diz-me que estou a lidar com as questões inerentes a este voo. Por exemplo, a pressão arterial, que o médico australiano me disse que seria um bom medidor para o stress e o cansaço, voltou ao normal. O coração já está a bater mais devagar, completo com alguma facilidade o teste de memória, e até o meu humor está bem melhor.

Entretanto, Alan Joyce, o CEO que nos acompanha na viagem, revela-me estar a pensar em alargar aquele modelo de voo a outras rotas longas – contando que a ciência vai mostrar que isso ajuda. “O truque é acomodar os que querem beber e dormitar à sua vontade”, anui Joyce.

Mas, calma, não reserve já os seus voos de sonho para dar a volta ao mundo. A Qantas precisa de novos aviões da Boeing, ou Airbus SE, que possam fazer o trabalho com uma carga total de passageiros e também de um novo acordo com a tripulação, para que aceite trabalhar mais de 20 horas seguidas.

“É preciso tudo isto para que se concretize”, nota ainda o CEO, que durante anos sonhou com verdadeiros hotéis voadores, com camas e zonas de exercício, até que foi ultrapassado pela realidade, quando as margens de lucros se mostraram demasiado apertadas para desperdiçar espaço com tais luxos.

Para já, aquele avião não consegue voar tanto tempo se estiver com a lotação cheia – passageiros e respetiva bagagem. Apesar de ter levantado voo com os tanques de combustível no máximo, para não ir sobrecarregado, não há carga alguma nos porões e tanto a comida como a bebida são limitadas. À saída, em Nova Iorque, o capitão estava confiante de que íamos aterrar em Sydney com gasolina de sobra – como quem diz, seis toneladas de combustível, o suficiente para permanecer no ar durante mais 90 minutos.

Dezassete horas de voo

São horas do café da manhã e, em vez do habitual, apresentam-nos uma tigela de grão, com puré de abacate com queijo aquecido e uma salada de ervas. “Este voo está a virar tudo ao contrário”, penso, mas não digo, claro.

Um dos passageiros frequentes, o investidor de Sydney, Nick Mole, diz que dormiu quase oito horas e se sente bastante bem. Provoco-o um bocadinho: “E que tal um dia inteiro de trabalho após o desembarque?” A resposta não é menos surpreendente: “Provavelmente, conseguiria fazê-lo”, responde-me, a considerar que os efeitos maiores se vão sentir a sério em alguns dias e aí é que vai avaliar como é que lida com tudo isto.

Prestes a pousar

Sinto-me francamente melhor do que quando voei de Sydney para Nova Iorque, há uns dias, com uma escala. Sobretudo, porque as dezenas de horas que demorámos até Los Angeles foram seguidas de uma hora e meia até passar as barreiras da imigração, ao lado de centenas de outras pessoas também em trânsito, quase pareciam zombies.

Conforme o avião se aproxima do destino, Alan Joyce, o CEO que nos acompanhou neste voo de teste, confessa que a experiência lhe deu mais confiança de que este Project Sunrise pode mesmo funcionar.

É verdade que, pessoalmente, escolheria um voo direto entre Sydney e Nova Iorque em vez de um com escala. Mas isso não resulta com todos: foi preciso disciplina e trabalho para conseguir ficar acordado na primeira metade deste voo. E mesmo que haja benefício em mudar para o horário de destino mal se embarca, quer se queira quer não, isso tem um preço.

Agora, os dados recolhidos durante este voo contribuirão para melhorar o anunciado plano da Qantas para iniciar voos comerciais diretos a ligar a cidade de Sydney tanto a Nova Iorque como a Londres – e há já outros voos longos em vista, da costa leste da Austrália para a América do Sul e para África, que se habilitam a ser os próximos.