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Dançar de headphones na cabeça: a noite em que estivemos numa 'discoteca silenciosa'

Sociedade

Com Lisboa à vista No topo das Amoreiras, uma festa silenciosa em que cada um pode dançar ao som de diferentes ritmos

Marcos Borga

Porque não se quer incomodar os vizinhos ou porque apetece experimentar algo novo – as silent discos vieram para ficar. Basta pôr auscultadores e é como se ninguém estivesse a ver

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Sempre que sinto inveja, lembro-me de uma determinada cena de filme. Por causa de vários anos de catequese, sei que “não cobiçarás” é o décimo mandamento, mas quando enverdeço por alguma coisa não me aparece a imagem de Moisés. Aparece-me uma senhora de cabelo curto e acinzentado, a dizer a um empregado de restaurante: “Quero aquilo que ela está a comer.” Ela é Sally/Meg Ryan e acabou de fingir um orgasmo à mesa, impressionando o seu amigo Harry/Billy Crystal e também a tal senhora que na vida real era a mãe de Rob Reiner, o realizador de Um Amor Inevitável (When Harry Met Sally, no original).

Uma destas noites, aconteceu-me outra vez. Estava há meia hora no topo da Torre 1 das Amoreiras, a 174 metros de altura, encantada com as luzes de Lisboa em redor, quando reparei numa millennial a dançar serenamente, de olhos fechados. Ela tinha, como eu e toda a gente no miradouro, uns grandes auscultadores sem fios, daqueles que cancelam o ruído. E foi o seu ar tranquilo que me chamou a atenção, porque à nossa volta quase todos se moviam freneticamente. “Quero aquilo”, pensei, carregando num pequeno botão dos headphones, e logo o reggaeton que estava a ouvir foi substituído por uma pop mais calma.

Por uns minutos, eu e ela éramos as únicas pessoas com led encarnado nos auscultadores. O das outras era verde, nessa noite a cor do DJ que ficara encarregado do canal mais histriónico. Não estivesse o Amoreiras 360º Panoramic View limitado a apenas 50 visitantes, por questões de segurança, e seriam muitos os encontrões involuntários. Dançar de headphones torna a experiência mais imersiva e, ao mesmo tempo, mais única, percebi rapidamente – e por isso dei por mim a querer repeti-la sem ter de ir a Coachella.

A verdade é que já não é preciso ir à Califórnia para experimentar uma silent disco (discoteca silenciosa, à letra). Ainda antes de esse festival ter um espaço reservado para as pessoas dançarem como se ninguém estivesse a ver, o fenómeno espalhara-se um pouco por todo o mundo, Portugal incluído.

Hoje é possível alugar auscultadores com dois, três ou quatro canais e improvisar uma pista de dança em qualquer lado, quase sem gerar ruído, como fez a Mundicenter, dona do complexo das Amoreiras. Essa é uma das vantagens, mas há mais que explicam a disseminação deste tipo de festas (Ver Além de não incomodar a vizinhança).

Uma ideia de 1967

A primeira vez que se viu uma pista de dança silenciosamente desassossegada foi em 1967, no último capítulo de Astro Boy, manga de ficção científica do japonês Osamu Tezuka. Nessa cena que se passa no verão de 1993, temos o protagonista, Astro, a entrar numa festa em que toda a gente dança de auscultadores.

A ideia futurista morreria ali, mas em 1994, ano de Mundial de Futebol nos Estados Unidos da América, os organizadores do Festival de Glastonbury, no Reino Unido, ligaram uma transmissão de rádio ao ecrã gigante para que o público pudesse assistir aos jogos mais tardios e a vídeos dos concertos, já depois do toque de recolher. Cada pessoa ouvia o relato ou a música num pequeno rádio portátil e, assim, não incomodava o resto da cidade. Não era uma discoteca, mas dançou-se muito.

Três anos depois, Erik Minkkinen, então vocalista e guitarrista do grupo francês Sister Iodine, fechou-se num armário e tocou um DJ set em streaming para três pessoas, no Japão. E, em 1999, este mesmo músico parisiense criou o Le Placard (placard é armário, em francês), um “headphone festival” nómada que ainda hoje existe – a última edição aconteceu em julho, em Périers-en-Auge, na Normandia. Foi também nesse ano que os americanos Flaming Lips distribuíram walkmans durante um concerto em Dallas e pouco depois na sua tournée International Music Against Brain Degeneration Revue. Queriam que o público ouvisse toda a sonoridade do álbum The Soft Bulletin e apostaram que isso só seria possível com auscultadores.

Dali para a frente, há notícia de mais alguns concertos pensados apenas para serem ouvidos com headphones. Quanto às pistas de dança propriamente ditas, elas apareceram em 2002, pela mão dos DJ holandeses Nico Okkerse e Michael Minton, que se tornaram conhecidos pelas suas “stille discos” (stille é silencioso em neerlandês). E a primeira grande festa deste género de que há memória aconteceu em 2005, uma vez mais em Glastonbury, por sugestão da filha de um dos produtores do festival que estavam aflitos sem saber como contornar as restrições legais ao ruído.

Em Portugal, podemos recuar a maio de 2007, à primeira edição do festival de música eletrónica Creamfields, no Parque da Bela Vista, em Lisboa. Nesse ano, uma marca de cerveja patrocinava uma tenda em que se dançava de auscultadores e o humorista, locutor de rádio e apresentador de televisão Fernando Alvim foi um dos DJ.

Desde então, a expressão “silent disco” já entrou nos dicionários anglo-saxónicos; e, com o avanço da tecnologia, passou-se dos infravermelhos para a radiofrequência de baixo alcance, muito mais eficaz na transmissão. Haja vontade que, mesmo em silêncio, podemos dançar.

Além de não incomodar a vizinhança

O melhor

Podemos zappar continuamente entre as playlists de dois ou três DJ
Somos nós que escolhemos o volume da música
No dia seguinte, não ficamos roucos nem com zumbidos nos ouvidos
Ouvimos sempre a música, até na fila para a casa de banho
O fator novidade ajuda a meter conversa com desconhecidos

O pior

Se houver interferência de rádio, ouvimos a música aos soluços
Se esquecermos os auscultadores, podemos cometer inconfidências em voz alta
Os tímidos podem sentir-se envergonhados com as figurinhas que fazem
Como ficamos mais distraídos, acabamos facilmente a dar encontrões
A experiência é tão imersiva que corremos o risco de nos sentirmos sozinhos