Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Vírus 'comum' detetado em dezenas de crianças paralisadas com doença semelhante à poliomielite 

Sociedade

A suspeita é de que esta doença seja causada por um vírus que entra no organismo pelo estômago e se espalha até atingir o sistema nervoso central

O seu nome técnico é mielite flácida aguda, mas a doença é mais conhecida por AFM e o seu início não é muito diferente da comum constipação: frio, frio e arrepios de frio. Depois, progride para uma sensação de fraqueza e paralisia dos membros, numa questão de dias. Documentada pela primeira vez em 2012, desde então surgem surtos de AFM de dois em dois anos. Há, de momento, mais de 500 casos confirmados. Mas como houve sempre uma dificuldade em identificar a sua causa, a AFM tem sido objeto de um debate contencioso na comunidade médica.

Segundo o que publicou agora a Nature Medicine, houve uma crescente evidência de que o desenvolvimento da doença envolvia enterovírus (EV), agentes patogénicos cujo principal meio de replicação é gastrointestinal. Os seus surtos, geralmente comuns e não provocando nada de mais grave do que os tais sintomas de constipação ou então meras erupções cutâneas, começaram a coincidir com picos na AFM. A equipa da Universidade de São Francisco, responsável pela investigação, confirmaram ainda que também que as amostras respiratórias de crianças diagnosticadas com AFM costumam dar positivo para EV. Em estudos feitos com ratinhos de laboratório, eram de estirpes que causavam ainda paralisia.

Mas muitos especialistas continuaram céticos quanto à hipótese do EV, propondo antes que a AFM é um distúrbio autoimune ou então seria causado por algum outro vírus ainda não descoberto. Incrédulos, argumentaram que as evidências que ligavam o vírus à AFM eram circunstanciais, porque não fora encontrado em 98% dos pacientes que tiveram a espinal medula testada. No fim, sustentaram mesmo que, ainda que houvesse ampla evidência de que esse enterovírus invadira o sistema nervoso humano, não se podia estabelecer essa ligação.

À procura dessa prova, Michael Wilson, professor de neurologia e a sua equipa de colaboradores - do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, do Departamento de Saúde Pública da Califórnia, Universidade do Colorado, Hospital Infantil de Boston e Universidade de Ottawa - usou então uma versão aprimorada de uma ferramenta de caça a vírus chamada VirScan, desenvolvida pela primeira vez na Harvard Medical School. É, resumindo, uma versão personalizada de uma técnica vencedora de um Prémio Nobel e que permitiu à equipa de Wilson investigar esse fluido da espinal medula em pacientes com AFM, à procura de uma resposta imunitária contra EV e milhares de outros vírus.

"Quando há uma infeção na espinal medula, as células do sistema imunitário que produzem anticorpos viajam para lá e produzem mais anticorpos. Assim, se encontrarmos anticorpos contra enterovírus no tal fluido de pacientes com esta doença isso significa que o vírus vai realmente para lá”, sublinhou ainda disse Ryan Schubert, MD, clínico do Departamento de Neurologia da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) e principal autor do novo estudo.

Os investigadores criaram então bibliotecas moleculares que consistem em quase 500 mil pequenos pedaços de cada proteína encontrada nos mais de 3 mil vírus conhecidos por infetar vertebrados (incluindo humanos), bem como naqueles que infetam mosquitos e também carraças - num esforço para descartar a transmissão de doenças através de suas picadas).
Depois, expuseram esses agentes ao líquido da medula de 42 crianças com AFM e, como controlo, a 58 diagnosticadas com doenças neurológicas. Assim qualquer pedaço de proteína viral com reação cruzada com quaisquer anticorpos presentes no líquido forneceriam evidências de uma infeção viral no sistema nervoso central.

Foi o caso em quase 70% dos pacientes com AFM, enquanto nos outros o resultado positivo para esses anticorpos não foi além dos 7 por cento.

"A força deste estudo não é apenas o que foi encontrado, mas também o que não foi encontrado", disse Joe DeRisi, Ph.D., professor de bioquímica e biofísica da UCSF, e outro dos autores do estudo. "Os anticorpos contra enterovírus foram os únicos a ganhar força nos pacientes com AFM. Nenhuma outra família viral apresentou níveis elevados de anticorpos".

Ainda assim, há muitas respostas por encontrar. "Imaginamos que haja mudanças a fazer com que o agente da doença seja mais virulento, mas ninguém sabe ao certo o que são", disse ainda o outro investigador da UCSF. "Como o vírus é encontrado em quantidades tão baixas, é difícil se concentrar nas diferenças entre um vírus A71 que causa doenças rotineiras nas mãos, pés e boca e um que causa AFM".

Além disso, como os enterovírus são extremamente comuns, os cientistas ainda estão a tentar descobrir porque razão menos de 1% das crianças infetadas sofrem de AFM – e além disso, falta ainda saber porque as crianças são as únicas afetadas. "Não sabemos ao certo o que faz as crianças ficarem paralisadas e os adultos não", rematou Schubert. "A pensamento é que as crianças pequenas têm baixa imunidade ao vírus e que isso aumenta à medida que envelhecem, daí vermos os efeitos mais graves em crianças com cerca de dois anos de idade. Há ainda muito a fazer para compreender a AFM".

Para outro co-autor do estudo, Riley Bove, MD, responder a essas perguntas é também uma missão profundamente pessoal. Bove, professor assistente de neurologia e membro do Instituto de Neurociências da UCSF, é mãe de uma criança que foi diagnosticada com AFM.

No verão de 2014, toda a família de Bove enfrentou o que parecia ser uma forte constipação. Todos recuperaram com a normal facilidade, exceto o filho de Bove, então com quatro anos de idade. Uns dias depois de ter começado a ter frio, cada vez mais frio, passou também a sentir dificuldades em respirar.

Acabou paralisado da cabeça aos pés e com problemas em respirar por conta conta própria. Hoje, o menino tem nove anos, mas a mãe garante que os efeitos físicos e emocionais da AFM ficarão com ele pelo resto da vida. "Para todas as famílias com crianças diagnosticadas com AFM, as consequências a longo prazo da doença continuam sendo o principal problema", disse, enquanto espera que este novo estudo possa levar a um consenso científico sobre o enterovírus como causa da AFM, um passo fundamental no caminho para melhorar o diagnóstico e o desenvolvimento de uma vacina para a doença. "A educação em saúde pública é importante, mas não é suficiente para impedir a AFM", disse Bove. "Este vírus é muito comum. Uma vacina é a única maneira de prevenir significativamente a doença".