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Campeã paralímpica recorre à eutanásia para morrer 

Sociedade

CHRISTOPHE SIMON

A belga Marieke Vervoort tinha 40 anos e receava que a doença degenerativa de que sofria desde a adolescência agravasse ainda mais o seu sofrimento

Foi campeã de T52 100 m, o habitual sprint dos cem metros, mas em cadeira de rodas, nos Paralímpicos de Londres, em 2012, e anunciou a sua vontade de morrer depois dos Jogos do Rio, em 2016, quando se apercebeu que a sua condição degenerativa ameaçava piorar e, com isso, o seu sofrimento. E como a eutanásia é permitida na Bélgica, foi feita a sua vontade.

Marieke era uma menina normal até que, aos 14 anos, lhe foi diagnosticada uma doença muscular degenerativa – sem cura. Nada que abalasse a vontade de viver. Como era uma apaixonada por desporto, jogou basquetebol em cadeira de rodas, provas de natação e até competiu em triatlos. Ao todo, arrecadou quatro medalhas em provas paralímpicas, duas em 2012 e duas em 2016.

Há dois anos, deu uma entrevista exclusiva e muito pessoal ao diário britânico Daily Telegraph, a partir da cama de hospital onde se encontrava. “Não quero sofrer mais. É cada vez mais difícil aguentar as dores. Estou cada vez mais deprimida e choro muito...”, confessou, “todos me vêem alegre, a ganhar medalhas e a ser forte, mas não vêem o outro lado. Por isso é que todo o atleta paralímpico é, para mim, um campeão.

A sua luta diária é tão grande que muitas vezes nem consegue dormir mais do que uns minutos. “A minha psicóloga sabe disso, é por isso que a quero comigo quando eu morrer...”

Marieke viveu também sempre com várias crises epiléticas. EM 2014, sofreu uma quando estava a cozinhar, acabando por derramar água a ferver sobre as pernas. Resultado: esteve quatro meses internada.

Foi quando passou a ter sempre a seu lado um leal labrador chamado Zenn, treinado para lhe “dar patadas” quando sentia que uma convulsão estava prestes a acontecer. Além disso, Zenn também a conseguia ajudar a levar as compras. “Tudo o que eu deixo cair ela apanha e entrega-me", acrescentou ainda Vervoort, no seu elogio ao bicho que a acompanhou nos últimos tempos – e que inclusive ladrava quando a dona perdia a consciência, chamando assim as enfermeiras, e lambia-lhe o rosto até Marieke voltar a si.

"Zenn puxa-me as meias, o casaco, abre e fecha a porta. Vai ficar comigo até ao fim. Nem consigo imaginar a minha vida sem ela. “

Já sobre a morte anunciada em 2017, o seu comentário foi mais lacónico: “As pessoas podem chorar, mas o que quero é que agradeçam a vida que tive e o facto de estar feliz agora que estou em paz. “