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Ter um cão está associado a uma vida mais longa, sobretudo entre sobreviventes de ataques cardíacos e AVC

Sociedade

Jocelaine Zottis / EyeEm/Getty

Um importante estudo sueco e uma meta-análise de estudos anteriores que envolveram quase 4 milhões de pessoas, em dez países, sugerem que ter um cão diminui em 24% o risco de morte prematura em geral, percentagem que sobe no caso de doentes cardiovasculares que morem sozinhos. Ainda não é possível falar numa relação causa-efeito, mas está-se quase lá

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Os cientistas são seres humanos particularmente céticos e cautelosos – foram, afinal, treinados nesse sentido. Deles não se espera, por isso, que se derretam à vista de um cão fofinho e apostem todas as suas fichas em como um animal de estimação pode ser responsável pela melhor saúde do seu dono. Mas, tendo os seres humanos domesticado o cão há pelo menos 27 mil anos, é natural que se interessem em explorar essa possibilidade.

Serve a introdução para vincar que esta não é uma notícia sensacionalista. O título do nosso artigo é, aliás, o mesmo que os editores da revista Circulation: Cardiovascular Quality and Outcomes, da Associação Americana do Coração, escolheram para anunciar a publicação dos resultados de dois estudos recentes que apontam no mesmo sentido: ambos sugerem que ter um cão pode estar associado a uma vida mais longa, especialmente para quem esteja a recuperar de um ataque cardíaco ou de um AVC e more sozinho.

Os benefícios foram contabilizados e traduzidos em percentagens. Ter um cão em casa está associado a uma redução de 24% do risco da mortalidade em geral (ou seja, qualquer causa de morte) e a menos 31% de hipóteses de a pessoa vir a morrer com um ataque cardíaco ou um AVC, comparando com quem não tem. Quanto aos doentes cardiovasculares, o risco de morte diminui uns impressionantes 33% no caso de quem já sofreu um ataque cardíaco e 27% para quem sobreviveu a um AVC – desde que more sozinho com o cão. Sublinhe-se que o benefício desce para 15% e para 12% se o paciente dividir a casa com mais alguém, muito provavelmente porque o animal acaba por ser passeado entre todos, diminuindo, assim, a sua atividade física.

A atividade física é, como já se percebeu, uma das hipóteses avançadas pelos investigadores para explicar estes resultados. E ela tem aparecido sempre nos estudos anteriores, a par com outros fatores, lembra Tove Fall, professora de epidemiologia da Universidade de Uppsala, na Suécia, co-autora de uma das pesquisas. “Cuidar de um cão é uma boa motivação para manter uma atividade física, que é um importante fator na reabilitação e na saúde mental. Também sabemos que a isolação social é um fator de risco importante – leva a piores recuperações e mesmo à morte prematura. Ora, os donos de cães vivem menos isolados e têm uma maior interação com outras pessoas.”

Esta epidemiologista e os seus colegas analisaram dados recolhidos no Registo Nacional de Doentes sueco, cruzando-os com o registo de animais de estimação, obrigatório na Suécia. O estudo envolveu quase 182 mil sobreviventes de ataques cardíacos, dos quais 5,7% donos de pelo menos um cão, e cerca de 155 mil com um antecedente de AVC, 4,8% deles donos de cães. Os pacientes tinham entre 40 e 85 anos, e haviam sido seguidos entre 2001 e 2012.

O segundo estudo, na verdade uma meta-análise, avaliou 3,8 milhões de pessoas que tinham participado em dez diferentes pesquisas, ao longo de dez anos, em dez países. Neste caso, foram também analisados participantes sem qualquer histórico de doenças cardíacas, tendo sido, por isso, possível concluir que a população geral tinha menos 24% de risco de morte prematura se tivesse um cão como animal de estimação.

Embora enfatizando a qualidade de ambos os estudos, o médico Glenn N. Levine, presidente do grupo de edição da Associação Americana do Coração, lembra que nenhum deles pode “provar” que ter um cão conduz diretamente à redução da mortalidade. “Mas trazem descobertas fortes que, pelo menos, sugerem isso”, sublinhou, num comunicado.

Tove Fall é a primeira a ressalvar que são necessários mais estudos que ajudem a estabelecer uma relação de causa-efeito e, então, recomendar os cães para prevenir doenças cardiovasculares graves. Apesar de o grupo de cientistas ter ajustados muitas variáveis, como a situação socioeconómica e a saúde em geral dos pacientes, não se mediram outros fatores como, por exemplo, se eram ou não fumadores.

Nas conclusões deste estudo lembra-se, igualmente, uma outra limitação: pode ter havido erros relativos à propriedade dos cães. Sabe-se que muitas vezes as pessoas registam os animais especificando viver em casal quando, a certa altura, deixam de o fazer, ou que os animais mudaram de mãos. Frequentemente, também não são relatadas as mortes dos bichos.

Os mesmos investigadores gostariam, ainda, de poder incluir mais alguns dados na equação. Por exemplo, quais são os fatores que levam cada pessoa à escolha do tamanho e do tipo de cão? Sabe-se que os cães maiores e de raça são, habitualmente, escolhidos por pessoas com maior poder económico, que cumprem com mais frequência as recomendações relativas à necessidade de os passear. Afinal, que influência terá a raça do cão na saúde do seu dono? Mais uma possibilidade a explorar.