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Carne de vaca: a solução não é proibir, é escolher a mais amiga do ambiente, diz presidente do Politécnico de Bragança

Sociedade

Lucilia Monteiro

Ao contrário da Universidade de Coimbra, o Politécnico de Bragança não baniu a carne de vaca. Em vez disso, há mais de 15 anos que consome apenas carne mirandesa. A VISÃO falou com o presidente do instituto, para quem esta foi uma decisão com vantagens ambientais e sociais - e que não é dispendiosa

Em nome da sustentabilidade, o reitor da Universidade de Coimbra decidiu banir a carne de bovino das cantinas universitárias da cidade, opção que recebeu os aplausos de muitos, que invocam a desflorestação para criar pastagens e cultivar soja na Amazónia, e a censura de muitos outros. Um dos exemplos dados pelos críticos da medida é que o problema não está em consumir carne, mas sim no modo de produção (como se pode ler no artigo de capa da revista VISÃO que está ainda esta semana nas bancas). Em Portugal, onde o pastoreio é a regra, a vaca tem impactos positivos no ambiente, dizem - e o reitor deveria ter feito como o Instituto Politécnico de Bragança (IPB), que há muito só serve carne local, de raças autóctones, nas suas cantinas.

A VISÃO fez algumas perguntas sobre o assunto a Orlando Rodrigues, presidente do IPB, que explica os motivos e os resultados da decisão de servir apenas carne mirandesa aos alunos e professores do instituto.

A carne de vaca consumida nas cantinas do IPB é exclusivamente de vaca mirandesa, produzida localmente em regime extensivo?

Sim. O IPB consome exclusivamente carne de vaca de raças autóctones criadas em regime extensivo nas suas cantinas.

Como foi tomada essa decisão? Os motivos estão relacionados com a sustentabilidade?

Esta decisão foi tomada há mais de quinze anos. Os objetivos que presidiram a esta opção foram os seguintes: primeiro, garantir bons níveis de qualidade nas suas cantinas, fornecendo produtos com elevados níveis de segurança alimentar, associados a boas características nutricionais; segundo, o IPB pretende materializar uma política de responsabilidade social e ambiental - como se sabe, os sistemas extensivos de produção de carne, baseados na pastorícia, produzem serviços ambientais de enorme relevo, sobretudo por permitirem a conservação das pastagens permanentes, as quais são grandes sequestradoras de CO2 e promotoras da conservação dos solos, mas também elemento central na redução de risco de incêndio e na valorização das paisagens. Terceiro, foi também determinante o objetivo de favorecer as economias locais.

Como funciona o processo? O IPB tem uma relação direta com os produtores?

Na prática, funciona de forma muito simples. O IPB especifica no caderno de encargos do concurso público, que está obrigado a abrir regularmente, as quantidades previsíveis de consumo das diversas peças de carne de vaca e vitela, restringindo o fornecimento a carne DOP (denominação de origem protegida). Este requisito limita o concurso a uma das 10 DOP de carne de bovino existentes em Portugal, todas de excelente qualidade, produzidas em regime extensivo. Até ao momento, o concurso foi sempre ganho pela Cooperativa dos Produtores de Raça Mirandesa. É a cooperativa que tem uma relação direta com os produtores e organiza o abate, desmancha e fornecimento. Toda a carne vem identificada com o nome do produtor qua a produziu.

Esta opção é muito mais cara? Implicou uma redução do consumo de carne de vaca?

Não, esta opção não é muito mais cara. Na verdade, tendo em conta que garantimos um consumo regular de todas as peças de carne e não apenas das mais nobres, acabamos por ser um bom cliente para a cooperativa, que tem grande facilidade em valorizar as partes mais ricas do animal, mas tem dificuldade em escoar as restantes.