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Violência doméstica: relato de deputada trabalhista leva colegas às lágrimas 

Sociedade

A deputada trabalhista Rosie Duffield assumiu ser mais uma vitima da já considerada epidemia de violência doméstica

Esta é a história pessoal de Rosie Duffield, descrita como uma das contribuições mais comoventes sobre o tema dadas no Parlamento britânico

“Muitas vezes vemos as mesmas imagens e estereótipos na TV. Bairros residenciais, famílias da classe trabalhadora, homens bêbados a sair do pub a caminho de casa. Depois, mulheres cercadas por crianças e uma sequência de gritos seguida de violência ou agressão física imediata. Mas estas cenas das novelas tendem a concentrar-se apenas em um ou dois aspetos de um contexto bem maior e mais complexo”, disse uma emocionada Rosie Duffield, a deputada britânica de 48 anos que fez história há já quatro anos ao conseguir ser eleita por Canterbury, um bastião dos conservadores durante 160 anos.

Agora, um relato na primeira pessoa volta a dar-lhe protagonismo e ainda o aplauso dos colegas, depois de algumas lágrimas. "A violência doméstica tem muitos rostos e os rostos daqueles que sobrevivem também são variados. Às vezes não há marcas físicas. Muitas vezes, o abuso é sobre controlo e poder. Trata-se de alguém que se quer sentir grande ou maior." Foi assim que Duffield, uma antiga auxiliar educativa que se iniciou na vida pública ao escrever regularmente sobre política, revelou em pleno parlamento britânico que era mais uma das vítimas da violência doméstica, essa epidemia avassaladora do País e do mundo.

“No início, era um relacionamento cheio de gestos românticos”, contou, como se pode ver no vídeo carregado no Youtube. "Mas só até ter uma aliança no dedo” – ao que se seguiram meses do que descreveu como abuso verbal aterrorizador, humilhação e controlo financeiro sem o conhecimento de seus amigos, familiares e colegas.

“Mas nada disso é no princípio, quando nos dizem que somos doces, engraçadas e lindas. Quando vêm ao nosso encontro com chocolates e joias. Não quando nos vêem com os nossos amigos ou com o líder do nosso partido político”.

É com o tempo, explicou, que a intimidação verbal se vai tornando mais intensa, já ele se mudara para sua casa e se tornara financeiramente dependente dela – nunca revelando quanto é que ganhava, se é que trabalhava..., nem contribuindo para as contas da casa. “É nessa altura que percebemos que ‘estarei sempre ao teu lado” ou “serás minha para toda a vida” podem ser as frases mais assustadoras que nos dizem.”

Nessa altura, prosseguiu Rosie, “já há um anel no dedo, a máscara pode começar a desaparecer e as promessas passam cada vez mais a soar a verdadeiras ameaças.”

Entre os comentários, começam a surgir os habituais “o vestido é muito curto” ou o top “decotado demais”. E já não receiam criticar, gritar ou exercer a sua força física, de forma cada vez mais aterradora.

“O rosto dele transfigura-se de tal forma que começamos a ter medo, muito medo. De tal forma que intuímos que, para sobreviver, é preciso manter a calma e ter muito cuidado.”

O padrão que descreve é igual ao identificado pelos especialistas como o ciclo da violência, entre a recompensa e a punição, as promessas de felicidade para sempre, alternadas com a raiva, a ameaça e o controlo coercivo. “Ele não nos deixa afastar-nos, quer toda a atenção e espera que o façamos.”

Até que o abuso se tornou público e ele não se conteve a gritar-lhe em atos de campanha eleitoral. “Foi extremamente humilhante”, assumiu Rosie, voz embargada, olhos cheios de lágrimas - antes de contar publicamente que só conseguiu terminar o relacionamento depois lhe tirar as chaves de casa e o deixar na rua, de vez. “É quando percebemos que a culpa não é nossa – e que ele merece ficar sozinho com a sua raiva e o seu narcisismo.”

O fim da sua intervenção não foi menos emocionante: “se alguém estiver a assistir e precisar de um amigo, entre em contacto se for seguro e fale com qualquer um de nós, porque estaremos lá e seguraremos a sua mão”, rematou uma Rosie agradecida, como fez, entretanto, saber no Twitter.

A seu lado, Harriet Marman, do mesmo partido trabalhista, não poupou nos elogios: “O que Rosie acabou de dizer é um salva-vidas. Estamos muito orgulhosos dela”. John Bercow, o presidente da Câmara dos Comuns, considerou mesmo ter sido “a mais comovente contribuição” que ele ouvira nos seus 22 anos naquela instituição. O discurso rematou o debate sobre o projeto-lei sobre violência doméstica que, pela primeira vez, incluirá a questão do controlo económico e o abuso emocional nas definições do que é violência doméstica.

Também introduzirá outras medidas de proteção, como a ordem de afastamento, e ainda a proibição de interpelação das vítimas pelos seus agressores nos tribunais de família.