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Pelo fim do celibato: O caso da comunidade indígena da Amazónia que está a lançar uma revolução na igreja Católica 

Sociedade

O Papa andou por toda a região da Amazónia no início do ano passado

CRIS BOURONCLE

Não têm ar de revolucionários, mas têm vocação - daí terem convencido o Vaticano a debater a sua proposta de ordenar homens casados como padres (e mulheres como diáconos...), de forma a manter os fiéis que há por aquelas enormes extensões de terras. Se o Papa Francisco abençoar a proposta, pode ser o primeiro passo para mudar a Igreja para sempre

O que as imagens nos devolvem são casais felizes, cujos filhos lhes deram netos e os tornaram avós. Vejamos o caso de María Ana Albuquerque, uma professora indígena aposentada e que, durante anos, andou de barco a visitar vilarejos isolados na Amazónia brasileira, para fazer catequese ou levar a comunhão àqueles paroquianos que só veem o padre quase de ano a ano.

Daí que fiéis como Denis Gama da Silva, 41 anos, indígena de Tucano e pai de família que vive da segurança tenha, há já mais de uma década, assumido inúmeras tarefas eclesiásticas e, quando não há mesmo padre nenhum por perto, até conduza o mais próximo de uma missa que lhe é permitido. Ou que Socorro Oliveira, 54 anos, esteja casada com um diácono, assim uma espécie de padre católico - com a diferença de não poder dar certos sacramentos como a extrema unção ou mesmo a confissão. Todos desfrutam da confiança dos seus bispos e das suas comunidades – mas agora estão a exigir que o Vaticano vá mais longe.

Como conta o El País, estes católicos da Amazónia já fizeram o Vaticano comprometer-se a debater oficialmente a proposta de ordenar homens casados como padres, e mulheres como diáconos, nas zonas do globo consideradas isoladas, onde a escassez de sacerdotes se faz sentir de forma ainda mais forte.

Assim, quando o Papa convocou os seus bispos a pedir-lhes propostas “corajosas e inovadoras”, para proteger a natureza e os habitantes daquele imenso território, de paróquias dispersas e sem padres, os habitantes indígenas das extensas zonas de terra da Amazónia nem tenham hesitado naquilo que pretendiam. O encontro do chamado Sínodo da Amazónia decorre este mês de outubro, a 9 mil quilómetros dali, em Roma.

VINCENZO PINTO

Se o Papa Francisco abençoar a proposta, esse poderá ser um passo de grande potencial revolucionário na Igreja, porque significará o fim do monopólio do celibato adotado há mil anos pelos católicos. O encontro, durante o qual os bispos do Pontífice e da Amazónia também discutirão a forma de proteger as populações nativas, está a deixar os católicos brasileiros muito esperançados. Há meses que se sucedem as mais diversas assembleias preparatórias.

Uma das últimas foi em Manaus, uma das cidades mais perigosas do Brasil – mas que tem um teatro de ópera espetacular, no meio de uma paisagem de densa vegetação e rios sinuosos, onde as estradas pavimentadas são raras, a ferrovia praticamente inexistente e se viaja de barco. Prestes a partir para Roma está o bispo de São Gabriel da Cachoeira, Edson Damián, 71 anos, que leva a tal proposta bem em mente: “O que está aqui em causa são líderes que estão ao comando de comunidade isolados, que há muito tempo celebram a palavra e transmitem a catequese...O que queremos é que sejam ordenados com a formação adequada e que a eucaristia passe a estar presente, em vez de ser negada, como acontece agora...”.

O documento de trabalho que será debatido no encontro, resultado de um longo processo que ouviu perto de 90 mil pessoas, dos nove países pelos quais a região se estende – e especifica que estes novos padres devem ser preferencialmente indígenas, mesmo que tenham uma família constituída. “A ideia é que possam viver junto dos seus paroquianos, nas aldeias mais isoladas, onde agora só fazem visitas esporádicas e fugazes.”

E Edson Damián faz então questão de relembrar que nem em todos os ritos católicos o celibato é obrigatório - nem esteve sempre presente na Igreja de Roma. “Trata-se de resgatar algo que funcionou durante mais de mil anos”, concorda Flavio Juvenale, bispo de outra diocese da Amazónia, enfatizando que, na verdade, apenas dois ou três dos 23 ramos do catolicismo não têm padres casados. Por exemplo, os maronitas no Líbano, ou os coptas no Egito, não estão afastados do sacerdócio.

VINCENZO PINTO

Mas o Bispo Damián também deixa claro que, para aquela proposta prosperar, os padres casados agora seriam apenas para a Amazónia. Ou seja, entre os líderes e fiéis da Igreja Católica do Brasil, considerados os maiores do mundo, apesar do declínio sentido, ninguém faz qualquer referência ao facto de os seus colegas alemães terem decidido discutir o celibato, a ordenação das mulheres e a homossexualidade apesar da oposição do Vaticano.

A situação atual, com a emergência climática no centro da agenda pública e um presidente de extrema direita no Brasil – deu uma inesperada relevância política ao sínodo convocado desde 2017 por este papa preocupado com as questões ambientais e atento à melhor forma de preservar a floresta tropical e os seus habitantes. Ainda mais depois de Jair Bolsonaro dizer publicamente que a Igreja Católica é um perigo para a soberania nacional e ter mandado espiões para monitorizar as suas atividades na Amazónia.

“Mas a Igreja não é maçonaria, não. Não temos nada a esconder. Gostávamos é que todas as instituições ajudassem na defesa dos povos mais frágeis e da Amazónia”, sublinha ainda Damián que, tal como muitos brasileiros indígenas, está agora a depositar todas as suas esperanças no Papa, à espera que este interceda por eles. “Precisamos que nos defendam porque os nossos direitos e as nossas terras estão a ser-nos retiradas.”

O marido de Socorro Oliveira, a tal mulher casada com um diácono, por exemplo, Afonso Brito, 54 anos, é um dos primeiros homens casados que foi ordenado e vive permanentemente na Amazónia. Ela segue-o desde os primeiros tempos. “Foi a nossa tentativa de preencher os espaços onde não há padre oficial”, diz ele. Ambos trabalham na Pastoral, mas explica ela, o Vaticano não os trata da mesma maneira. “Formamos católicos juntos, mas...” Agora, se Francisco concordasse que houvesse ali diáconos, isso pouco mudaria a rotina daquelas mulheres. “Trata-se de oficializar o que já temos.”

Como há cada vez menos candidatos ao sacerdócio por ali, a adição de mulheres é ali vista como a solução mais que possível. “Trata-se de uma mudança mais que necessária, porque neste momento temos realidades muito negligenciadas”, explica ainda a socióloga Márcia Oliveira, também da Amazónia brasileira, deixando o alerta: “Em 30 anos, a Igreja perdeu metade do que conquistou em 500 anos de evangelização. Agora, ou muda de método e legitima as pessoas que estão a acompanhar os fiéis, ou continuará a perder força”.