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Acha que o seu telemóvel está a gravar as suas conversas? Não é bem assim... mas é pior

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A verdade, dizem os especialistas, é um pouco mais assustadora do que isso

Quem não tem uma história para contar sobre ter começado a ver anúncios de um produto específico, em todos os acessos à internet, depois de ter uma conversa sobre isso perto de um telemóvel? Num jantar recente entre amigos, relata o Huffington Post, surgiu o tema das injeções de botox. “É um procedimento sobre o qual nunca me interessei e, portanto, numa pesquisei sobre isso nem cliquei em qualquer anúncio”, conta a autora do texto, Casey Bond – e, no entanto, enquanto percorria o Facebook a caminho de casa, depois daquele jantar, lá estava: um anúncio para pôr botox. A questão surgiu-lhe de imediato: “Será que o telemóvel estava a ouvir a nossa conversa?”

A rede de Mark Zuckerberg veio já garantir que a sua app não ouve os utilizadores para veicular anúncios, mas porque o seu algoritmo de segmentação de anúncios é tão bom que não o precisa fazer. No entanto, a empresa já admitira que tivera, até há pouco tempo, funcionários a rever e transcrever parte das gravações áudio do messenger, a sua ferramenta de comunicação por excelência.

Mas não é só - como quem diz, o Facebook não é a única empresa que “nos” está a ouvir. De acordo com um tweet que recentemente ganhou força, muitas pessoas suspeitam que o Safari, o motor de busca usado pelo iPhone, também o esteja a fazer. No caso, esse utilizador contava que falara de percevejos e que, num ápice, lhe começaram a aparecer anúncios para serviços de remoção de percevejos. A conclusão lógica? O Safari estava a ouvir. E para o provar publicou várias fotos do ecrã a provar que a funcionalidade que dá acesso à câmara e ao microfone aparece em configurações de privacidade separadas, e que acabam por permitir o acesso a todas as outras aplicações.

De acordo com Zohar Pinhasi, especialista em segurança cibernética, fundador e CEO da MonsterCloud, existem várias razões pelas quais o Safari precisaria ter acesso ao microfone e à câmara fotográfica. “Nas recentes atualizações do iOS, o Safari passou a ter acesso a ambos por padrão; para o alterar é preciso voltar a configurar tudo manualmente e impedir esse acesso” - e isso, segundo Pinhasi, já é problema que chegue, já que a maioria das pessoas provavelmente nem percebe que o Safari tem, por defeito, esse acesso.

O mesmo responsável da MonsterCloud explicou ainda que essa configuração existe, em resumo, para tornar a navegação web mais fácil e sem complicações. Por exemplo, pode estar a usar um site que exige o upload de uma foto. Algumas ferramentas para fazer videoconferências também preciso de aceder à câmara e ao microfone. A questão é que não é necessariamente sinistro que o Safari precise aceder a um e a outro.

“Acredito que é um problema de privacidade e segurança, não porque o estejam a fazer, mas porque o façam por defeito, quer o utilizador saiba quer não saiba” - e isso, segundo o mesmo Pinhasi, é intencional por parte da Apple.

“Ao definir o acesso como padrão, os designers de produtos consideram que a experiência se tornará mais fácil e conveniente para o utilizador e, sobretudo, confiam que a maioria das pessoas simplesmente aceita as configurações como estão.”

E agora uma outra pergunta impõe-se: e então a Apple, também está a ouvir as nossas conversas?

Embora se diga uma defensora da privacidade e segurança dos seus utilizadores, a empresa admitiu recentemente que havia terceiros contratados para ouvir as interações com a Siri, essa mesmo, a aplicação que é uma verdadeira assistente pessoal. Segundo a Apple, é apenas para fins de otimização. O problema é que essa assistente é acionada sem querer com muita frequência e, resultado, acabou por registar conversas do foro privado, como consultas e endereços médicos. Quem é que não fica constrangido ao saber que certas e determinadas conversas foram ouvidas por estranhos?

Mas além da Siri, descobriu-se anda que as gravações deste tipo de assistentes virtuais ativados por voz também são revistas por pessoas a sério. A Alexa, da Amazon, por exemplo, grava automaticamente tudo a partir do momento em que é ativada. Algumas dessas gravações são transcritas e anotadas pelos funcionários da Amazon com o objetivo de melhorar a compreensão de Alexa sobre os padrões de fala humana. E passa-se exatamente o mesmo com a página inicial do Google.

“A verdade é que qualquer equipamento que tenha a capacidade de gravar áudio e vídeo vai fazê-lo, mesmo quando não é solicitado para o fazer”, assinala Theresa Payton, ex-diretora de informações da Casa Branca e atual CEO da consultora de segurança Fortalice Solutions, fazendo questão de sublinhar que, por mais que a empresa tenha razões compreensíveis para aceder à sua câmara e ao seu microfone, a verdade é que esses dispositivos podem traí-lo, insiste Payton. “Por exemplo, pode acabar por aceitar um malware, um programa nocivo e mal-intencionado, e permitir que alguém, remotamente, ative a gravação de áudio e vídeo.”

E há ainda, claro, as falhas na tecnologia. “Sabemos que, hoje em dia, o desenvolvimento informático é tão rápido que o ciclo de vida das aplicações é muito rápido e suscetível a que ocorram falhas nas funcionalidades”, e essas falhas, acrescenta ainda a especialista, levam, lá está, a gravações acidentais.

“O melhor é assumir que, seja por que razão for, pode ser ouvido”, rematou. Ou resumindo, será qualquer coisa como não confie no seu telefone.

“As pessoas devem compreender que os seus dados se tornaram uma mercadoria, assim temos de agir em conformidade e saber que há sempre alguém a assistir, a ouvir, a transcrever, o que dizemos e escrevemos”, insiste – como quem diz: da próxima ver que quiser ter uma conversa realmente privada o melhor é deixar os seus smartphones e outros quaisquer dispositivos inteligentes numa outra divisão, longe de si, para que não possam efetivamente ouvi-lo.

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