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Como as séries de tv estão a impulsionar o turismo do macabro

Sociedade

Getty Images

Os locais marcados por tragédia, sofrimento e agonia estão a ser cada vez mais aproveitados para fazer turismo. É a sociedade à procura do horror que vê nas séries de televisão

Catarina Ferreira Gonçalves

A atração pela morte é um dos mais básicos sentimentos humanos. Basta recuar à Roma dos gladiadores, às execuções públicas ou às visitas guiadas em morgues durante a era vitoriana. Nos dias de hoje, continuamos a ver pessoas a pasmar para um acidente de automóvel ou, e vamos ao tema destas páginas, a procurar fazer turismo em cenários de horror. É o caso de Chernobyl, que tem atraído as curiosidades mórbidas agora impulsionadas pela série com o mesmo nome que pode ser vista na HBO. De tal forma que a Junta de Turismo de Kiev prevê receber ali 100 mil visitantes em 2019, o dobro dos que recebeu em 2017.

Citado pelo jornal espanhol El Mundo, Sergii Mirnyi, um químico chamado a Chernobyl depois do desastre, em 1986, agora transformado em agente de viagens, explica que os turistas “saem dali renovados, numa espécie de catarse”. Por 89 dólares a rota do pacote de um dia.

Outra série famosa, Narcos, exibida na Netflix, tem levado muita gente à tumba de Pablo Escobar. Para lá da romaria ao cemitério, organizam-se verdadeiras narcotours pelas ruas de Medellín, na Colômbia, seguindo os passos do traficante – e há visitas à sua mansão e até à prisão onde esteve detido. Muito mais interessante do que as fotografias “chatas” de férias em praias paradisíacas... “É tudo tão mais fácil de adquirir hoje que acho que as pessoas precisam de se afirmar e de se exibir em situações mais chocantes”, explica o escritor viajante Gonçalo Cadilhe. “Se há 50 anos eu tirasse uma foto na Torre Eiffel e a levasse para casa, era um herói; mas agora isso já é tão banal que é preciso algo diferente.”

O macabro é cada vez mais explorado pela indústria turística como um negócio. Na Bósnia, por exemplo, o War Hostel Sarajevo recria um cenário de guerra. Ali, é tudo pensado ao pormenor para gerar o maior desconforto e a maior privação possíveis, desde uma decoração à base de armas e pósteres obscenos a sons de tiros e explosões constantes e a quartos sem janelas nem camas. Se até aqui a experiência já parecia dura, é o bunker construído de troncos grossos em chão de lama compactada, de forma a recriar um abrigo na floresta, que melhor retrata a severidade vivida nos tempos em que a guerra assolou a Bósnia, nos anos 90.

Cultura ou sadismo?

Cláudia Seabra, doutorada em Turismo, explica que a procura por locais onde ocorreram catástrofes, sofrimento e morte corresponde a uma extensão do turismo cultural, que acaba por “refletir as motivações das sociedades que pretendem experiências diferentes”. No entanto, é importante perceber o que os distingue, apesar de se tratar de uma linha muito ténue. Um turista do macabro tem como objetivo a visita aos locais exatamente por se tratarem de símbolos de tragédia, sem que o lado cultural esteja a pesar na balança. As duas motivações podem estar presentes em locais como o Cemitério Père Lachaise, em França, ou o campo de concentração de Auschwitz. “Quando somos confrontados com os horrores da Humanidade, pode haver este lado de se aprender com a História para que não se repita”, continua Gonçalo Cadilhe. “Mas se, por outro lado, se vai com o espírito de colecionador pela anormalidade, sem sentir qualquer tipo de necessidade de refletir sobre o que por ali aconteceu, há efetivamente uma quebra na barreira cultural para se entrar em algo relacionado com um certo sadismo emocional.”

Como ir à prisão militar de Karosta, em Liepaja, na Letónia, onde os turistas pagam para, logo à entrada, serem colocados de mãos atrás da cabeça e de joelhos, antes de terem de correr pelo perímetro das instalações. São horas a receberem tratamento e repreensões semelhantes aos dos reclusos que por ali passaram anteriormente. Consoante o pack que escolherem, também há quem passe a noite numa cela, certo de que será acordado para realizar determinadas tarefas ou só para que o sono seja perturbado por gritos. Dali não se sai sem se ser submetido a um interrogatório.

José Carlos Rosa, psicanalista, considera que esta forma de fazer turismo, mais do que estar relacionada com questões de exibicionismo, pode ter que ver com questões mais sérias. Apesar de ser muito difícil saber as motivações de quem o pratica, acredita que a maioria seja atraída pelo medo: “O horror nunca agradou a ninguém, e, assim, esta atração pode ser vista como um movimento contrafóbico, para que consigam ultrapassar algo que os assusta.” E não exclui a possibilidade de se tratar de algo ainda mais perturbador. “É quase como se houvesse um prazer sádico em quem visita estes locais que, certamente, poderá também estar associado a uma perturbação psicopática.”

Dirigindo-se particularmente às atrações que recriam determinados ambientes de sofrimento e agonia, tal como acontece no War Hostel Sarajevo ou na prisão militar de Karosta, o psicanalista afirma que é comum que este tipo de experiências esteja associado a um elevado nível de agressividade que não é exteriorizada e que ali, no cenário onde se recria a realidade, acaba por poder ser abraçada.

Realidade vs. ficção

1 - Chernobyl

É um dos pontos de maior destaque na rota dos locais de turismo macabro. As visitas à zona e às cidades-fantasma que rodeiam a central nuclear, como Pripyat, não são recentes, mas desde que a HBO divulgou a minissérie, o número de visitantes disparou.

2 - Medellín

Narcos, exibida na Netflix, tem levado muita gente à tumba de Pablo Escobar. Para lá da romaria ao cemitério, organizam-se verdadeiras narcotours pelas ruas de Medellín, na Colômbia, seguindo os passos do traficante – há visitas à sua mansão e até à prisão onde esteve detido.

3 - Hollywood

Esta semana estreia a segunda temporada de Mindhunter na Netflix e Charles Manson vai ter um papel importante. O serial killer Manson assombrou Hollywood nos anos 60 e a “sua” tour (pelos locais onde cometeu os crimes) é muito procurada em Los Angeles.