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Que “tratamento inovador” está Michael Schumacher a fazer em Paris?

Sociedade

Mark Thompson

Considerado por muitos o maior piloto de Fórmula 1, Michael Schumacher foi, esta segunda-feira, internado no departamento de cirurgia cardiovascular, num hospital da capital francesa, para fazer um tratamento de infusão de células estaminais, segundo conta o Le Parisien

Desde o seu acidente de esqui, em Dezembro de 2013, nos Alpes Franceses, que o estado de saúde de Michael Schumacher sempre se manteve em segredo. Quase seis anos depois, o ex-piloto de Fórmula 1 encontra-se no Hospital Georges-Pompidou, em Paris, para realizar um tratamento de administração de células estaminais por todo o corpo, como ação anti-inflamatória.

Segundo o jornal francês, Michael Schumacher terá alta esta quarta-feira e “está nas mãos” do professor de cirurgia torácica e cardiovascular Philippe Menasché. Este cirurgião cardíaco foi pioneiro da terapia celular, em 2014, na qual realizou um transplante de células cardíacas embrionárias num paciente para tratar a insuficiência cardíaca.

A medicina regenerativa, tal como o próprio nome indica, visa a regeneração de células e a substituição de tecidos lesados ou degenerados. Neste sentido, com a terapia celular, as células são inseridas nos pacientes. Nomeadamente as células estaminais que, quando introduzidas no corpo, têm como objetivo regenerar o tecido danificado em questão.

As células estaminais podem replicar-se (numa célula igual a si própria) ou criar células mais diferenciadas. No que diz respeito a estas células, o professor cardiologista António José Fiarresga refere que “utilizá-las na prática médica tem exatamente a ver com essa capacidade, ou seja, elas se criarem e diferenciarem”. “Podemos pegar numa determinada célula e termos a capacidade de a multiplicar por muitos milhões mais, porque os órgãos são feitos por milhões de células. Além de se multiplicarem, também se formam células diferentes dela própria, que são aquelas que vão gerar o tecido que nós precisamos”, explica. As células estaminais podem ser utilizadas para dois efeitos: na regeneração de células, que regeneram tecido, e na agregação destas a citocinas (moléculas) que vão ter como efeito benéfico a propriedade anti-inflamatória e de vascularização (criação de vasos nos tecidos). No fundo, as caraterísticas destas células são potencialmente úteis para fins terapêuticos, no combate a diversas doenças.

O transplante de medula óssea é um dos exemplos desta utilização na prática clínica. Neste procedimento, é feito um transplante de células estaminais, que se encontram na medula óssea do dador, para o paciente.

No entanto, o cardiologista diz que “estão a ser feitos estudos e [a terapia celular] é algo de grande interesse do ponto de vista científico e médico, mas não temos soluções agora, nem estão para breve. Portanto tudo isto requer ainda muito trabalho, investigação e descoberta”. Por outras palavras, a medicina regenerativa ainda está a dar os primeiros passos, na parte de investigação clínica, e este tipo de tratamentos ainda não pode ser apontado como solução para diferentes problemas.

Uma vez que este tipo de tratamentos ainda está em fase de investigação, António José Fiarresga sugere que o caso de Michael Schumacher pode ser uma situação de ensaio clínico ou de uso compassivo. Os ensaios clínicos, entre médicos e doentes, são utilizados para investigar novos procedimentos com o objetivo de testar a eficácia e a segurança desses métodos no tratamento de doenças, antes de a sua introdução no mercado ser autorizado. Já o uso compassivo ocorre quando a situação clínica do paciente é grave e é feito um tratamento que ainda não está comprovado porque nenhuma outra solução testada é eficiente.

“O Schumacher é um caso desesperado de quem tem muitos meios e vai tentar de tudo o que é possível, mas isso não é claramente um indicador de que estamos perto de uma solução que vai chegar à porta de qualquer um de nós quando precisarmos num futuro breve”, refere. “Nós temos a ambição de que a medicina regenerativa seja a resposta para muita gente e para muitas situações, mas neste momento ainda é só para casos extremos, alvos de investigação ou em casos que não há outra solução e estão a tentar encontrar uma resposta”, acrescenta.

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