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A polémica à volta da história da primeira comunidade anarquista do País

Sociedade

Foi há já mais de cem anos que António Gonçalves Correia fundou a primeira comunidade anarquista em Portugal

D.R.

A experiência de vida de António Gonçalves Correia, o homem que em 1917 fundou uma comunidade anarquista no Vale de Santiago, Odemira, vai ser relatada em livro por Jean Lemaître, um jornalista belga. Considerando que é uma versão cheia de dados não factuais, a bisneta do português, Ana Nicolau, contesta a edição: “A minha luta é pela verdade”. O autor da obra riposta: “Estou a ser alvo de difamação”

"Eu não te detesto, Jean, de todo. Se faço todo este barulho é porque esperava de ti o que me disseste que ias fazer" - mensagem que Ana enviou a Jean, depois de este a acusar de estar a promover uma campanha de ódio

"Eu não te detesto, Jean, de todo. Se faço todo este barulho é porque esperava de ti o que me disseste que ias fazer" - mensagem que Ana enviou a Jean, depois de este a acusar de estar a promover uma campanha de ódio

D.R.

Quando o telefonema lhe chegou no final do ano passado, Ana Nicolau, 42 anos, nem imaginava o que a esperava. Do outro lado da linha, soava a voz de um jornalista belga, Jean Lemaître, a mostrar-se interessado na vida do seu bisavô, António Gonçalves Correia, um anarquista, vegetariano e humanista que viveu entre 1886 e 1967. Ana não estranhou - afinal, razões para alguém querer contar aquela história ao mundo não faltam: caixeiro-viajante de profissão, Gonçalves Correia foi detido em diversas ocasiões pela PIDE por se dedicar à produção de panfletos anarquistas, participar em publicações libertárias e pregar publicamente os seus ideais políticos. Sobre ele registam os arquivos daquela polícia política: «Vive em Beja. É um comunista perigoso, sendo considerado por todo o Alentejo como mentor de todos os movimentos de carater social.” Mas seria sobretudo a Comuna da Luz, organização que bebeu inspiração nas ideias de Tolstoi sobre resistência não violenta, fundada no Vale de Santiago, em Odemira, em 1917, a despertar a curiosidade de Jean Lemaître, o tal jornalista belga.

Agendaram um almoço, um encontro agradabilíssimo, como refere Ana. Ali ele lhe reafirmou a intenção de escrever um livro sobre a experiência de António Gonçalves Correia, com alguns dados biográficos, factuais, mas não demasiado privados; ali ela lhe retribuiu que nunca tinha conhecido o bisavô e que, mesmo sobre a Comuna da Luz, que despertara todo aquele interesse, havia muito pouca informação. Como Ana já estava mais ou menos instalada em Beja a preparar um documentário sobre o tema, combinaram que se um descobrisse algo avisaria o outro. E mantiveram o acordo até março, quando Lemaître lhe enviou uma primeira versão provisória do manuscrito.

De início, Ana não leu nem metade - “tal a quantidade de inverdades”. Mas, mesmo sem poder debruçar-se sobre a versão final que irá para as livrarias - a editora não voltou a responder a mais nenhum dos seus emails, e mesmo à VISÃO esse acesso foi recusado - Ana mantém que não pode ficar calada. Nem tal se esperava: afinal, não é esse o seu perfil, que conhecemos publicamente desde que, em março de 2015, interrompeu a intervenção de Passos Coelho, na época primeiro-ministro, no parlamento, gritando-lhe “metes nojo ao povo”, ao mesmo tempo que pedia “demissão”. Foi condenada, mas também elogiada pelo juiz: na leitura da sentença, ouviu-se que “Ana Nicolau é uma cidadã empenhada e que devia ser elogiada por isso, já que há falta dessas pessoas". Só não poderia fazer aquelas declarações dentro da Assembleia da República. “Agora, a minha luta é pela verdade”, declara.

A capa do livro sobre a experiência de Gonçalves Correia como aparecia no site da editora

A capa do livro sobre a experiência de Gonçalves Correia como aparecia no site da editora

O que se diz no livro

O que já se lia no manuscrito de La Commune des Lumières - António Gonçalves Correia, La Révolution Pour Viatique o título do livro de Lemaître, estava afinal, segundo Ana, mais próximo de uma biografia romanceada, algo que o jornalista lhe garantira não estar interessado em escrever. “Por exemplo, ele diz que o meu bisavô adorava a escola e era um ótimo aluno, quando ele chegou a Beja com 10 anos sem saber ler nem escrever – sempre foi um autodidata. Também diz que aderiu aos ideais da República aos 13/14 anos, mas o próprio escreveu, numa carta aberta a António José de Almeida, então Presidente da República, que fora republicano apenas entre os 18 e os 25 anos. Lemaître insinua ainda que ele foi abandonado pelos pais numa cidade desconhecida, quando eles tudo fizeram para que fosse trabalhar para um comerciante em Beja porque assim fugia à vida dura do campo...”

A lista, apontada com pormenor por Ana, parece não ter fim. “Ali se afirma ainda que participou num congresso dos trabalhadores rurais em 1912, e o que sabemos é que o terá feito em 1922. Diz que Ana do Carmo, mulher de Gonçalves Correia, era filha de um rico comerciante de Portimão, mas o que sempre correu na família é que não se sabia quem era o seu pai. Também refere que um dos seus filhos, Emílio, seguiu as suas ideias, sem que isso tenha alguma ponta de verdade. Escreve ainda que era conhecido como ‘Lobo branco’...Nem sabemos onde foi buscar essa ideia.”

Como no tal manuscrito se lia que eram “factos cuidadosamente verificados”, Ana decidiu-se a confrontar Lemaître. “Ripostou que aquilo era um romance, escrito num tom mais que elogioso e que o considerava uma espécie de homenagem”, conta ela. Seguiu-se uma troca de mensagens pouco simpática: “Quando se está a extrapolar sobre determinados factos da vida privada de uma pessoa, isso não é elogioso”, considera Ana.

Lemaître retorquiu que também já escrevera sobre o avô dele (C’est un joli nom camarade, sobre a vida de Jean Fonteyne, advogado da Internacional Comunista e o primeiro sobrevivente belga do campo de concentração de Buchenwald) e que só uma pessoa ou outra é que não gostara. Ana respondeu que “sobre a família dele ele pode inventar o que quiser. Sobre a dos outros é que não.”

Ana Nicolau, na Assembleia da República, no momento em que é detida depois de apontar o dedo a Passos Celhoo

Ana Nicolau, na Assembleia da República, no momento em que é detida depois de apontar o dedo a Passos Celhoo

Aos olhos da polícia política, António Gonçalves Correia era, claro, um "comunista perigoso" e o mentor de "todos os movimentos de carácter social" no Alentejo

Aos olhos da polícia política, António Gonçalves Correia era, claro, um "comunista perigoso" e o mentor de "todos os movimentos de carácter social" no Alentejo

Contra o lançamento, marchar

Após consultar a família, e com o seu apoio, Ana Nicolau decidiu então escrever à editora do livro de Lemaître. Apresentou-se como bisneta de António Gonçalves Correia e que falava em nome da família. “Comuniquei que nos opúnhamos à edição do livro porque não correspondia à verdade da vida dele na grande maioria das informações.” Conta ainda Ana que o editor defendeu o autor como pôde, acabando por revelar que a proposta que recebera era, desde o início, “para publicar um livro de ficção.” E não voltou a dar-lhe qualquer explicação para as incongruências da versão de LemaÎtre. Contactado pela VISÃO, Raul Mora, o responsável da Otium, a editora que tenciona lançar o livro este mês, recusou-se a mostrar a versão final que vai para as bancas.

Mas haveria mais pormenores em toda a história que deixaram Ana muito de pé atrás. Por essa altura, já se cruzara com uma conhecida da família nas ruas de Beja e desabafou. Foi quando Francisca Bicho, 69 anos, historiadora e uma grande estudiosa da obra e vida de Gonçalves Correia, com artigos a seu respeito publicados em jornais como "A Batalha" ou o "Diário do Alentejo". lhe revelou que conhecia o belga de um livro anterior – e cujo desfecho também não fora bonito. “Em 2015 apareceu-me esse Jean Lemaître a manifestar o seu interesse na teoria – pouco sustentada – da origem alentejana de Cristóvão Colombo, muito feita à conta de uma estátua que lhe ergueram em Cuba, localidade do Alentejo de onde se diz ser natural.” (Cristóvão Colombo, português, Edições Esgotadas, foi reimpresso em março passado).

Terá sido nessa conversa que Francisca Bicho lhe falou de outros nomes sonantes ali nascidos e acabaram a falar de António Gonçalves Correia – figura que aquela professora de história alentejana ainda tem bem na memória, um homem de barbas compridas e cabelo desalinhado que se passeava por Beja até poucos anos antes de morrer, no final dos anos 1960.

“Daí compreender bem a indignação de Ana”, confidencia Francisca: “Uma coisa é escrever sobre alguém que viveu há 500 anos, outra sobre alguém que muita gente viva ainda conheceu.” Pouco depois, ao saber que o seu nome também constava nos agradecimentos do livro sobre Gonçalves Correia, informou a editora que não o autorizava. “A ficção tem limites, éticos até”.

Houve mais quem concordasse com a posição de Ana e da sua família – como é o caso de Alberto Franco, autor de A Revolução é Minha Namorada - Memória de António Gonçalves Correia, anarquista alentejano, editado em 2000. À VISÃO, o próprio também confirma que fora contactado pelo jornalista belga e que lhe manifestara a dificuldade em obter informações fidedignas de determinadas épocas da vida do anarquista. “Se este retrato, que Lemaître traça, assenta em dados comprovados ou comprováveis parece-me que não há nada a opor. Se não, se o autor ficcionou determinados elementos que, na minha opinião, são essenciais para a caracterização duma personalidade, parece-me criticável. ".

Jean Lemaître, o jornalista belga que há anos passa temporadas no nosso país, e já assinou um livro sobre Grândola e outro sobre a teoria de que Colombo era português. Agora, a sua versão da história da comuna fundada pelo anarquista Gonçalves Correia está debaixo de fogo

Jean Lemaître, o jornalista belga que há anos passa temporadas no nosso país, e já assinou um livro sobre Grândola e outro sobre a teoria de que Colombo era português. Agora, a sua versão da história da comuna fundada pelo anarquista Gonçalves Correia está debaixo de fogo

O outro lado da história

A versão de Jean Lemaître, 65 anos, é, claro, muito diferente. "Estou a ser alvo de uma campanha de difamação”, considera. Lembra-se bem das três horas de conversa que tivera com Ana Nicolau em outubro, uma “entrevista muito calorosa”, e daí não compreender tanta animosidade. Nem desconfiou quando, logo no dia seguinte, recebeu um primeiro email seu a pedir-lhe para não reproduzir determinados detalhes.

“Estou convencido de que sofreu alguma pressão de familiares mais velhos para não se falar de certos factos”, alega o belga, a insistir que tinha outras fontes que não apenas aquela conversa com Ana. Mas quando soube que a ativista e porta-voz da família tinha contactado a editora sobre o assunto tudo se complicou. “É feio. Além disso, também contactou outras pessoas, que depois vieram pedir para tirar o seu nome dos agradecimentos. É muito feio”.

No seu entender, Ana está a querer falar em nome da família como se só ela fosse dona da verdade. “E o problema é que não pesquisou ainda o suficiente sobre ele, não conhece a história do seu bisavô”, acrescenta ainda Lemaître, insistindo que tem provas de tudo o que escreveu, mesmo o que estava num blogue que possa ter sido, entretanto, alterado.

A alusão é ao blogue de Rui Silva http://antoniogoncalvescorreia.blogspot.com/, trineto de Gonçalves Correia, e cujo acesso é público. “Por exemplo, escrevi que Ferrer, o filho que Gonçalves Correia teve com Adélia, sua companheira na comuna, era o nome da escola de pedagogia alternativa que essa mulher fundara, e indiquei que o nome era inspirado no apelido do anarquista espanhol que, no início do século, desenvolvera a pedagogia alternativa que hoje conhecemos como Escola Moderna. E é este tipo de coisas que Ana quer branquear. Mas a ditadura já acabou e a censura também”, classifica Lemaître, antes de acrescentar:

“Isto que escrevi não é uma biografia ou uma tese universitária, é a história da Comuna da Luz. As referências à vida privada de António Gonçalves Correia não ocupam mais de um quarto do livro”, nota o autor, que também co-assinou Grândola Vila Morena – a canção da Liberdade (Edições Colibri, 2014).

“A minha maior tristeza é que conheci Ana e o seu envolvimento público nos tempos da Troika e sempre considerei que seria alguém de confiança. Afinal, é alguém muito agressivo, que denota uma enorme contradição entre os valores e a ação. Nunca vi uma falta de respeito assim”. E para mostrar que não está a brincar, o seu advogado já fez saber a Ana que há uma acusação de difamação no ar.

Ana insiste que, quando alguém se propõe a escrever - ou diz que escreveu - um romance "baseado em factos cuidadosamente verificados" em que inclui "informações" pessoais sobre alguém, estas devem ser procuradas junto da família e não em coisas que se encontram escritas. "Mais ainda no século de fácil desinformação em que vivemos.”

Manuel Fonseca

Uma luz sobre Gonçalves Correia

A Comuna da Luz, de que aqui se fala, foi uma experiência utópica fundada em 1917, que não resistiu aos tumultos sangrentos no País do ano seguinte. Sem perder tempo, a polícia logo acusou António Gonçalves Correia e os seus companheiros de organizarem uma greve de trabalhadores rurais e os instigarem a ocupar herdades e assaltar alguns celeiros. A comunidade acabou por ser desmantelada e o próprio Gonçalves Correia preso. Mas pouco depois de sair da prisão, em 1926, o conhecido anarquista reacende a chama na Comuna Clarão em Albarraque, no concelho de Sintra.

Também não foi duradoura – mas nada que o quebrasse, persistindo em escrever panfletos e cartas para jornais anarquistas. Ao mesmo tempo, ia comprando pássaros em feiras, apenas para os libertar das suas gaiolas. Aquele “perigoso agitador comunista”, como o classificava a polícia política do Estado Novo, proclamou a revolução como sua namorada e jurou não cortar as suas longas barbas até que o regime de então fosse destituído. António Gonçalves Correia morreu antes disso – em dezembro de 1967 - mas há quem diga que o seu nome é ainda uma “contrassenha” nas terras do Baixo-Alentejo.

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