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A máquina de exportar jogadores

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SOPA Images/ Getty Images

João Félix protagonizou a maior transferência de sempre do futebol português. Quais as razões para os clubes faturarem tantos milhões?

Rui Barroso

Rui Barroso

Jornalista

A história do sucesso das exportações portuguesas já não é nova. Se somos conhecidos por vender ao estrangeiro têxteis, azeite e cortiça, cada vez mais Portugal é conhecido por outras exportações: jogadores de futebol. É que os clubes portugueses têm o maior saldo com transferências em todo o mundo na última década, ou seja, nenhum outro campeonato ganhou tanto dinheiro entre compras e vendas de passes de jogadores. Sem acesso aos jackpots de direitos televisivos e de contratos de patrocínio das maiores ligas europeias, o futebol nacional tornou-se exímio na arte de formar e valorizar futebolistas para os vender por somas astronómicas.

Na última década, as vendas feitas por clubes da Primeira Liga para outras competições totalizaram 2,67 mil milhões de euros, segundo dados do site especializado Transfermarkt. Já as compras foram de 1,12 mil milhões. O saldo positivo é de 1,55 mil milhões, o maior excedente do mundo, superando grandes pátrias do futebol como o Brasil. Mas nem tudo é lucro, já que os valores totais das transferências podem ser repartidos por detentores de parte dos passes dos jogadores e empresários que cobram comissões por esses negócios.

Os valores envolvidos são cada vez maiores e esta época dá indicações de vir a pulverizar todos os recordes. João Félix protagonizou a maior transferência de sempre do futebol português, ao ser contratado pelo Atlético de Madrid ao Benfica por 126 milhões de euros. E ainda há margem para mais negócios milionários até ao fecho da janela de transferência, como uma possível saída de Bruno Fernandes do Sporting para o futebol inglês.

O diretor técnico nacional da Federação Portuguesa de Futebol, José Couceiro, realça que “este excedente não é da última década, apesar de os valores terem crescido de forma significativa”. Aponta dois momentos marcantes que serviram de alicerce para a valorização dos futebolistas em Portugal: a década de 1980, em que o futebol de formação começou a ser mais desenvolvido pelo trabalho de Carlos Queiroz; e o ano de 1995, o da revolução Bosman, que permitiu a livre circulação na União Europeia de futebolistas comunitários e deu mais flexibilidade contratual aos jogadores.

A partir daí, o mercado abriu-se e as transferências globais foram galopando até atingirem os valores estratosféricos dos últimos anos. Os sucessivos recordes na venda de direitos televisivos, os contratos de patrocínios com muitos zeros à direita e a entrada de multimilionários no desporto-rei foram os playmakers que permitiram a faturação cada vez maior da indústria do futebol. “Ano após ano, as receitas das principais ligas europeias têm tido taxas de crescimento bastantes significativas”, explica António Samagaio, professor de Controlo de Gestão no ISEG e que acompanha de perto as finanças do futebol. A consultora Deloitte estima que os 20 clubes com maiores receitas disponham de um bolo global de 8,3 mil milhões de euros. Numa década, a faturação mais do que duplicou.

A efervescência no mercado de transferências não dá mostras de abrandar. Vendas de passes de jogadores por mais de 50 milhões de euros tornaram-se a normalidade, e António Samagaio afirma que “se olharmos para os principais fatores de crescimento das receitas das grandes ligas, que têm que ver com as somas significativas dos direitos televisivos, não acredito que haja uma bolha. Cada vez mais estas ligas vendem os seus campeonatos a uma escala planetária e fazem-se pagar por isso”. Sem surpresa, os clubes dos principais escalões do futebol inglês, espanhol, italiano e alemão são os principais importadores líquidos de futebolistas. A Premier League é mesmo um mundo à parte. O valor das compras foi seis mil milhões de euros superior ao das suas vendas na última década, segundo dados do Transfermarkt. Algumas das aquisições foram feitas, no entanto, a escalões secundários do futebol inglês.

E negócio alimenta negócio. Apesar dos limites relacionados com o fair play financeiro, Ulisses Santos, empresário de jogadores como Gelson Martins e Ferro, refere à VISÃO que o dinheiro injetado nos últimos anos ficou no futebol e levou a que os investimentos fossem cada vez maiores, já que as receitas globais também têm aumentado. E isso gera aquilo a que chama “um efeito bola de neve”. Quem vende tem de ir ao mercado buscar novos reforços e ativos para valorizar.

No caso do Benfica, por exemplo, após a venda de João Félix, já reinvestiu cerca de 40 milhões de euros em novos reforços. Raul de Tomás e Carlos Vinícius chegaram a troco de 20 milhões e 17 milhões de euros, respetivamente. Entraram para o top 3 dos jogadores em que o clube gastou mais dinheiro.

A tática portuguesa

A injeção de cada vez mais dinheiro na indústria alargou o fosso entre as cinco maiores ligas (Inglaterra, Espanha, Alemanha, França e Itália) e o resto das competições, tanto a nível financeiro como desportivo. Nenhum clube fora dos big five entra na lista dos 20 com maiores receitas. Até no segundo pelotão é difícil encontrar representantes de outros países. Em Portugal, apenas o Benfica consegue entrar no top 30 dos que mais faturam, segundo as estimativas da Deloitte. Ainda assim, está abaixo do Brighton, clube que luta para não descer de divisão no principal escalão do futebol inglês. Além dos encarnados, há apenas mais dois representantes de fora das cinco maiores ligas: o Zenit de São Petersburgo e os turcos do Besiktas.

O futebol nacional tem poucos argumentos para competir com os maiores campeonatos europeus em termos de receitas e para reter futebolistas de topo. Ainda assim, “houve situações positivas na abertura do mercado”, diz José Couceiro. O diretor técnico nacional relembra que, desde 1995, “nas grandes competições de seleções, apenas falhámos a presença no Mundial de 98. Até essa data, as presenças eram intermitentes” Couceiro diz que “há uma leitura a fazer” e que os “jogadores só se desenvolvem se tiverem novos desafios”. As boas prestações ao nível das seleções ajudaram a comprovar que “os nossos jogadores de topo competem a nível superior e os grandes mercados olham para a proveniência”.

Sem acesso a jackpots de direitos televisivos e de contratos de patrocínio ao nível das maiores ligas europeias, os clubes portugueses montaram uma tática para compensar essa debilidade. “A Liga portuguesa é das que têm menores receitas entre os campeonatos de maior dimensão, o que nos faz ser criativos”, explica Ulisses Santos. O empresário detalha que “a orientação da parte organizativa e de planeamento é de contratar em função de potenciar um futuro negócio, ao contrário de outras ligas que contratam para consumo interno e para usufruir do jogador”.

António Samagaio constata que “há um modelo de negócio instituído, que o Porto começou e que o Benfica tem estado a aproveitar muito bem nos últimos anos, que é tentar comprar barato ou formar internamente para depois vender por valores mais elevados”. O professor do ISEG afirma que essa fórmula começou a ser seguida depois das vendas significativas que o Porto fez após o sucesso na Liga Europa em 2003 e na vitória na Liga dos Campeões em 2004. “Foi um abrir de olhos para o mercado”, diz.

Apesar de não exportar em tanta quantidade como o Brasil ou a Argentina, Portugal consegue criar mais valor nos seus jogadores. António Samagaio considera que isso tem que ver com a montra das competições europeias: “É uma vantagem face a outros mercados, como o brasileiro ou o argentino. Há um efeito bastante positivo se os jogadores atuarem na Champions League ou na Seleção Nacional. Caso contrário, o jogador vai estar quase a desconto porque ainda lhe faltou mostrar aos principais clubes que é capaz de competir ao mais alto nível.”

O valor de mercado de João Félix, por exemplo, disparou em pouco mais de meio ano, de uma estimativa de 12 milhões para uma transferência de 126 milhões. Nesses meses, o avançado fez uma exibição de encher o olho nos quartos de final da Liga Europa, tornando-se o mais novo de sempre a fazer um hat-trick na competição, estreou-se pela Seleção Nacional e foi um dos mais influentes no título conquistado pelo Benfica.

Mas não é só de talento formado desde cedo nas academias que se fazem os milhões nas transferências do futebol português. Nas 11 maiores vendas de sempre, oito foram de jogadores estrangeiros que foram valorizados nos relvados nacionais.
Ulisses Santos explica que, desde dirigentes a treinadores, todos os intervenientes seguem as diretrizes exigidas pelo modelo de negócio dos clubes. “É tudo orientado para a venda futura do jogador, daí não ser muito comum clubes portugueses contratarem jogadores já com uma certa idade”, explica. Afirma que os próprios agentes de jogadores estão “orientados para essas necessidades dos clubes”.

O futebol português consegue fornecer as maiores ligas com “jogadores que são novidades no mercado”, afirma José Couceiro. O diretor técnico, que tem como missão reorganizar os modelos competitivos e dar enfoque ao futebol de formação, afirma que se “trabalha melhor e tem havido uma lógica em que se começa a perceber que a gestão conjunta é a opção mais favorável”. Considera que “é preciso espaço competitivo, ter desafios e competir em patamares mais elevados” e explica que “as alterações no trabalho de base, o regresso das equipas B e a competição de sub-23” ajudam no crescimento de jovens jogadores. “Não é por acaso que nos sub-19 fomos a quatro finais [de Europeus] nos últimos seis anos e os nossos jogadores estão num nível alto.”

Apesar dos bons resultados, Couceiro diz: “Não trabalhamos de forma diferente nem somos melhores do que todos os outros.” E exemplifica com o futebol espanhol, que também tem um modelo assente em equipas B para desenvolver jogadores e que tem dominado as competições de seleções jovens. A grande diferença é que “o mercado espanhol tem outra capacidade financeira e absorve quase todos”. Já em Portugal, dada a dimensão do mercado, dificilmente se conseguirá reter esses jovens talentos.

Pontos fracos

Costuma dizer-se no futebol que não há tática que não tenha pontos fracos. E apesar de os chamados três grandes conseguirem encaixar somas avultadas com a venda de jogadores, o modelo de negócio é arriscado. “Ao contrário das principais ligas, os nossos clubes precisam dessa receita e quando não a conseguem, ficam logo numa zona de perda. Se não acontece uma transferência ou se algo não corre bem, rapidamente se entra no vermelho”, afirma António Samagaio. Essa é a explicação para que, apesar dos milhões encaixados, os clubes portugueses vivam uma situação financeira difícil.

Apesar de os clubes portugueses terem negociado contratos televisivos mais vantajosos, esses valores não se comparam com os das maiores ligas. E uma parte significativa desse dinheiro tem como destino o serviço de dívida ou a atenuação do desequilíbrio financeiro quase crónico das SAD. Assim, uma boa temporada nas provas europeias permite um ano desafogado com os prémios da UEFA e a valorização de jogadores em grandes montras. Já uma época fraca em termos desportivos acaba por levar por arrasto a situação financeira do clube.

A forma de tornar o futebol português mais sustentável no longo prazo passa por ter “mais equipas de qualidade para que existam mais jogadores que tenham condições para vir a ser de topo”, defende José Couceiro. O diretor técnico da FPF considera que “estamos a fazer bem, mas temos ainda de melhorar na quantidade”. Até porque na Primeira Liga apenas cerca de um terço dos jogadores são portugueses vindos da formação.

Couceiro considera que as alterações que têm vindo a ser feitas permitiram “o aparecimento de novos jogadores”. Mas quer mais equipas competitivas e elege a aposta em mais infraestruturas para existirem mais equipas e futebolistas de qualidade. Diz que um dos males do futebol português é “ainda existir a ideia de se querer ser muito forte e que os outros sejam fracos, mas é impossível trabalharmos uns contra os outros e precisa-se dos adversários. Este é um fator que temos de melhorar”. E defende que não se deve ver o sucesso do futebol português pelos resultados das seleções nacionais.

Marcação apertada

Quanto maior o valor dos milhões envolvidos, maior também a preocupação sobre o tipo de dinheiro injetado e se está efetivamente a ser utilizado para o desenvolvimento do futebol. A Deloitte notou, numa nota, que “devido às receitas geradas pelo desporto, esta área é conducente a evasão fiscal, como ficou ilustrado pelo Football Leaks”. As revelações feitas mostraram “como alguns agentes, intermediários e responsáveis de clubes perverteram a ética do desporto e as regras fiscais para maximizarem o acesso à riqueza gerada pelo futebol, à custa da qualidade do jogo, do desenvolvimento de talento e das expectativas dos adeptos”.

O Grupo de Ação Financeira Internacional (FATF na sigla em inglês), organismo intergovernamental de combate ao branqueamento de capitais, tem apontado o futebol como um setor vulnerável. Entre os pontos frágeis está a estrutura do setor, que tem “redes complexas e opacas de stakeholders” e, apesar dos progressos nas maiores ligas do mundo, ainda há mercados e clubes com gestão pouco profissionalizada. Também a Comissão Europeia tem os negócios do futebol debaixo de olho. Num relatório divulgado este mês, Bruxelas concluiu que a ameaça de branqueamento de capitais é “muito elevada” e emitiu recomendações aos Estados-membros para mitigar esse risco. A comissão mencionou nesse relatório a Operação Matrioskas, concluída pela Polícia Judiciária em 2016, após uma investigação à presença de máfias russas em escalões secundários do futebol português.

As revelações vindas do Football Leaks têm levado a uma marcação mais apertada por parte das autoridades. O relatório das atividades de combate à fraude e à evasão fiscal revelava que “durante o ano de 2018, continuou a acompanhar-se o setor do desporto, refletindo a preocupação por parte da Autoridade Tributária, nomeadamente no que respeita ao futebol profissional, dados os valores envolvidos nas transações de jogadores, respetivas comissões de intermediação e direitos de imagem”. O Fisco investigou negócios feitos em 2015 e 2016 e concluiu 30 processos de investigação administrativa que resultaram em proposta de correções e na “identificação de indícios da prática de operações fraudulentas, que se encontram atualmente ao abrigo do segredo de Justiça”. Em Espanha e no Reino Unido, a marcação ao negócio do futebol também se intensificou.

Enquanto isso, a bola rola, os adeptos esquecem os casos e o dinheiro continua a circular.

Matthew Ashton - AMA

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