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O médico que só quer viver até aos 75 anos e os seus argumentos

Sociedade

D.R.

A tese de um conhecido oncologista americano é que uma vida cheia de deficiências e atividade diminuída não merece ser vivida. Eis as suas razões

Foi há já alguns anos que o oncologista americano Ezekiel Emanuel abordou o tema pela primeira vez, através de um ensaio provocador na revista The Atlantic intitulado "Why I Hope to Die at 75", qualquer coisa como Porque Espero Morrer aos 75 anos. A tese ganhou alguma força à época, ainda Emanuel era presidente do departamento de ética médica e política de saúde da Universidade da Pensilvânia e uma das principais figuras na criação do Obamacare, nome porque ficou conhecida a lei que garante cuidados de saúde básicos a todos os americanos.

Antes de mais, diga-se que Ezekiel Emanuel, 61 anos, possui um daqueles currículos de causar inveja. Além de chefe da disciplina de ética médica e políticas de saúde na Universidade da Pensilvânia, também já deu aulas em Harvard e foi diretor dos institutos nacionais de saúde dos EUA. Daí a estranheza que causou ao revelar aquela sua reflexão sobre a procura incessante da humanidade e da ciência em prolongar a expectativa de vida e os problemas que isso acarreta.

A tese que agora revisita, no MIT Technology Review, passa por recusar tanto intervenções médicas como antibióticos ou vacinas depois de completar 75 anos. O cerne do seu argumento é que os americanos mais velhos estão a viver tempo demais de forma deficiente e diminuída, daí estar a insistir para que os seus amigos – e o resto do mundo, claro – pensem como querem viver à medida que envelhecem. “Quero que pensem numa alternativa, para evitar sucumbir àquela lenta constrição de atividades e aspirações, impercetivelmente impostas pelo envelhecimento.”.

Claro que as vozes contra este tipo de argumento não demoraram. Por exemplo, a de Ashton Applewhite, há muito ativista contra isto do idadismo, atirando sempre com a pergunta: “Em que momento e porque razão é que os mais velhos se tornaram inimigos dos mais novos?”. A sua Ted Talk é bem elucidativa do seu pensamento. Mas não é só: segundo Applewhite, há uma série de alegações infundadas nos argumentos de Emanuel – e, diga-se de passagem, é verdade que as ideias de Emanuel estão muito próximas de se tornarem obsoletas. Afinal, como diz o biohacker e guru do estilo de vida Dave Asprey, estamos cada vez mais próximos de viver até aos 150 anos.

Mas, enquanto toda a gente tem medo de morrer, para Emanuel aquilo que se afigura uma alternativa para muitos – a degeneração - é mil vezes pior: “Viver muito tempo também é uma perda, em todos os aspetos”.

E os argumentos são...

Emanuel apresenta várias perspetivas. Uma delas é que não há muitas pessoas a conseguir manterem-se ativas e empenhadas no propósito das suas vidas. E embora haja sempre quem esteja fisicamente em forma e saudável até aos 90 ano, serão sempre exceções: a maioria das pessoas não terá essa sorte. Insiste Emanuel que o envelhecimento transforma a forma como as pessoas lidam connosco e, mais importante, se lembram de nós. “Já não nos veem como pessoas enérgicas e empenhadas, mas fracas, ineficazes e até patéticas...”

Emanuel repudia ainda aquilo que ele chama de “o imortal americano”, ou seja, a quantidade de tempo e energia que as pessoas gastam obcecadas com exercícios, dietas e planos de longevidade para viver o maior tempo possível. “Rejeito essa aspiração. Acho mesmo que esse desespero maníaco para prolongar infinitamente a vida é um tremendo equívoco e mesmo potencialmente destrutivo. Por várias razões, 75 anos é uma idade muito boa para se tentar parar” - como quem diz, não vai terminar ali, no dia e na hora em que completar aquela bonita idade, mas não tentará prolongá-la. Ponto.

E quando lhe perguntam o que há de errado nisso, o médico é um pouco, convenhamos, irreverente: “Há quem insista que tem uma vida muito ativa e vigorosa aos 70, 80 e 90, mas quando prestamos um bocadinho de atenção ao que fazem realmente não é de facto uma atividade significativa, é mais uma brincadeira.”

Emanuel sugere ainda que esta nossa obsessão com a longevidade está a afastar a atenção da saúde e bem-estar das crianças. “Um dos números que gostaria de salientar é que por cada 7 dólares do orçamento federal que vai para pessoas com mais de 65 anos vai apenas 1 – um! - para quem tem menos de 18”.

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