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As pessoas com depressão dizem mais certas palavras. E não, não são só as que expressam emoções negativas

Sociedade

Getty Images

A tecnologia pode ajudar-nos a combater a depressão. Uma série de académicos tem estudado a forma como as pessoas com depressão comunicam e já estão a desenvolver métodos de análise psicológica informatizados

Pessoas com depressão têm mais tendência a dizer certas palavras. Essa relação entre emoções e linguagem pode ser identificada por computadores e, mais tarde, ser um auxilio de avaliação psicológica dos individuos. Um estudo, publicado na Clinical Psychological Science, revelou um conjunto de palavras que podem ajudar a prever com precisão se alguém está a sofrer de depressão.

Vamos por partes para explicar como chegámos até aqui. Tradicionalmente, análises linguisticas no ramo da depressão foram realizadas através da leitura e da interpretação dos especialistas. Rapidamente se percebeu que existem diferenças, tanto ao nível do conteúdo, como do próprio estilo, entre o discurso de pessoas com e sem depressão.

A introdução da tecnologia e da análise automatizada pode ajudar a identificar aspetos linguísticos que os humanos não detetem, calculando a pecentagem de utilização de certas palavras e classes de palavras, diversidade lexical, comprimento médio das frases, padrões gramaticais e muitos outros parâmetros.

Quais serão então os padrões de identificação? Um dos mais óbvios e intuitivos é a utilização de palavras ligadas a emoções negativas, especificamente adjetivos e advérbios negativos como "solitário", "triste" ou "infeliz". Mas o uso de pronomes na primeira pessoa (eu, meu, mim, comigo), em detrimento da segunda ou terceira pessoa também é um sintoma de mau-estar psicológico. Nota-se, por isso, que as pessoas deprimidas estão muito centradas em si em vez de nos outros. Ainda assim coloca-se a questão: será a depressão que leva as pessoas a focarem-se só nelas próprias, ou é o facto de se focarem demasiado nelas próprias que as torna deprimidas?

Além destes fatores, existem também as (chamadas pelos autores) “palavras absolutistas”, como “sempre”, “nada” ou “completamente”. Estas são também referências lexicais do discurso de pessoas com depressão. Os autores compararam 19 páginas de fórum, discussão e partilha de testemunhos, e a prevalência de palavras absolutistas é aproximadamente 50% maior em fóruns de ansiedade e depressão, e cerca de 80% maior em sites de ajuda e prevenção de suicidio.

Entender como se caracteriza a linguagem própria da depressão pode ajudar-nos a perceber a forma como as pessoas com sintomas de depressão pensam. Mas a vantagem mais prática e direta é o facto de classificar e identificar uma variedade de condições de saúde mental a partir de amostras de textos escritos no dia-a-dia, como publicações em blogs ou em redes sociais. A forma automatizada é simultaneamente mais rápida e eficaz que o trabalho feito pelos terapeutas.

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