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Voltar ao trabalho após as férias não é um bicho de sete cabeças

Sociedade

Estelle Johnson / Getty Images

Alguns métodos psicológicos são aconselhados a quem está de volta ao trabalho para ajudar a entrar na rotina de forma mais fácil e calma

Se ainda não foi de férias, guarde este artigo para ler depois. Mas se está a terminá-las, já está "doente" só de pensar em voltar ao trabalho e sente como um pesadelo o entrar novamente na rotina habitual e deixar a “boa vida” para trás... estas linhas são para si.

Existem alguns passos que podem tornar o seu retorno mais tranquilo.

Vera de Melo, psicóloga clínica há 14 anos e CEO das empresas “Your People” e “SET GOALS – Human Consulting”, defende que assim como nós “demoramos tempo a adaptar o nosso corpo e a nossa mente ao ritmo das férias”, também de repente não podemos estar à espera que a produtividade e a vontade quando regressamos seja igual porque o corpo não consegue, nem do ponto de vista psicológico nem do nosso organismo”. A especialista recomenda que se tire um dia antes de voltar para o trabalho para facilitar o período de adaptação.

Uma das razões pela qual as pessoas vêem a chegada ao trabalho como um bicho de sete cabeças é porque “pensam na quantidade de trabalho que vão encontrar” quando voltarem. “O erro número um é quando as pessoas chegam logo no primeiro dia, com o espírito de super herói e querem logo fazer tudo. Isso é humanamente impossível e faz com que as pessoas sintam culpa e frustração porque não atingem as suas expetativas”, acrescenta Vera de Melo. Não exigir demasiado de nós logo nos primeiros dias é fundamental. A psicóloga refere ainda que é importante tirar 10 ou 20 minutos para definir prioridades. Embora “as pessoas digam que é uma perda de tempo, isto permite-nos fazer um planeamento para termos uma melhor noção do que estamos a fazer”.

Outro dos motivos que também não ajuda é o facto de se encarar a rotina como “o regresso ao mundo das chatices e obrigações”. Não se pode pensar que “só se estava bem de férias porque isso é ter saudades de uma vida que não é a nossa. O facto de termos uma profissão estrutura a nossa vida e obviamente que não podemos estar todo o ano de férias”. É preciso compreender que os momentos de lazer e relaxamento não chegaram ao fim, “as pessoas têm os fins de semana, as férias a seguir e os feriados”.

As tarefas domésticas também podem não ajudar, mas Vera de Melo pensa que é um mito dizer que as mulheres podem ser mais afetadas do que os homens. Do ponto de vista histórico, as mulheres tiveram sempre mais afazeres. No entanto, “em termos de sociedade, a noção de família está bastante alterada e os papéis acabam por estar ao mesmo nível no homem e na mulher”.

Segundo a psicóloga, “perceber que é natural estar-se ansioso com o regresso ao trabalho e pensar neste com naturalidade”, auxiliam o processo de retoma à rotina. Também conviver com os colegas, aproveitar e prolongar as “pausas do café” é um passo importante porque “o cérebro não está logo preparado para trabalhar sem interrupções”.

Embora sejam poucos os casos, há realmente situações em que a pessoa pode estar a passar pela chamada “depressão pós-férias”. Esta verifica-se quando sintomas como a dificuldade de concentração, dores de cabeça e de barriga e diminuição de produtividade se prolongam, podendo demorar algumas semanas a passar, dependendo do tempo de férias que se teve e da própria personalidade. O que pode acontecer é que esta depressão pode ser “um sintoma mascarado de que algo não está bem”. Ou seja, por vezes “não significa que temos saudades das férias”, mas sim que temos realmente de “procurar um novo trabalho porque este já não nos satisfaz”. Nestes casos é aconselhável procurar ajuda médica e eventualmente um psicólogo. No entanto, a especialista realça que na maioria das situações isto não se verifica.

Vera de Melo relembra que é fundamental tirar férias porque são “momentos de paragem, reflexão e de estar com a família” e que permitem que “a pessoa recupere energias e baterias” que ajudam a “enfrentar com um novo ânimo e de diferentes formas os novos desafios [de trabalho]”. Além de terem benefícios na nossa saúde mental, como o aumento da nossa capacidade de concentração, são também uma oportunidade de relaxar, melhorar a qualidade de sono e aproveitar os momentos de lazer sem stress. Mas, mais importante do que tirar férias, é saber como as aproveitar de forma correta e sem estar completa ou parcialmente atento às notificações do telemóvel. Isto é, “na mala não se pode levar o stress, senão as férias não vão ser férias, vão ser um novo trabalho”.

No fundo, é tão importante ir de férias como saber voltar das mesmas. Desta forma, regressar à rotina não precisa de ser uma tempestade num copo de água.

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