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Vender estrelas: o negócio milionário que não é bem o que parece

Sociedade

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O que têm Winona Ryder, Nicole Kidman e a princesa Diana em comum? Todas têm uma estrela registada em seu nome. A “nomeação” de estrelas é um negócio milionário que já existe há mais de 3 décadas e que chegou recentemente a Portugal. Mas será que sabemos do que, realmente, se trata?

Pedro Dias

Pedro Dias

Jornalista

A ideia de negócio surgiu nos EUA em 1979, com a International Star Registry. Desde então, uma simples pesquisa no Google pelos termos “buy a star” (comprar uma estrela) mostra-nos o quanto esta ideia cresceu e foi difundida.

Entre os resultados aparecem nomes como Online Star Register, Starregistration.net, Starling Star Registry, Star Registration, Star Register, Staracle International, Star Name Registry, Global Star Registry, Cosmo Nova, Name a Star Live, entre outras empresas com nomes muito semelhantes. E tal como o nome, também o serviço que prestam: a “compra”, “registo” ou “nomeação” de uma estrela.

Mas em que consiste este negócio exatamente? Segundo a maioria dos sites oficiais, o cliente pode pagar para dar nome a uma estrela e registá-la com esse nome numa base de dados. A estrela é, por norma, aleatória, sendo que o cliente pode escolher, dependendo da empresa, a constelação onde esta se insere e o tipo de estrela que é. Os preços variam de empresa para empresa, mas podem ir de dezenas a várias centenas de euros, dependendo do serviço contratado e dos “extras” que o cliente pretende obter com a compra.

O preço base mais baixo é oferecido pela Name a Star Live, que oferece "a nomeação e dedicação” de uma estrela por 19,95 dólares (17,83€). Este serviço é o mais barato da empresa e inclui o registo da estrela numa base de dados, um certificado impresso com o novo nome da estrela, as suas coordenadas e uma dedicatória (caso o cliente queira oferecer a estrela a alguém como presente), um e-book sobre astronomia e “o lançamento do nome da estrela e da dedicatória para o espaço”, com um certificado com a data do voo a acompanhar.

Por sua vez, o mais caro ronda os 199€ e é oferecido pela Starling Star Registry. Dependendo dos extras, o preço pode subir para os 234€. Este é o pacote mais completo que a marca oferece e permite dar nome a uma supernova, “as estrelas mais brilhantes do céu”, numa constelação à escolha. Inclui um certificado com o nome, data e dedicatória da estrela, um mapa estelar, “cinco documentos” com informações sobre a estrela, uma pasta, um CD com “software planetário” gratuito, uma fotografia da estrela escolhida, uma moldura A4 e um “colar prateado” ou uma bússola.

Quase todos os sites vendem o serviço como “o presente ideal” para oferecer a alguém especial, e a ideia de dar um nome a uma estrela e de a conseguir localizar no céu parece um tanto ou quanto fascinante. Contudo, existe uma grande questão que deve ser abordada antes de considerar ou desconsiderar qualquer fascínio: é possível uma pessoa comprar ou dar nome a uma estrela? E a resposta é muito simples: não, não é.

A International Astronomical Union (IAU) é a única organização do mundo habilitada internacionalmente a atribuir nomes a objetos celestes. Nenhuma outra entidade, pública ou privada, tem o mesmo direito. E mais ainda, a IAU não dá nomes de pessoas a astros, mas sim uma combinação de números e letras que lhes é mais útil para a identificação de cada objeto. Com isto em consideração, percebe-se que a nomeação e registo de estrelas é apenas, como aparece descrito nalguns dos sites, um ato “simbólico”. Simbólico porque o nome atribuído às estrelas não é - nem pode ser – reconhecido ou aplicado cientificamente, e apenas é válido na base de dados privada da empresa.

E isto levanta uma outra questão: as empresas regem-se pelas constelações existentes, como forma de posicionar as estrelas que vendem. Sendo que existem 88 constelações com um número finito de estrelas e que cada empresa tem uma base de dados apenas sua que se rege por estas constelações, dá-se a possibilidade de uma estrela ser revendida. Por outras palavras, uma mesma estrela pode ser vendida várias vezes ou a várias pessoas diferentes, pela mesma empresa ou por concorrentes.

Tal aparece descrito na página de Termos Gerais e Condições de Negócios da Starling Star Registry, que explica que “as mesmas estrelas podem ser nomeadas em várias ocasiões pelo vendedor, pois a comparação de dados com outros vendedores de ‘nomes de estrelas’ está descartada. O vendedor reserva o direito de nomear estrelas em várias ocasiões. O vendedor não dá qualquer garantia de que uma determinada estrela não ainda foi ‘nomeada’ por um outro vendedor ou que não será ‘nomeada’ no futuro. Consequentemente, a possibilidade de uma estrela ser ‘simbolicamente nomeada’ em várias ocasiões por diferentes vendedores de ‘nomes de estrelas’ deve ser considerada”.

Contudo, existem marcas que garantem a exclusividade das estrelas vendidas, pelo menos dentro da própria base de dados, como é o caso da Global Star Registry, que garante que “o nome de cada estrela será arquivado e registado somente uma vez”; e da Star Register, que alega que “as coordenadas de cada estrela só são alocadas uma vez, num registo único”.

Algumas destas empresas pegam depois nos registos e escrevem-nos em livros, que mais tarde publicam ou vendem. É o caso da International Star Registry, que publicou 9 volumes do livro Your Place in the Cosmos, composto inteiramente por nomes de estrelas dados ao longo de um espaço de tempo específico. O último volume encontra-se à venda na Amazon pelo preço de 39,95 dólares (35,71). A Global Star Registry também alega que “o nome da estrela será guardado num arquivo e escrito num livro”.

A nomeação e registo de uma estrela é, portanto, um ato alegadamente simbólico e potencialmente não-exclusivo. Se pensa que isto são características passiveis de desvalorizar um serviço tenha isto em conta: o serviço prestado por estas marcas não é este.

A Star Registration define o serviço que presta exclusivamente como “vende documentos de alta qualidade embalados como artigos de presente. Enquanto ninguém pode ser proprietário de uma estrela verdadeira, o comprador recebe um certificado com uma dedicatória individual, um nome e data escolhidos que pode oferecer”. A Starling Star Registry alega ainda que “o desempenho prestado que o cliente compra através da sua encomenda será um material impresso que é constituído por várias páginas e uma pasta de fecho”.

Segundo a revista Wired, a pioneira International Star Registry vendeu sozinha mais de 1 milhão de registos de estrelas durante os seus anos em atividade. Atualmente, os seus preços variam entre os 54 dólares (48,27€) e os 154,95 dólares (138,51€). Com a adição de uma “moldura especial”, os preços podem disparar para os 489 dólares (437,11€). A única empresa do setor que presta este serviço gratuitamente é a Staracle International, que alega que “ninguém é dono das estrelas, logo ninguém as deveria vender” e que “nomear uma estrela gratuitamente ou comprar uma estrela por muito dinheiro é exatamente o mesmo”.

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