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Lavar a roupa tem os dias contados?

Sociedade

photo by dasar

O futuro pode vir a dispensar máquinas de lavar roupa, detergentes e ferros de engomar. O segredo está nos materiais que permitem usar uma peça semanas a fio... e sem maus cheiros. Vamos deixar de lavar roupa?

Depois de anos e anos a ver anúncios de televisão a detergentes para lavar a roupa (sempre com mulheres a cuidarem dos filhos, à exceção de uns poucos que apareceram nos últimos anos), é estranho pensar que alguém possa usar a mesma t-shirt durante três semanas seguidas sem exibir uma única nódoa ou que se possa conviver com alguém que não tirou o vestido durante 100 dias, conservando sempre o cheiro a lavado. A nossa mente foi programada para enfiar a roupa na máquina ao fim de um único dia de uso – e será uma proeza do marketing conseguir mudar isso.

Mas os estudos mostram que uma grande fatia da água que gastamos em casa (17%) vai para a máquina de lavar roupa. E todo o processo de lavar, secar, engomar e arrumar é cansativo e chato. Por outro lado, as novas gerações não são tão apegadas à ideia de possuir algo (como demonstram várias pesquisas sobre o consumo); os millennials dão mais valor à experiência do que à posse e tendem a ser mais despojados dos que os seus pais e avós. É mesmo preciso estar sempre a mudar de roupa ou levar tantas peças na bagagem?

Não para Mac Bishop, fundador da startup que projetou a marca Wool & Prince, com um conceito diferente: trata-se de roupa para qualquer ocasião, que não precisa de lavagens constantes, consegue manter-se limpa, perfumada e sem que fique amarrotada. O segredo? Lã de merino, usada, na sua maioria, na produção de roupa desportiva, por ser resistente a odores, por regular a temperatura corporal, por secar rapidamente e pelas suas propriedades antibacterianas.

“É preciso perceber, em primeiro lugar, o que suja a roupa. O suor, por si próprio, é limpo. Mas, quando é absorvido pelos tecidos, atrai as bactérias e cheira mal. A chave, portanto, é encontrar materiais que não absorvam o suor”, explicou Bishop à revista Fast Company.

Novos valores

Não foi o único a ter essa ideia. Em 2016, a Unbound Merino nasceu para conseguir chegar a quem não gosta de viajar com muito peso atrelado. Foi pensada por três amigos, enquanto acompanhavam uma banda em digressão pelos Estados Unidos da América, cansados da bagagem que tinham de carregar. Tal como a Wool & Prince, utilizam a lã de merino na produção dos seus hoodies, t-shirts e roupa interior, de forma a garantir que uma mochila é suficiente, nem que seja durante semanas a fio.

Além de contrariarem a indústria de fast fashion, estes exemplos incentivam ao menor consumo de água, mas ainda há um longo caminho a percorrer, uma vez que recorrem a fibras sintéticas que não são recicláveis.

Por outro lado, existem marcas que garantem um resultado 100% natural. É o caso da Pangaia, cujos fatos de treino, camisolas e t-shirts lançados no final do ano passado têm na sua constituição fibras de algas marinhas (que absorvem a humidade mais facilmente do que o algodão) e corantes naturais produzidos através de plantas, frutos e vegetais. E ainda recorre a óleo de hortelã-pimenta para garantir que as peças não ganham odor nem bactérias. Estas técnicas para reduzir as lavagens passam por Portugal, uma vez que a roupa da Pangaia é produzida em fábricas nacionais.

Paulo Vaz, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, vê nestas empresas, ainda que emergentes, o caminho que a moda, de forma geral, irá seguir: “A sustentabilidade, a responsabilidade social e tecnologias menos agressivas para o ambiente são valores que se têm cada vez mais em consideração.” Há uma nova lógica de consumo, essencialmente explorada pelos millennials, cujo interesse em saber a origem dos produtos que consomem tem dado uma maior voz a este tipo de projetos. “Têm vindo a mudar o que se consome e como se consome”, admite.

Apesar de acreditar no êxito deste tipo de negócios, Paulo Vaz garante que as questões monetárias vão continuar a alimentar as produções massificadas – a tal fast fashion que se atira para o lixo ao fim de uma estação.

Catarina Ferreira Gonçalves

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