Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O casal discreto da alta-roda novaiorquina que doou milhões ao movimento antivacinas

Sociedade

Lisa e Bernard Selz eram desconhecidos fora da alta-roda nova-iorquina até serem apontados como grandes financiadores do movimento “obscurantista”. As redes sociais, afinal, não são as maiores culpadas

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Bertrand Rindoff Petroff

Falem bem ou mal, mas falem de mim. É um bom resumo para a frase “there is only one thing in the world worse than being talked about, and that is not being talked about” que Oscar Wilde põe Lord Henry a dizer logo no primeiro capítulo de O Retrato de Dorian Gray. A ideia é a de que não existe má publicidade, uma máxima entretanto usada no marketing que hoje deve arrepiar os milionários norte-americanos Lisa e Bernard Selz.

Uma pesquisa na internet devolve-nos a fotografia do casal que aqui trazemos, mais umas três ou quatro imagens de um Bernard muito sorridente e uma única de Lisa, num evento de beneficência. Discrição podia ser o nome do meio de ambos, mas, desde que o Washington Post revelou ao mundo que doaram mais de três milhões de dólares ao movimento antivacinas, os dois foram obrigados a desligar o telefone do seu apartamento no Upper East Side, um dos bairros mais exclusivos de Nova Iorque.

Por estes dias, já ninguém faz cerimónia com os Selz. O lugar de destaque que ocupam na alta-roda nova-iorquina, graças às suas doações generosas no mundo das artes, da cultura, da educação e do ambiente, de nada lhes vale agora. Todos apontam o dedo na sua direção, envergonhando-os por estarem nos bastidores da campanha de desinformação contra as vacinas. “Pode agradecer a este gestor de fundos de investimento quando o seu filho apanhar sarampo”, titulou, sem piedade, a revista Vanity Fair.

Não é exagero de jornalista. Segundo a investigação do Washington Post, os milhões que Bernard e a sua mulher injetaram nos últimos sete anos no grupo ICAN (Informed Consent Action Net-work) representaram 75% das entradas de dinheiro. Entre outras ações, serviram para financiar um filme de propaganda disfarçado de documentário – Vaxxed, From Cover-Up to Catastrophe (do encobrimento à catástrofe) – e um corrupio de palestras sobre o direito parental na decisão de vacinar e a alegada relação entre a vacina contra o sarampo e o autismo.

A campanha tem dado frutos. Só este ano, em Brooklyn e em Rockland, surgiram mais de mil casos desta doença que pode levar à morte. Desta vez, o epicentro registou-se na comunidade judaica ultraortodoxa, os Haredi, por uma razão simples: o ICAN teve o beneplácito de alguns rabis influentes na região de Nova Iorque. De nada serviu o rabi Moshe David Tendler, especialista em ética médica e ex-presidente da Associação dos Cientistas Judeus Ortodoxos, ter condenado os seus congéneres antivacinas, em 2014. “Esta é uma área na qual a medicina teve um progresso tremendo em benefício da Humanidade”, lembrou na altura. “Acredito que [estes rabis] não estão a falar como rabis, mas apenas como leigos desinformados.”

Propaganda e religião

Escreva-se que vários outros conhecidos poskim (decisores da Halachá, a lei judaica) estabeleceram que não há nada na lei a sugerir que as vacinas devam ser evitadas. Pelo contrário: segundo eles, não só é prudente os pais vacinarem os filhos como, ao fazê-lo, estão a cumprir o mandamento de proteger a sua saúde. Mas a desinformação hoje é tanta que os Haredi do estado de Nova Iorque acreditam que as suas crianças receberam, em tempos, vacinas “com defeito”.

O medo é mau conselheiro, já se sabe. E cresce se um suposto médico britânico aparecer numa palestra, via Skype, a afirmar que as atuais vacinas contra o sarampo causam doenças mortais resistentes a medicamentos. A intervenção aconteceu no final de maio, nem há dois meses, e aterrorizou as centenas de pais que se concentravam numa sala de baile em Monsey, Rockland, num encontro promovido pelo ICAN.

Poucos saberiam que Andrew Wakefield foi impedido de exercer medicina precisamente por causa de um paper sobre os alegados perigos da vacina contra o sarampo (ver caixa O inominável). Ou esqueceram esse pormenor ao ouvir um conhecido ex-animador de televisão, Del Matthew Bigtree, fundador e diretor executivo do ICAN, dizer coisas como: “[As pessoas] devem poder ter sarampo se quiserem” e “É uma loucura esta intensidade à volta de uma doença de infância trivial”.

Wakefield e Del Bigtree, que agora apresenta um programa de televisão dedicado a notícias médicas, The HighWire, raramente estão sozinhos. Acontece com frequência dirigentes de outras organizações com a mesma agenda aparecerem ao seu lado. É o caso do advogado Robert F. Kennedy Jr., sobrinho de J. F. Kennedy, que preside o Children’s Health Defense, e de Barbara Loe Fisher, fundadora do National Vaccine Information Center, cujo filho mais velho sofreu uma convulsão após a última toma da tríplice contra sarampo, parotidite (papeira) e rubéola, que lhe terá provocado défice de atenção.

Podemos dizer que os três grupos têm nomes que induzem em erro – parecem organizações oficiais –, mas Wakefield, Del Bigtree, Robert F. Kennedy Jr. e Loe Fisher nunca esconderam aquilo que defendem. O mesmo não é possível afirmar sobre os Selz. Embora Lisa presida o ICAN, o seu nome não consta no site oficial, e o de Bernard nunca foi sequer sussurrado no meio.

Aliás, pouco se sabe sobre ambos além dos seus currículos profissionais. Lisa Pagliaro Selz tem 68 anos, licenciou-se em Artes e trabalhou no banco Manufacturers Hanover Trust e na empresa de joias Tiffany antes de ajudar a gerir a Fundação Selz. Bernard Thierry Selz é mais velho 11 anos, dedicou-se sempre aos investimentos e gere o fundo Selz Capital, que tem um portefólio avaliado em mais de 500 milhões de dólares.

Judeus, pais de dois filhos, Alexander, de 24 anos, e Andre, de 20, Lisa e Bernard são, como já se percebeu, brancos, instruídos e riquíssimos, três características comuns aos norte-americanos que escolhem não vacinar os filhos. O poder do dinheiro dá-lhes a ilusão de serem invencíveis. Neste caso, os milhões dos Selz permitiram-lhes também influenciar milhares de outros pais.

Assine por um ano a VISÃO, VISÃO Júnior, JL, Exame ou Exame Informática e oferecemos-lhe 6 meses grátis, na versão impressa e/ou digital. Saiba mais aqui.