Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

“Há diferenças de ordem biológica, obviamente, mas sermos diferentes não quer dizer que uns são superiores e outros inferiores"

Sociedade

José Carlos Carvalho

Resumindo, o papel da mulher é demasiadas vezes baseado em preconceitos e mentiras sexistas, considera, em entrevista à VISÃO, Angela Saini, jornalista de ciência do The Guardian e autora de Inferior – como a ciência sempre desvalorizou a mulher

Os homens são mais violentos, gostam de trabalhos manuais e são melhores que as mulheres em matemática. Já elas são mais dóceis, têm mais habilidades sociais e nascem com um instinto materno inquestionável. Eles gostam mais de azul, elas de rosa. Esses são alguns dos lugares-comuns sobre as diferenças entre homens e mulheres – tão repetidos por aí que qualquer inversão de papéis causa estranheza. Mas, e se lhe disserem que tudo não passa de uma construção social e que não, não foi sempre assim?

Então, afinal, os homens não são de Marte e as mulheres de Vénus. Como é que se interessou por esta questão?

Estudei engenharia e por demasiadas vezes me disseram ‘Ah, que engraçado, não há muitas mulheres a trabalhar em ciência e a escrever sobre isso’. Mas tudo se agudizou quando, pouco depois do meu filho nascer, me terem pedido para escrever sobre a menopausa. Não achei que fosse um tópico da ordem do dia, mas foi a partir daí que percebi que há muitas informações sobre tudo o que diz respeito às mulheres que parte de ideias feitas, lugares-comuns...

E o que sabemos sobre como é que isto começou, quando é que o homem passou a achar que era um ser superior e a mulher inferior?

É difícil saber em que ponto as coisas se tornaram assim tão desiguais para as mulheres, até porque os homens não foram, tal como hoje não o são, os líderes em todas as sociedades. Há muito que sabemos que aquilo de os homens irem caçar para arranjar comida e as mulheres ficarem na caverna a tomar conta da prole é uma versão inventada da história, e que a História é sempre relatada pela perspetiva dos vencedores, o que não quer dizer que seja exatamente assim. Aliás, segundo a antropologia, as sociedades ditas primitivas eram muito mais igualitárias do que esta em que vivemos hoje. Sabemos que o controlo, físico e das instituições, ajudou a cimentar esta diferenciação e, em algumas comunidades, ainda o facto de a mulher ter-se tornado propriedade do homem.

Essa diferenciação sobre o que é próprio do homem e da mulher é, então, uma construção social?

Aceito que há diferenças de ordem biológica, obviamente, mas sermos diferentes não quer dizer que uns são superiores e outros inferiores.

Que peso teve Charles Darwin e a forma como, a partir da Teoria da Evolução, esta separação se consolidou?

Certamente que, em muitos aspetos, a sua teoria foi revolucionária, sobretudo ao determinar que há apenas uma espécie humana, toda com a mesma origem. Mas apesar de, em geral, Darwin ter sido um cientista preocupado com o detalhe e a precisão, não conseguiu deixar para trás a ideia de que as mulheres não servem para todas as coisas, como os homens, o que é surpreendente da sua parte, e deixou-se também levar pelos lugares-comuns instituídos à época. E isso leva-me a outra questão: se Darwin, que era um cientista atento ao pormenor, caiu nestes preconceitos (de que a mulher não serve para as mesmas coisas do que o homem e afins) imagine-se então outros que nem questionam essas ideias pré-concebidas?

É possível que os homens tenham relevado as mulheres para lugares menos capazes para que elas se dediquem a tomar conta deles e dos seus, por exemplo?

Há quem julgue efetivamente que há uma separação natural do tipo de trabalho de cada um e que sempre foi assim, mas isso também não é verdade. Se deixarmos de olhar especificamente para o nosso umbigo, e para a forma como vivemos, vemos que há muitas sociedades em que, em nome da sobrevivência, todos têm de trabalhar e todos têm de tomar conta dos mais novos e dos mais velhos. A verdade é que todas as variantes são possíveis, o que quer dizer que nenhum é biologicamente mais capaz de umas coisas do que o outro.

Mas essas sociedades são muitas vezes apresentadas como ‘exóticas’?

Só porque não vivemos assim ou não representam a vida ocidental. Mas para quem lá está não têm nada de exótico.

Quer dizer que é só o nosso ponto de vista, o que não quer dizer que seja a verdade?

Sim, é só a forma que prevaleceu no Ocidente. Se olharmos para a natureza, não há animais de uma espécie a viver em oposição a outros da mesma espécie. O que quer dizer que nós, humanos, podemos viver da forma que quisermos. Não há uns melhores ou mais capazes do que outros para determinadas tarefas, a não ser as que estabelecermos assim.

Em alguns círculos, prevalece até a noção de que as mulheres são uma distração para os homens, como por exemplo em escolas só de rapazes, onde se acredita que as raparigas não são fadadas para aquilo.

Lá está, a escola e a educação são também fruto de uma construção social. Não consigo explicar porque as pessoas fazem o que fazem. Mas sei que, em comum a todas estas ideias feitas, está o conceito de poder. E se algum grupo ganha mais poder, num determinado momento, em regra, o que se observa é que fará tudo para o manter. Apresentará até uma versão da natureza que lhes sirva os seus interesses.

No seu livro, descreve ainda alguns casos de mutilação genital feminina (MGF) e as suas justificações, mas sabemos que quem conduz esse processo nessas sociedades que ainda recorrem a essa prática são as mulheres mais velhas. Como se explica isto?

É isso que a cultura faz, é assim que a cultura funciona. Cria sistemas de poder que ajudam à sua manutenção. Foi assim, por exemplo, que surgiu o casamento, que é uma forma de controlar a descendência, e veja-se a forma como celebramos a instituição do casamento nos dias de hoje. O propósito final da MGF é manter a rapariga virgem para o casamento e para ser fiel ao seu marido. Portanto, é mais uma prática criada para servir o homem. Mas compreendo perfeitamente as mães dessa cultura que levam as filhas para as sujeitar à prática. Porque se sentem entre a espada e a parede, sem opção. Serão sempre apontadas a dedo: por uns, se o fizerem, por outros, os seus, caso não o façam. E aí resta-lhes pouco mais do que fugir. Se por alguma razão perpetramos crimes como esse é porque também somos vítimas dele e do sistema que o impõe. É importante ter isto sempre em mente.

É também isso que explica que ainda há homens, mas também mulheres, a defenderem que as raparigas não devem andar sozinhas à noite e outras considerações do género?

Penso que se deve ensinar as jovens a terem cuidado consigo, o que não quer dizer que deixemos de responsabilizar os homens pelos seus atos e que não podem transpor certas barreiras – e que um não é sempre um não. Não é mais ou meno,s nem talvez. Como é que não conseguem controlar-se? Há até leis a condenar atos desses. Mas lá está: trata-se tudo de uma narrativa, e de como ao longo dos tempos se institui a forma como uns e outros se deveriam comportar. Espero que, um dia, as ruas se tornem livres para as mulheres e que elas possam fazer o que lhes apetece – embora saiba que para já ainda não é assim.

Há então mais prémios Nobel homens do que mulheres por uma questão de política?

Não podemos esquecer-nos que só muito recentemente as mulheres passaram a ser aceites na universidade. Só depois de 1945 é que algumas sociedades científicas passaram a contar com presenças do sexo feminino. No ano em que Marie Curie ganhou o segundo prémio Nobel foi-lhe negada essa pretensão. Pensemos no quão extraordinário seria então preciso ser, embora não haja muita gente com dois Nobel no currículo. Este livro saiu há dois anos em Inglaterra e mesmo agora, sempre que vou a conferências, aparecem-me sempre mulheres a confessar que há discriminação nos laboratórios onde trabalho, que há piadas sexistas o tempo todo, que os homens têm sempre mais oportunidades do que elas. É por isso que, em relação a estes temas, é preciso ver mais do que o número de prémios Nobel, é preciso olhar o contexto.

É um otimista. Será a ciência a fazer esta mudança?

Não, acho que será a sociedade a provocar a mudança. Um dia as mulheres vão-se se fartar de todas estas injustiças e vão deixar de o aceitar. É incrível como muitas das ideias preconcebidas encontraram uma rede de expansão como a internet e tornaram-se uma epidemia – seja os que acreditam que a terra é plana, que não há alterações climáticas ou que as vacinas fazem mal às crianças. Mas um dia isto vai mudar. Tem de ser.