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E quando os turistas que estão a provocar o processo de gentrificação de uma cidade somos nós?  

Sociedade

Horacio Villalobos/Getty Images

Eis algumas ideias para viajantes que querem reduzir o seu impacto nas cidades que visitam

Os números não enganam: não só o turismo cresceu muito nos últimos anos, como está a fazê-lo a um ritmo que excede todas as previsões. Em 2018, por exemplo, já se tinha atingido o valor de turistas em todo o mundo previsto para 2020 (qualquer coisa como 1,4 mil milhões de pessoas.) Os portugueses não fogem a este processo: dados divulgados pelo INE confirmam que no ano passado fomos mais vezes para fora. No total de 2018, as viagens para o estrangeiro aumentaram 13,3 por cento.

Sabemos que este crescimento está a ter sérias consequências para as cidades, que perdem cada vez mais os seus residentes, além da descaracterização do centro. Na Europa, a polémica está lançada em várias urbes, de Berlim a Barcelona, passando obviamente por Lisboa e pelo Porto. E embora boa parte da solução esteja nas mãos das autarquias, quem viaja também pode fazer escolhas mais cuidadas.

Dormir fora do centro

Quem visita uma cidade tem aquela tendência a procurar alojamento no centro histórico, para ter a maioria das atrações sempre à mão. Só que, na maioria dos casos, para o receber, a pressão turística desses bairros já desalojou moradores. Além de que o aluguer é sempre mais caro. “Temos mesmo de refletir sobre esta questão quando viajamos. Se queremos parar de contribuir para a gentrificação, então devemos ficar em zonas menos lotadas”, defende, em declarações ao El País, Jonathan Reyes, arquiteto e co-fundador da Fairbnb, uma plataforma que vai começar a operar numa série cidades europeias - Roma, Bolonha, Veneza, Nápoles, Amsterdão, Vilnius, Valência, Barcelona e Madrid - já em agosto e defende o turismo responsável. Oferece acomodação sustentável e destina 50 % do valor para projetos comunitários da área em que se encontram.

Confirmar que o alojamento é legal

A razão é muito simples: só assim saberemos que atendem aos requisitos e que pagam os impostos. São da responsabilidade dos municípios, que também procuram assim ter algum controlo sobre o número de alojamentos turísticos já existentes, evitando que as áreas já saturadas continuem a crescer.

Ter em conta as condições dos funcionários do setor

A razão, adianta a Organização Internacional do Turismo, que já se multiplicou em campanhas internacionais, é simples: nem sempre os hotéis e os resorts turísticos têm políticas de emprego transparentes e positivas. Se não puder essas informações, tenha em mente que nos meses de férias, sobretudo durante o verão, a carga de trabalho dos funcionários do setor é drasticamente aumentada, mas as empresas nem sempre reforçam os serviços. Em outros casos, a atividade é entregue a terceiros, funcionários esses que muitas vezes cobram apenas por quarto. Ou seja, ao colocar o sinal de ‘não incomodar’ eles não podem limpá-lo e depois, lá está!, não recebem.

Em Roma, sê romano

Para contrariar um bocadinho todo este processo de alteração à economia local – cujo maior efeito é, desde logo, o encerramento de algumas lojas mais antigas ou a sua modificação para atender à procura do turista, menosprezando o morador local, conforme atesta o relatório Global Tourism and Gentrification, publicado em 2018 – a recomendação é simples: comportar-se como um residente, deslocando-se como eles fazem e comprando no comércio local.

Respeite a privacidade dos moradores

Por mais bonitos que sejam os bairros e os recantos da cidade que vamos visitar, é simpático lembrar-se que, nesses mesmos lugares, há pessoas que não gostam de ver as suas vidas interrompidas pelo movimento dos turistas. Esses moradores, como os da colorida rua parisiense de Crémiaux, até criaram uma conta no Instagram, o Club Crémiaux, para denunciar a pressão dos turistas que vêm tirar fotos. Como já deve ter adivinhado, não é a única vítima do cerco dos turistas.

Pense se a viagem é (mesmo) necessária e como a fazer

Sim, verão é sinónimo de férias, mas estas não têm de implicar uma viagem. Ou então se decidimos fazê-lo podemos sempre procurar um meio de transporte o mais amigo do ambiente possível. Por exemplo, é sempre possível reduzir a pegada ecológica se, em vez de viajar de avião, o fizer de comboio. As emissões de CO2 baixam drasticamente e é por isso já a opção assumida de Greta Thurnberg, a tal adolescente sueca que anda a falar de combate às alterações climáticas aos líderes do planeta.