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As alergias podem estar relacionadas com a depressão e a ansiedade

Sociedade

Kontrec/Getty Images

De acordo com várias investigações, as alergias podem provocar distúrbios mentais - e os distúrbios mentais podem provocar alergias

E se as alergias e os estados depressivos estivessem intimamente relacionados? É o que parece indicar um estudo publicado a 28 de maio na revista científica International Archives of Allergy and Immunology: as alergias sazonais, em particular ao pólen, ocorrem mais frequentemente em pessoas que sofrem de ansiedade. Por outro lado, pacientes com depressão são mais propensos a ter alergias crónicas. A relação entre as alergias e o suicídio, aliás, já tinha sido feita num estudo anterior.

Outra pesquisa alemã, publicada em abril deste ano, investigou a relação entre fatores psicológicos (depressão, ansiedade e stress) e o desenvolvimento de doenças alérgicas em adultos. Neste estudo foi feita a separação entre alergias sazonais e constantes, que podem aparecer em qualquer altura. Quando se tratavam de alergias sazonais, o estudo concluiu que existia uma associação com a ansiedade. Já com as alergias crónicas, embora não tenha sido encontrada qualquer ligação com a ansiedade, a análise revelou que havia uma relação com a depressão.

No entanto, os investigadores reconhecem que a amostra desta observação não é representativa de todas as faixas etárias: “Sendo a média [das pessoas analisadas] de 61 anos, os jovens estão bastante subrepresentados”, refere Katharina Harter, uma das autoras do estudo. A investigação, no entanto, tem mais falhas. “Os resultados são baseados em relatórios pessoais, em vez de diagnósticos oficiais de alergia. Mas temos amostras de sangue de todos os participantes e pretendemos verificar cientificamente este ponto.”

Já uma outra investigação, de 2017, relacionou as alergias alimentares com a ansiedade e depressão infantil. Concluiu-se que crianças com este tipo de alergia apresentavam uma probabilidade significativamente maior de terem ansiedade durante a infância. O mesmo não se verificou com a depressão.

Estes resultados vão no mesmo sentido dos de um estudo de 2016, no qual foi descoberto que crianças com rinite e sibilância alérgica persistente até aos 4 anos têm um maior risco de sofrer transtornos emocionais ou comportamentais aos 7 anos. Ou seja, estas duas alergias específicas aumentam o risco de as crianças desenvolverem doenças como a depressão e a ansiedade.

Segundo a revista The Atlantic, foi descoberto em 2013 que as alergias estavam associadas ao aumento da prevalência de ansiedade e outros transtornos mentais, em adultos. E que quem tivesse curado as suas alergias tinha menos probabilidades de ter esses distúrbios do que as pessoas que não tivessem sido tratadas.

As explicações para estas aparentes ligações entre alergias e doenças mentais ainda não são completamente compreendidas. Mas levanta-se a hipótese de que as alergias, ao desencadearem a libertação de uma hormona – cortisol – responsável pelo controlo de stress, podem interferir com uma substância química que atua no cérebro – serotonina – e que tem a função de regular o humor. Maya Nanda, conta à The Atlantic que não se sabe exatamente como ocorre este processo. Mas está certa de que, quando algo de errado se passa com a serotonina, em teoria a depressão e a ansiedade podem instalar-se.

As alergias causam ainda substâncias químicas inflamatórias, como as citocinas, que podem entrar no sangue, e não só afetar o sistema nervoso central como também o funcionamento no cérebro. Parece então haver mais uma razão para acreditar que as alergias podem condicionar as nossas capacidades mentais.

Mas há ainda um efeito psicológico, acrescenta Maya Nanda: se estivermos convencidos de que algo nos vai causar uma reação alérgica, é natural que sintamos "uma certa ansiedade". E esse efeito piscológico pode ser tão poderoso que causa sintomas de alergia mesmo quando não há razões químicas para tal. De acordo com o The New York Times, em 1940 um médico expôs um doente a uma planta a que o paciente era alérgico, o que lhe desencadeou uma série de espirros; o que o médico não lhe disse de início foi que a planta era artificial; assim que o paciente soube, a reação alérgica diminuiu.

Apesar de não ser certo, há mais estudos e teorias que defendem que são as alergias que causam os distúrbios do que o contrário.

O relatório Health at a Glance 2018 indica que, em Portugal, quase uma em cada cinco pessoas sofre de problemas de depressão, ansiedade ou outros distúrbios mentais. Segundo um inquérito realizado pelo Instituto Nacional de Saúde, em 2014, cerca de 1,7 milhões de portugueses sofria de alergias.