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Médico ao serviço do governo dos EUA: as crianças imigrantes são tratadas "como eu gostaria que os meus próprios filhos fossem tratados"

Sociedade

SERGIO FLORES/ Getty Images

Um alto funcionário do governo americano afirmou estar "orgulhoso" dos cuidados prestados às crianças migrantes sob custódia das autoridades fronteiriças. "Eu sou médico e pai", e "trato de todos aqueles sob os nossos cuidados como eu gostaria que os meus próprios filhos fossem tratados", afirma

Desde setembro, morreram já seis crianças imigrantes sob custódia das autoridades de controlo da fronteira americana, ou imediatamente depois de serem libertadas.

Segundo um pediatra no hospital de El Paso, onde são cuidadas várias crianças migrantes, o exame médico realizado pelas autoridades americanas é "absoluta e inequivocamente inadequado". O pediatra conta que muitas crianças chegam à fronteira já doentes, mas não são diagnosticas e acabam por piorar. "Precisamos de chegar a estes miúdos mais cedo", defende.

Também Clara Long, da Organização Human Rights Watch, explica que 249 crianças foram deslocadas, depois de as instituições de defesa de direitos humanos denunciarem as condições em que eram mantidas, num dos postos na fronteira com o México. "As crianças estavam constipadas e doentes e disseram que não tinham acesso a sabão para lavar as mãos. Era um produto de limpeza à base de álcool. Algumas crianças que estiveram detidas por duas ou três semanas tiveram apenas uma ou duas oportunidades para tomar banho", explica.

Um alto funcionário do governo tem, no entanto, uma versão diferente e considera que "o atendimento médico tem sido bom, até agora". "Estou orgulhoso do que fizemos".

"Eu sou médico e sou pai", prossegue. "Estou muito confortável na minha própria pele e só faria a um deles [crianças imigrantes] o que gostaria que fosse feito aos meus próprios filhos", conta o funcionário, que preferiu permanecer no anonimato por não ser o porta-voz oficial.

Contudo, o alto funcionário do governo e profissional de saúde, afirma que o órgão de controlo fronteiriço “está a pegar nas coisas em que precisa de pegar”. Segundo o mesmo, é realizado um questionário de saúde para cada migrante. As perguntas incluem como se sentem, se estão a tomar medicação e se têm sintomas de doenças transmissíveis, como gripe, papeira ou sarampo. Além disso, todas as crianças com menos de 17 anos têm de passar por uma avaliação médica, que inclui um exame físico, mas que “está a levar algum tempo”.

Colleen Kraft, ex-presidente da Academia Americana de Pediatria, afirma estar "dececionada" com as autoridades, por não terem aceite a oferta do seu grupo de enviar pediatras que treinassem a equipa médica das autoridades fronteiriças. "Temos pediatras que se voluntariam para ir para a fronteira amanhã e trabalhar com essas crianças, aconselhar e treinar o pessoal médico". Sara Goza, atual presidente do grupo de pediatras, foi visitar duas instalações, na semana passada, e conta que "não encontrou um único pediatra em nenhuma delas".

O governo americano respondeu que o órgão de controlo de fronteiras tem um pediatra em part-time, que trabalha para o Departamento de Segurança Interna e aconselha as autoridades. Segundo fontes oficiais, existem mais de 140 equipas médicas na fronteira, das quais 40 incluem, pelo menos, um médico. Mas, não se sabe quantos desses são pediatras.

De outubro de 2018 a maio deste ano, mais de 230 mil crianças foram presas na fronteira com o México.