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A Antártica perdeu tanto gelo nos últimos quatro anos como nos 34 anos anteriores, diz estudo

Sociedade

Barcroft/Getty Images

Estudo de uma cientista da NASA revela que a extensão de gelo em torno da Antártida sofreu uma queda tão acentuada nos últimos quatro anos, como nos 34 anos anteriores. Os investigadores contam que o fenómeno já ultrapassou o ritmo de descongelamento do Ártico, mas as razões ainda não são conhecidas

A Antártica sofreu uma diminuição "precipitada" na quantidade de gelo marinho, afirma Claire Parkinson, cientista do Centro de Voos Espaciais Goddard, da NASA, num estudo publicado na semana passada. Segundo a cientista, a região perdeu mais gelo nos últimos quatro anos, do que nos 34 anos anteriores, ultrapassando assim o ritmo do degelo no Ártico.

As duas regiões glaciares são bastante diferentes. Enquanto o Ártico é um oceano rodeado por continentes, exposto ao aquecimento atmosférico, a Antártida é um continente gelado rodeado por oceanos e protegido do aquecimento do ar por um círculo de ventos fortes. Por esse motivo, os cientistas ainda não conseguiram explicar como é que o declínio de gelo é mais acentuado na Antártica do que no Ártico.

Ao contrário do degelo dos lençóis de gelo em terra, a perda de gelo no mar, não eleva o nível médio das águas. Contudo, a diminuição da quantidade de gelo, significa que o calor será absorvido pelo oceano, contribuindo para o aquecimento global. O gelo marinho tem um enorme impacto no sistema climático global, porque se espalha por uma área bastante vasta do planeta. A perda na quantidade de gelo foi anteriormente associada a fenómenos como as ondas de calor na Europa, ou outras circunstâncias de climas extremos em zonas de altitude baixa.

Até 2014, o gelo marinho antártico estava a aumentar lentamente, atingindo, nesse ano, um recorde. Desde então, a extensão de gelo começou a diminuir tão rapidamente que ainda em 2017 a Antártica bateu um novo recorde — desta vez a quantidade mais baixa de gelo marinho, alguma vez registada.

No estudo, Claire Parkinson afirma que houve um “declínio precipitado” e uma “redução dramática” de gelo antártico. “Não sabemos se o declínio vai continuar”, “mas isto levanta questões como: quais as razões [para a redução] e será que vamos ver uma enorme aceleração do degelo também no Ártico? Só o registo contínuo nos poderá responder”. "O Ártico tornou-se um cartaz do aquecimento global", "mas todos nós cientistas estávamos à espera que o aquecimento global afetasse, eventualmente, também a Antártica", acrescenta.

Kaitlin Naughten, uma especialista no estudo do gelo marinho, a trabalhar no British Antarctic Survey, explica que graças aos "ventos que cercam o continente", o gelo marinho da Antártica não "responde diretamente ao aquecimento global do planeta". Mas, é afetado indiretamente, através do efeito das alterações climáticas nos ventos, no buraco na camada de ozono, e pelo gelo que derrete dos glaciares da Antártica.

"Até 2014, o efeito total de todos esses fatores, foi a expansão do gelo marinho antártico. Mas em 2014, algo mudou, e o gelo marinho diminuiu drasticamente desde então. Agora os cientistas estão a tentar descobrir exatamente porque é que isso aconteceu", diz.

Também Andrew Shepherd, professor da Universidade de Leeds, no Reino Unido, considera este um novo "desafio porque pode significar mais aquecimento", e alerta para a importância de "descobrir se a espessura do gelo [também] mudou".