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Vêm aí os óculos inteligentes que seguem os olhos e focam a visão automaticamente

Sociedade

Getty Images

Está a ser desenhado um novo tipo de "smart glasses” que pode vir a substituir as lentes progressivas. Através de uma lente “autofocal”, os óculos triangulam a posição do olho e, de acordo com o que a pessoa está a ver, calculam a distância dos objetos e focam automaticamente

Pedro Dias

Pedro Dias

Jornalista

A presbiopia, ou “vista cansada” como se chama vulgarmente, é quase uma garantia para todas as pessoas com mais de 40 anos. Trata-se de um problema oftalmológico causado pela perda de elasticidade do cristalino dos olhos, que causa dificuldades em ver ao perto. Para algumas pessoas, uns óculos de leitura normais são suficientes para corrigir o problema. Para outras, apenas as lentes progressivas ou a cirurgia o conseguem fazer.

“Mais de 100 mil milhões de pessoas sofrem de presbiopia, o que nos levou a criar um par de lentes autofocais que poderão vir, um dia, a corrigir a visão de forma muito mais eficaz que uns óculos normais”, diz Gordon Wetzstein, engenheiro eletrotécnico da Universidade de Stanford e criador do protótipo, à Neuroscience News.

Os “óculos autofocais” – como foram batizados perlo seu criador – foram criados com a intenção de resolver o principal problema que as pessoas sentem ao usar lentes progressivas: o ter de inclinar a cabeça numa direção especifica para conseguirem ver nitidamente. Para além de não ser confortável, pode chegar a ser perigoso em determinadas situações, como a conduzir – o condutor não tem qualquer visão periférica e tem de tirar os olhos da estrada para poder olhar em seu redor, ao mesmo tempo que tem de adaptar a posição da cabeça para conseguir ver bem.

E este fenómeno, segundo Robert Konrad, coautor de um documento que descreve os óculos autofocais publicado na revista científica Science Advances, aumenta o risco dos utilizadores de lentes progressivas de “caírem e de se magoarem a si próprios”.

O protótipo da universidade funciona de forma semelhante ao cristalino do olho, com lentes que adaptam a sua própria espessura ao campo de visão do utilizador. Para perceber para onde a pessoa está a olhar, os óculos incorporam sensores que seguem o olho e triangulam a sua posição, determinando a distância a que os objetos se encontram do individuo. Tanto as lentes como os sensores usados não foram inventados pela equipa de engenheiros, mas sim o software que faz com que tudo funcione e com que a visão esteja permanentemente focada.

Para testar os óculos, a equipa de universitários pediu a 56 pessoas com presbiopia que os usassem para desempenhar tarefas do quotidiano. A grande maioria preferiu o desempenho das lentes autofocais ao das lentes progressivas que já utilizavam, afirmando que conseguiam desempenhar as tarefas mais rapidamente.

O projeto foi buscar inspiração à realidade virtual, em que Wetzstein trabalhava. Foi através desta área que os investigadores entraram em contacto com as tecnologias de lentes autofocais e de sensores de movimento para os olhos, que combinaram para criar o protótipo dos novos óculos. Existem ensaios anteriores que também tentaram tratar a presbiopia com lentes autofocais. Mas, sem a orientação do software e dos sensores de movimento, não obtiveram o sucesso desejado.

O próximo passo, segundo a equipa, é o de diminuir o tamanho dos óculos e torná-los mais usáveis. A tecnologia existente nos dias de hoje não é ainda pequena o suficiente para criar óculos autofocais ergonómicos, leves e energeticamente eficientes. No entanto, e mesmo que demore anos a consegui-lo, Wetzstein está convencido que os óculos autofocais vão ser o futuro da correção de problemas visuais.

“Esta tecnologia poderá afetar a vida de milhares de milhões de pessoas de uma forma que a maior parte dos gadgets tecnológicos nunca vai conseguir”, conclui o engenheiro.