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O clima de celebração dos agentes americanos do controlo da imigração: "Boa caça!", "Aqui vamos nós!!!!!!"

Sociedade

Spencer Platt/ Getty Images

Emails trocados entre agentes do Departamento de Imigração e Controlo Aduaneiro dos EUA revelam um clima de celebração, linguagem inapropriada e a determinação de cotas de detenção antes das rusgas

Documentos oficias do Departamento de Imigração e Controlo Aduaneiro dos EUA (ICE) divulgados pelas organizações Mijente e Detention Watch Network, revelam a linguagem inapropriada utilizada pelos agentes para a determinação dos alvos daquela que seria "a maior operação, na história do ICE, visando todos os estrangeiros que estão presentes nos Estados Unidos a violar a [lei]".

A operação planeada para setembro de 2017 acabou por ser cancelada, devido a uma fuga de informação. Contudo, o documento tornado público, inclui os registos de email trocados entre membros do ICE, e revela o clima comemorativo, e em tom de brincadeira, no qual os agentes se preparavam para as detenções.

"Boa caça e identificação de alvos!", enviou um dos agentes por email. Um diretor das operações, escreveu: "Eu proponho que a chamemos [à operação] Operação Super Épica Mega sónica", uma proposta bem recebida pelos restantes agentes, que responderam dizendo: "Vai ser ÉPICO!".

Por várias vezes, os agentes mostraram-se bastante entusiasmados com as detenções: "Aqui vamos nós!!!!!!", disse um. "Obrigado, rapazes estão a divertir-se", escreveu outro. "Tivemos mais apreensões hoje do que em qualquer outro dia durante esta operação. Trabalho fantástico!", partilhou um agente de Austin. Também num email de planeamento, um agente perguntou a outro se ele gostaria de fazer parte de uma "equipa de detenção", ao que ele respondeu: "VOCÊ SABE DISSO!!!!!!!!!"

"Eles têm um problema em todo o departamento... Eles dizem frequentemente coisas desumanas e ofensivas que são destinadas a desumanizar", considera Jacinta Gonzalez, da organização Mijente.

Ainda esta semana tinha sido revelado um grupo no Facebook onde funcionários do controlo de fronteiras divulgaram conteúdos racistas, misóginos e violentos relativamente a imigrantes e membros democratas do Congresso.

Numa publicação nesse grupo, um dos elementos partilhou a notícia de que uma imigrante de 16 anos morreu sob a custódia das autoridades fronteiriças do Texas. Os restantes agentes responderam com gifs, e num deles pode ler-se "se morrer, morre".

Outra publicação sugere que a fotografia dos corpos de Óscar Martínez e Angie Valeria, que morreram afogados em Rio Grande, quando tentava atravessar a fronteira entre o México e a América, seja uma montagem feita por Democratas. "Vocês alguma vez viram floaters assim tão limpos?", pergunta. O termo "floater" é tradicionalmente utilizado para se referirem a dejetos libertados para o rio, mas adquiriu uma conotação racista por ser frequentemente utilizado como referência aos emigrantes mexicanos que tentam atravessar a fronteira pelo rio.

Segundo o documento, as rusgas planeadas para setembro de 2017 tinham 8.400 "alvos". Mas alguns agentes lançaram uma campanha apelando a que "todos os estrangeiros passíveis de remoção" fossem "considerados para detenção" e asseguram que "todas as garantias estão em cima da mesa".

Outros emails parecem definir cotas de detenção. Um deles diz que na cidade de Salt Lake era "obrigatório ter 240 alvos", acrescentando, "Boise pode fornecer 50 alvos, ficam a restar 190 alvos adicionais necessários". Em Austin, um supervisor das detenções e deportações disse que a lista de alvos deveria incluir "30 no total", mas que como poderia ser difícil encontrar muitos alvos "para preencher o número", "os agentes podem expandir a área geográfica".

A lista de alvos das rusgas foi feita através de diversas fontes - incluindo empresas privadas que reúnem informações pessoais como os números das matrículas.

Jacinta Gonzalez, considera "a forma como as listas estão a ser criadas realmente aterradora". Segundo a mesma, estes "documentos mostram o quanto as rusgas são politicamente motivadas", e que "o ênfase está nos números e não na segurança".

Matthew Bourke, porta-voz do Ice, disse que a agência não tem "cotas de detenção" e que as operações não são "baseadas na competição ou num limite específico". Segundo o mesmo, o orgão "não tolera o uso de linguagem ofensiva ou politicamente motivada em referência às operações de fiscalização", e "qualquer funcionário que tenha agido de forma a retratar negativamente a agência ... ou envergonhe a agência ... será responsabilizado e poderá estar sujeito a medidas disciplinares".