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Cercadas pela violência: os testemunhos das mulheres de Guerrero, no México

Sociedade

Juan Carlo Tomasi

Conheça as histórias das mulheres de Sierra Madre, uma comunidade rural mexicana isolada devido a combates entre grupos armados

Duarte Laranjo

No sudoeste do México, o estado de Guerrero deve o seu nome ao segundo presidente da História do México, Vicente Guerrero. Foi uma figura de destaque na Guerra da Independência. Dois séculos mais tarde, o estado de Guerrero é o terceiro mais violento do país, tendo assistido a quase 2 500 homicídios em 2018. As histórias que está prestes a conhecer são de mulheres sobreviventes, que vivem em pequenas aldeias perdidas em Sierra Madre, rodeadas de violência, pobreza e constante ameaça.

“As nossas raízes estão aqui e não queremos deixar a nossa terra. Nós temos esperança e sabemos trabalhar o campo, nós amamos o campo. É por isso que queremos lutar pela paz” confessa Carmen, uma das habitantes de Sierra Madre. Os testemunhos foram recolhidos pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), que visita regularmente as comunidades afetadas pela violência no estado de Guerrero. Através de clínicas móveis, a MSF presta cuidados médicos e auxílio psicológico, especialmente após a ocorrência de incidentes violentos.

Apesar do esforço dos MSF em curar as feridas destas comunidades, o verdadeiro problema está nas condições de vida destas populações e no sentimento de constante ameaça. Isto porque grupos armados circulam frequentemente por estas montanhas, competindo entre si pelo domínio do tráfico de droga, causando danos sociais e humanos e provocando às comunidades longos períodos sem eletricidade e sem acesso a estradas e a cuidados médicos.

Gabriela tem pouco mais de 20 anos e dois filhos para criar: “Eu estava no carro com o meu marido, os seus primos e umas das esposas. Estávamos a descer a montanha (…) quando um grupo de homens armados numa carrinha nos forçou a parar. Fizeram o meu marido e os primos sair do carro e levaram-nos”. O marido foi, dias mais tarde, encontrado morto e enterrado com os restantes. Gabriela teve sempre esperança que o marido ia sobreviver. Conhecia casos de outros homens raptados que eram posteriormente forçados a trabalhar no campo.

Agora, com duas crianças para criar, sente um misto de emoções entre fugir e continuar a viver em Sierra Madre: “Eu quero sair daqui, fugir deste lugar onde há muita violência. Já pensei em criar um negócio, e até pensei em tornar-me missionária, mas tenho filhos pequenos. Todas as minhas memórias estão aqui: da minha infância, da minha família, do meu marido”.

Nos anos 20, vários mexicanos abandonaram o estado de Michoacán, para fugir à Guerra Cristera. Grande parte dessas pessoas viriam a refugirar-se nas montanhas de Sierra Madre, onde encontrariam terreno fértil para cultivar milho, abóboras, batatas e muito mais. Os terrenos agrícolas tornaram-se, com o passar dos anos, em plantações de cannabis e papoilas (utilizadas para produzir ópio). “Primeiro trouxe riqueza, depois violência”, afirma Don Gabino, uma das pessoas mais velhas de uma comunidade de Sierra Madre.

Elvira recorda um dos dias em que a vila foi atacada: “Quando um grupo de homens armados atacou a cidade, ficámos em casa, não saímos. Sobrevivemos com o que tínhamos, com a comida que tínhamos cultivado. Muitas pessoas fugiram com medo ou porque estavam envolvidas nos conflitos”. Atualmente, considera que os episódios vividos e a ansiedade da possibilidade de um novo ataque é especialmente preocupante para as crianças. Além disso, acompanha sempre o marido para o trabalho no campo: “Sinto que ao ir com ele estou a protege-lo de alguma forma”.

Segundo a MSF, estas comunidades ficaram seis meses sem eletricidade e sem acesso a estradas e a cuidados médicos. Nos períodos em que os conflitos acalmam, os habitantes beneficiam de alguma tranquilidade, ainda que a vida esteja longe de ser nornal. “Sentimo-nos desolados, incapazes de trabalhar em paz por causa do medo. (...) Tínhamos um infantário, uma escola primária e uma escola secundária. Agora não há nada”, descreve Ana, de sessenta anos. Questiona-se sobre como irá ser futuro da sua comunidade e até quando durará esta situação: “Até que um dos grupos rivais perca, talvez.”

O trabalho dos MSF tem sido fundamental na recuperação destas comunidades. “Estamos a tentar recuperar a normalidade. Graças aos painéis solares, temos agora eletricidade suficiente para aceder à internet, algumas lojas reabriram e estamos a começar a sair de casa” conta Melania.