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Carl Honoré: "Temos de cultivar o prazer de viver o momento. Não podemos acelerar o amor e a amizade"

Sociedade

José Carlos Carvalho

"Retiramos mais gozo quando damos atenção às coisas que merecem. Beber um copo de vinho com um amigo, apreciar o pôr do Sol", diz o guru do movimento slow. "Tudo isso requer tempo e presença"

José Carlos Carvalho

Há 17 anos, deixou as correrias. Mesmo agora, que veio a Portugal falar sobre isso, fê-lo sem pressas. Abrandar é a sua religião, a que ele prega através das três “bíblias” que já escreveu, das conferências e das palestras que faz. O movimento slow imprime vagar a todos os momentos da nossa existência – da cama às empresas. Carl Honoré, 51 anos, canadiano, nascido na Escócia, passa os dias a ensinar a pôr o pé no travão da vida, sem medos nem vergonhas.

Abrandar é ainda um tabu?
Sim, em todo o mundo. Pensa-se que é sinónimo de preguiça e de baixa produtividade, e as pessoas que o fazem só podem ser aborrecidas e umas falhadas. Eis uma das principais razões por que se torna tão difícil abrandar.

É assim tão difícil fazê-lo?
Mesmo quando alguém sente como poderá ser bom, e a sua mente lhe diz para diminuir a intensidade – nem que seja um bocadinho, para se tornar mais produtivo, criativo, saudável e feliz –, não o faz. Sente-se envergonhado, culpado, com medo...


No entanto, defende que toda a gente deveria abrandar.

Abrandar é uma virtude. Este movimento slow terá um papel fundamental no século XXI, porque nós não somos máquinas de Inteligência Artificial. Esta ideia de que tudo tem de ser rápido – desde o que se passa nos nossos quartos à maneira como comemos – é absurda e tóxica.

O que recomenda às pessoas que querem abrandar?
Há uma lista enorme de passos, mas costumo sintetizá-la em três pontos: faça menos, procure momentos em que está offline e incorpore algum ritual de pausa no seu dia – podem ser 10 minutos a ler poesia, a meditar ou a fazer uma caminhada.

Foi jornalista durante dez anos. De repente, começou a escrever sobre esta temática. O que se passou consigo? Há sempre alguma coisa que acontece, certo?
Sim, há sempre um sinal de alerta. Tive sorte porque no meu caso não foi uma doença, como acontece com a maioria das pessoas. Mas dei por mim a ler histórias ao meu filho, na hora de deitar, de uma forma frenética – a minha versão da Branca de Neve tinha apenas três anões. Apesar de ter consciência de que o fazia, não conseguia parar; só mesmo quando me vi à procura de um livro com as histórias infantis contadas em 60 segundos. Então, percebi que era um disparate, que estava a acelerar os momentos importantes da minha vida.

O primeiro passo foi deixar de ser jornalista, em 2002?
Tudo se conjugou como uma epifania. Nessa época, estava a trabalhar para um jornal canadiano e escrevi um artigo sobre este movimento, percebendo logo que havia muito para explorar. Ao mesmo tempo, o jornal passou por uma crise financeira e eu recebi uma oferta para vir embora.

O que fez a seguir?
Comecei a trabalhar no livro [O Movimento Slow, Estrela Polar] e contactei três agentes literários, falando-lhes do tema. Todos me deram uma resposta negativa, argumentando que ninguém queria ler acerca disso. Cheguei a pensar que teriam razão, que eu perdera o juízo.

Estavam erradíssimos, afinal.
Sim, tendo em conta que se tornou um bestseller e que está traduzido em 35 línguas...

O êxito aconteceu, apesar de o movimento slow ter nascido nos anos 1980.
O slow food começou nessa época. A minha teoria é a de que fazer as coisas na velocidade certa – da medicina ao sexo – só traz benefícios.

A Ciência está consigo?
Está estudado o que a rapidez e a sobre-estimulação fazem aos nossos corpos e, em particular, ao nosso cérebro. Isso é ainda mais evidente nas relações interpessoais – por exemplo, não posso ouvi-la mais depressa. Os seres humanos não são podcasts.

Por acaso, Carl é um podcast!
[Risos.] Mas neste momento não estou nesse modo.

Quais são, então, os reais benefícios de abrandar?
Em todas as idades, é fundamental para a saúde. E depois há o prazer. Retiramos muito mais gozo quando nos centramos e damos atenção às coisas que merecem – em vez de uma bebida energética, prefiro beber um copo de vinho com um amigo, apreciar o pôr do Sol ou ter uma boa conversa. Trata-se de cultivar o prazer de viver o momento. O outro grande benefício está nas relações humanas. Elas têm o seu ritmo natural, não podemos acelerar o amor ou a amizade, não se pode descarregar o espírito de equipa. Tudo isso requer tempo e presença. Quem desacelera também aumenta a sua produtividade: comete menos erros no trabalho, é mais criativo, consegue ver melhor a realidade, ganha perspetiva. Movendo-nos da reação para a reflexão, temos tempo para pensar sobre as questões importantes – qual o significado da minha vida, quem sou eu, o que realmente me é importante? Se todos abrandássemos, isso seria ainda ótimo para o ambiente.

Para o ambiente?
O turbocapitalismo está a destruir a Terra, queimando recursos, enviando gases nocivos para a atmosfera. Veja quantas espécies desapareceram ultimamente. Criámos um padrão que serve apenas os nossos interesses económicos, quando devia ser ao contrário. A economia é que devia servir-nos, criando formas de sermos mais felizes, em conexão com a comunidade e a família, sonhando grandes sonhos e fazendo coisas enormes. É preciso não esquecer que só temos um planeta e já não resta muito dele...

Abrandar significa voltar para trás, para um ponto em que não havia tanta pressa e em que estas coisas de que falamos aconteciam naturalmente?
É algo insano que existam workshops para ensinar a fazer amor mais lentamente. No entanto, não gosto de falar em voltar ao passado, por causa do tabu. É mais andar para a frente, casando as coisas boas que existiam no passado com as que temos hoje. E assim nasce um mundo onde queremos viver e que desejamos deixar para os nossos filhos.

Como as pessoas que trabalham com prazos podem dar a volta a isso?
O problema não são os prazos, mas o facto de estarmos presos a eles. Se acabar este artigo, cumprindo o seu deadline, e se for para casa e jantar como se também tivesse um deadline, então já não faz sentido. Não podemos deixar que isso se torne a nossa forma de ser e de viver.

Tem algum conselho prático para se lidar bem com os prazos?
No passado, se tivesse três horas para o meu deadline, trabalharia esse tempo sem qualquer pausa. Hoje, pararia dez minutos, daria uma volta ao quarteirão, teria o meu momento calmo. Sei, por experiência, que quando se regressa desse intervalo, se vem com mais força para vencer o prazo. O cérebro não pode estar três horas consecutivas a trabalhar da mesma forma.

Quais são os piores inimigos que temos de vencer para abrandar?
O maior inimigo somos nós. Na maioria das vezes, essa pressão vem cá de dentro. Estamos “marinados” na cultura da rapidez, temos medo e vergonha de abrandar, porque isso nos põe em confronto connosco. A cultura de turboconsumo também não ajuda, pois transformou o mundo num enorme buffet, em que achamos que devemos ter mais e mais.

É suposto pararmos para nos questionarmos a toda a hora?
Não é preciso rapar a cabeça e desatar a fazer ioga. Às vezes, bastam cinco minutos para pensar para onde estamos a ir, nas relações com as pessoas que são importantes para nós. Isto pode acontecer ao almoço, em vez de ir espreitar o email ou a série da Netflix.

Como faz para viver de bem com a realidade digital?
Adoro a expressão “modo de voo” e uso-a muitas vezes. Existe um ponto intermédio entre esse estado e o “sempre on”, que é o desligar das notificações. Desta forma, não somos interrompidos com a chegada de um email, pois só o lemos quando estivermos prontos para o fazer. De repente, estamos no comando da situação. Mas temos de abrandar em conjunto, porque estamos muito conectados, e não dá para o fazer sem explicar às pessoas que são importantes para nós a razão pela qual optamos por não estar contactáveis, durante algum tempo.

Com adolescentes, imagino que isso se torne mais difícil...
Quando vou falar a escolas, encontro muitos jovens a mudarem a sua relação com o telemóvel. Já há muitos jantares em que eles os põem em cima da mesa e o primeiro que lhes pegar paga a conta. É uma forma de dizer: vamos estar uns com os outros. Conheci um grupo de amigas que se desligavam quando chegavam a casa e até à hora de jantar, para estarem mais concentradas nos estudos. Há quartos que não têm internet, famílias que se desligam, em conjunto, durante duas horas...

O seu segundo livro [Under Pressure] foi sobre abrandar na paternidade. Porque decidiu escrevê-lo?
Embora tivesse abrandado, dei por mim a ser ainda muito competitivo com a vida escolar dos meus filhos. Pensei que teria de mudar e dediquei--me, então, a estudar este tipo de parentalidade. Vou imenso a escolas e tenho visto tantas mudanças positivas, especialmente nas privadas...

Em Portugal, em muitas escolas, e ainda mais nas privadas, há uma grande preocupação com os rankings...
Isso é um problema em todo o mundo, mas já se sabe que não é assim que a educação deve funcionar. Os alunos podem continuar a ser competitivos, mesmo quando lhes dão tempo para pensar, meditar, falhar ou, simplesmente, não fazer nada.

Os pais não preferem o sistema centrado nas notas?
Não. Penso que eles sentem aquilo pelo que os seus filhos estão a passar e percebem que não é muito divertido, mas continuam presos no sistema. E, às vezes, o problema nem é a maioria – se, numa turma, dois pais quiserem que os filhos tenham mais trabalhos de casa, todos os meninos vão ter mais trabalhos de casa... Tudo isto me preocupa, veja-se o número de crianças com problemas de concentração, que tomam medicação para a atenção.

O seu último livro [Bolder] é sobre o envelhecimento. Não é um pouco cedo para se preocupar com isso?
Estamos todos a envelhecer com uma ideia tóxica acerca do processo. Somos levados a pensar que, a partir dos 40 anos, tudo é mau – ficamos menos enérgicos, menos atraentes, menos criativos, menos felizes...

E não devemos ficar?
Na verdade, a maioria das coisas fica na mesma e algumas até melhoram.

Quais é que melhoram?
Veja-se a curva da felicidade: as pessoas são mais felizes na infância; depois isso vai por ali abaixo e só volta a subir a partir dos 50. O grupo de pessoas que tira maior satisfação da vida é o que está acima dos 55 anos, e isto também é verdade em Portugal. Mas há mais. A produtividade e a criatividade aumentam, sentimo-nos mais confiantes. Só que a cultura dominante continua a impor-nos a ideia de que envelhecer é terrível.

Como chegou a essas conclusões?
Não faço afirmações esperando que elas sejam verdade. Tudo o que escrevo no livro está espaldado em estudos e os factos estão verificados, pois ainda me sinto jornalista. Antes de publicar o livro, não sabia nada disto. Aliás, foi por isso mesmo que decidi escrevê-lo – até porque olhava à minha volta e as pessoas mais velhas não me pareciam um desastre. Pareciam estar bastante bem.

Sente-se melhor com a sua idade?
Muito melhor. E até me sinto envergonhado pela forma negativa como pensava nisso antes.

O que podemos fazer para viver uma vida mais longa e melhor?
Tudo o que nos incutem – que não podemos ter rugas ou cabelos brancos ou que não devemos revelar a nossa idade – influencia o nosso processo de envelhecimento. Ter uma alimentação saudável, não fumar, beber com moderação, manter boas relações interpessoais (as redes sociais não contam), aprender coisas novas, tratar de estar física e mentalmente ativo. E, claro, as pessoas que olham para a velhice como uma fase negra da vida, envelhecem pior.

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