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Como dar a volta ao caos anunciado nas urgências durante o verão 

Sociedade

Marcos Borga

As férias estão aí, e com elas vem a falta de médicos nos serviços. Traçamos-lhe um retrato da situação no País e dizemos-lhe como contornar as dificuldades, em caso de urgência

O diagnóstico é o do costume: perante a quantidade de especialistas em falta nos hospitais durante o verão, as urgências – sobretudo as de obstetrícia – ameaçam complicar-se. Diretores clínicos e dos serviços mais afetados estão em polvorosa, com o bastonário a assinalar que não é só uma questão premente durante as férias grandes. Mas outros responsáveis do setor não partilham desta visão negra.

Perante os deputados, a ministra da Saúde, Marta Temido, sublinhou que não morde “a maçã do caos no Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, nem aconselha a que alguém o faça porque “é seguramente uma maçã envenenada". Já Mário Centeno fez questão de ripostar, na TVI, que o SNS está melhor do que em 2015, com mais dinheiro e menos cativações – e até mais médicos, algo que o Relatório do Ministério da Saúde e do Serviço Nacional de Saúde de 2017 confirma, embora não em relação ao pessoal técnico.

O discurso é mais ou menos o habitual, sempre que se anuncia maior procura das urgências hospitalares – no inverno, durante a época da gripe; no verão, no apoio às grávidas. E faltam camas, como denunciou recentemente a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

Se recuarmos até ao verão passado, este cenário de caos anunciado nas urgências de obstetrícia, em Lisboa, já se tinha manifestado. Segundo as contas então apresentadas pela Ordem dos Médicos, o défice de pessoal era exatamente o mesmo de agora e os chefes de serviço também ameaçavam demitir-se.

Tudo acalmou com o fim das férias. Mas, durante a época natalícia, a falta de anestesistas na Maternidade Alfredo da Costa obrigou mesmo ao encerramento do serviço de urgência a 24 e 25 de dezembro.

Agora, confirmada a opção pela rotatividade das urgências nos quatro hospitais que servem a grande Lisboa – Alfredo da Costa, São Francisco Xavier, Santa Maria e Amadora-Sintra –, o efeito contágio estendeu-se logo à zona norte do País, onde mais uma dezena de diretores de serviço vieram a público argumentar que também não estão a conseguir cumprir escalas de urgências – e anunciou-se a contratação de mais obstetras, como comunicou a Administração Regional de Saúde da região, e mais uma série de especialistas nas zonas mais carenciadas.

Quanto ao Centro Hospitalar do Algarve, região com muito mais pessoas nos meses que se seguem e que constuma ter falhas no atendimento aos doentes, o Ministério da Saúde também já anunciou que procura médicos para a região, com a administração regional de saúde a garantir alojamento aos clínicos que se candidatem, de acordo com as disponibilidades locais.

Será, segundo reafirmou o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, ao final da manhã depois de reunir com os principais diretores clínicos e de serviço de Ginecologia/Obstetrícia e de Neonatologia de toda a zona Sul do país, uma situação estrutural e não apenas de conjuntura. "É muito mais grave e complexo do que tem sido falado: quase todas as maternidades dependem da contratação externa para poderem assegurar os turnos de serviço de urgência e o apoio ao bloco de partos, etc", disse, no fim do encontro que tinha como objetivo elaborar uma proposta alternativa à rotatividade e apresentá-la à Administração Regional da Saúde de Lisboa. Para os especialistas, reunidos esta manhã, a rotatividade não é solução porque as maternidades já estão em sobrecarga e com falta de elementos nas equipas.

Perante tudo isto, o melhor remédio - a curto prazo e na ótica do utilizador, claro - parece estar na palma da mão. Ou como disse a ministra no meio da época da gripe, no início do ano: “Telefonar para a Saúde 24 é a melhor alternativa às urgências.”

Agora, já se sabe que a responsabilidade de encaminhar as grávidas para os serviços de saúde recai sobre o INEM e o seu Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), em permanente contacto com as unidades hospitalares, para saber de antecedência quais as valências disponíveis em cada uma e onde é que há limitações.

"Os procedimentos são semelhantes perante qualquer situação de urgência/emergência, incluindo-se naturalmente aquelas ocorrências que justifiquem o recurso a uma urgência de obstetrícia", assume o INEM à VISÃO, insistindo também que "nas situações não urgentes que envolvam grávidas, o contacto preferencial deve ser o do SNS 24".

Assim, antes de fazer seja o que for ligue - 112 ou 808 24 24 24 - e espere.

Já quem for pelo próprio pé arrisca-se a ficar na porta ou a ter de dar mais voltas – embora possa sempre socorrer-se da app MySNS Tempos, que lhe diz qual o tempo de espera nas instituições hospitalares do Serviço Nacional de Saúde.

As contas finais de 2018 também ajudam a explicar um pouco disto tudo: parece que, afinal, 40% dos casos atendidos nas urgências durante todo o ano não eram verdadeiramente urgentes – a pulseira que uma boa parte dos pacientes recebeu era... verde.

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