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Relato de uma viagem-peregrinação pela Índia Budista – à procura do Buda que há em nós

Sociedade

Dos lugares por onde andou Siddhartha Gautama aos mosteiros perdidos nos confins do vale Spiti, nos Himalaias, relato de uma viagem-peregrinação levada a cabo por um grupo de portugueses na Índia budista. E, por entre mantras, sessões de meditação e experiências-limite, um teste sobre a impermanência, uma das maiores lições do budismo: para quê sofrer, se tudo acaba por passar?

No Mosteiro de Tergar, em Bodh Gaya, só há rapazes, alguns parecem não ter mais de 4 anos. Aprendem filosofia, lógica, retórica e, claro, budismo. Acordam ao nascer do Sol e, a caminho da primeira meditação da manhã, uns mais irrequietos do que outros, giram os moinhos de vento à volta do templo. Fazem-no de acordo com os princípios do budismo, “para bem de todos os seres”, isto é, homens, mulheres, crianças, plantas e animais. Em tibetano, explicam-me, “tergar” significa tesouro, sendo que a palavra também diz respeito àqueles que se reúnem à volta do tesouro. Pergunta retórica, já que a resposta vem logo de seguida: “E qual é o nosso tesouro mais profundo? A nossa natureza Buda.”

Perdidos ou achados na nossa natureza, estamos em peregrinação pelos lugares budistas que há na Índia, país de mil e uma cores, cheiros e espiritualidades, tudo em modo superlativo, das coisas boas às coisas más, já se sabe. À procura do Buda que há em nós ou, para abreviar usando a linguagem da filosofia ocidental, da nossa consciência moral. Não se trata, haviam-me avisado à partida Igor e Diana Chiu (o casal da agência organizadora, a Macro Viagens), de uma viagem turística. Antes de uma “experiência transformadora”, adequada aos que forem capazes de se adaptar às circunstâncias. Uma espécie de prova de vida, portanto. Vamos a ela. Ao todo, de Lisboa, do Porto e arredores, são 17 portugueses, jornalista da VISÃO incluída, mais ou menos dispostos a aceitar o que vamos encontrar. Paulo Borges, professor de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e budista confesso, orienta o curso de meditação, que acontecerá no decorrer do percurso. Entre os participantes, há quem tenha vindo por causa da meditação e quem nem sequer saiba muito bem em que é que isso consiste. Também há quem tenha vindo sobretudo pela descoberta da Índia. “Meditar é acostumar-se”, diz, em Tergar, o professor português. “Se não vemos para além do espírito turístico, regressamos na mesma.”

Viemos à Índia para meditar, mas é sem grandes contemplações que tudo acontece. Acostumemo-nos. Aterrámos à bruta em Bodh Gaya, uma das cidades do estado de Bihar, o mais pobre do país. Ao pé do Mahabodhi, onde, segundo a tradição budista, Siddhartha Gautama atingiu o nirvana, veem-se famílias indianas deitadas no passeio e parece-me pouco provável que à noite saiam dali para algum abrigo. Mais perto do templo, há crianças a pedir, vendedores de quinquilharias, contadores de histórias da carochinha. Em resumo, gente a fazer pela vida, tudo pacífico. Já não é tanto assim na cave de Mahakala, outro dos lugares de peregrinação budista, uns dez quilómetros a norte de Bodh Gaya: uns quantos rapazes, numas motorizadas infernais, fazem o cerco aos (poucos) peregrinos que ali vão parar. Também pode ser, como nos aconteceu junto à Grande Estátua de Buda, no Templo de Daijokyo, que acabemos a tirar uma fotografia com uma família indiana. E com muito gosto, só sorrisos de ambos os lados, foi um prazer.

“This is India”: o cheiro da morte

Embora haja momentos de meditação, tudo decorre em modo apressado, pouco zen, digamos, para usar uma expressão de um dos ramos do budismo muito conhecida no Ocidente. Nessa noite, regressamos ao Mosteiro de Tergar para jantar com os rapazes. Comemos arroz e vegetais cozinhados e servidos nuns grandes panelões, bastante mais picantes do que a média da chamada comida indiana da Europa. Antes da refeição, ouvimos os cânticos das crianças e, no final, como elas, lavamos o prato e a colher com água. O serão é passado na rua, está demasiado calor para nos enfiarmos já nos quartos. Os miúdos empoleiram-se na janela da lojeca do mosteiro, para ver na televisão qualquer coisa aparentada com uma novela. Parêntesis: além de vender pacotes de Cheetos e afins, a dita lojeca também tem rolos de papel higiénico e só quem já esteve na Índia é que sabe o quanto é que esta informação lhe pode ser útil.

Na hospedaria do mosteiro, as condições são modestas, há uns quartos melhores, outros piores, todos mais ou menos sofríveis. O meu cheira a mofo quanto baste. Adiante. Por cima da cama, estendo um lenço que trouxe para as ocasiões. As casas de banho não estão limpas e, do chuveiro que me calhou em sorte, não cai nem uma pinga. No grupo, há quem improvise, limpe sanitas com dodots e com desinfetante para as mãos. A noite não chega a arrefecer e, nos quartos, não se consegue dormir sem a ventoinha ligada. Valem-me os tampões para os ouvidos que, em boa hora, uma colega e amiga da VISÃO me recomendou. Dormir ao relento, mesmo devidamente besuntado com repelente para os mosquitos, não é muito avisado.

Já que é em peregrinação interior que estamos, alguns dos participantes dizem ao que vêm. Começo por explicar que estou em trabalho, como repórter e, por isso, em circunstâncias um pouco diferentes das dos outros (só mais tarde percebi que esta minha justificação foi entendida, por alguns companheiros de viagem, como uma certa sobranceria). A esmagadora maioria são mulheres. Raquel é advogada, católica praticante e de uma sinceridade com a qual é difícil não simpatizar: “Não me interesso pelo budismo e acho que, quando regressar, vou continuar a não me interessar.” Veio com uma amiga, Tânia, que começou recentemente a praticar ioga. Carla é fisioterapeuta e, segundo conta, passa os dias a ouvir lamentações dos idosos com quem trabalha. Patrícia é a mais determinada: “Vim cá para ver o Dalai Lama.” No caso de Leonor, farmacêutica, foi a mãe (leitora do blogue de Diana Chiu, I Love Bio) que lhe sugeriu esta viagem: “Andava com a pancada de Israel, mas não arranjei ninguém para ir comigo.” Sara trouxe o namorado, Carlos, é professora e segue os princípios da macrobiótica. Ana é educadora de infância, católica praticante e, de todos, a que está mais familiarizada com a meditação – organiza retiros no Norte de Portugal: “Podia ter vindo à Índia a dormir em hotéis de cinco estrelas. Escolhi vir desta maneira, para fazer uma viagem interior.”

No dia seguinte, o destino é Varanasi, no estado do Uttar Pradesh, a cidade sagrada, a 250 quilómetros de Bodh Gaya. A chegada à estação de comboios faz-se novamente sem contemplações. Há um cheiro intenso em toda a gare, não há como escrevê-lo com metáforas: junto ao pilar onde deixamos as malas, uma mulher está a morrer, agachada, parte de trás do cérebro desfeita pelos bichos. À vista de todos, ninguém lhe presta grande atenção, “this is India” é o mantra que se repete para tentar justificar o injustificável, a desumanidade. Chega o nosso comboio, há que encontrar a carruagem, há que prosseguir. Viajamos na segunda classe, a sleepers, onde, reza a lenda dos caminhos de ferro indianos, em compartimentos de seis, se enfiam 12 bem apertadinhos (confere). Pela janela, a vista dos quilómetros e quilómetros de arrozais é idílica. Entre os portugueses, ninguém se esquecerá da mulher moribunda da estação de Bodh Gaya.

Lavar o corpo e o espírito no Ganges

Varanasi é Varanasi, tudo aquilo que lemos e de que ouvimos falar. A cidade sagrada, banhada pelo Ganges, onde muitos querem ir morrer. Espiritualidades à parte, também é a cidade onde não se esquece que a Índia (1 300 milhões de habitantes) é o país do mundo com mais pessoas a defecar a céu aberto. Narendra Modi, o primeiro-ministro que vai a votos nas eleições gerais que estão agora a decorrer e que está nos cartazes espalhados pelas ruas, quer dar dinheiro às famílias que construam uma casa de banho em casa. Num jornal local, escrito em inglês, também leio sobre as intenções da autarquia em construir saneamento básico na cidade velha e a verdade é que se veem enormes tubagens à espera das obras.

O Sol nasce às seis da manhã e, aos ghats, as escadarias que vão dar ao Ganges e que ainda na semana passada estavam cobertas até metade pelas águas sujas do rio, vão chegando cada vez mais pessoas. Novos, velhos, mulheres, crianças. Lavam a roupa, o corpo e, crê-se, o espírito. Diz Johnny, o nosso guia em Varanasi, que “o Ganges é a mãe”. E que isso explica porque muitos querem vir morrer aqui: vêm doentes e, depois, quando morrem, o próprio Governo trata de avisar as famílias. Enquanto fala, Johnny tem nas mãos um copinho de plástico com água do rio. Vai bebendo como se fosse café (é castanha, parece café com leite, de facto) e tem graça ao rir-se de si próprio: “É por isto que os mosquitos não me picam. O meu sangue está envenenado.” Entre os portugueses, todos deitam ao rio uma taça com flores e uma vela acesa, há quem queira molhar os pés e até quem queira levar um pouco de água para casa.

Do leito do Ganges, vê-se um dos crematórios, embora não seja o principal de Varanasi. À tarde, havemos de ir ao da cidade velha, onde só são queimados os mortos cujas famílias podem pagar cinco mil rupias (cerca de 60 euros). Conta Johnny que, na Índia, existem cinco casos de pessoas que não são cremadas e que, por serem consideradas mais puras, são atadas a pedras e atiradas ao rio: grávidas, leprosos, homens santos, indivíduos mordidos por serpentes e crianças até aos 12 anos. Nas ruelas à volta do crematório, tudo decorre como se nada fosse: a morte faz mesmo parte da vida. Há quem espere que o tempo passe, templos de Shiva porta sim, porta não, vendedores de lenha, vacas a comer no lixo amontoado. Junto ao crematório, a temperatura sobe desmesuradamente, a quantidade de fumo também. Escada acima, escada abaixo, a confusão é grande, this is India novamente e, entre indianos e ocidentais em turismo, passa um corpo carregado em ombros.

Por esta altura da viagem, a ideia é que se digam mantras antes das refeições principais (sempre vegetarianas). Paulo Borges explica que não se trata de uma imposição, apenas de uma maneira de “entrar mais fundo num espaço interior onde está o silêncio”, além de potenciar “as capacidades nutritivas dos alimentos”. Com mais ou menos convicção, a proposta é aceite por todos os participantes. Não muito longe de Varanasi, fica Sarnath, onde Buda se juntou pela primeira vez com os seus cinco discípulos. Sentados na relva do Parque das Gazelas, prosseguimos com as sessões de meditação. “Todos temos uma natureza profunda, livre de condicionamentos. Mas só damos por ela de vez em quando. Quanto mais fizermos pelo bem de todos os seres, mais rápido é o despertar”, diz Paulo Borges, numa lição interessante. Discorre sobre o que, segundo o budismo, origina o sofrimento: sofrimento acrescentado ao sofrimento (1º tipo), impermanência (2º tipo) e o facto de sermos um eu (3º tipo). Fixemo-nos na impermanência que, de ora em diante, nos acompanhará.

A 4100 metros de altitude, o Mosteiro de Key, no Spiti, é uma das comunidades tibetanas do vale de paisagem lunar onde, durante o inverno, as estradas estão interditas

A 4100 metros de altitude, o Mosteiro de Key, no Spiti, é uma das comunidades tibetanas do vale de paisagem lunar onde, durante o inverno, as estradas estão interditas

Getty images

Meditar em altitude

Primeira impermanência: Patrícia, a viajante que tinha vindo por causa do Dalai Lama, pede que lhe reservem um voo para Lisboa, desistindo de seguir viagem. Não se sente bem, prefere regressar. Os restantes membros do grupo continuam, agora em direção a Shimla que, não fora os macacos a passear pelas ruas, poderia parecer uma estância de neve europeia. A dois mil metros de altitude, a cidade tem temperaturas mais brandas e, por isso, nos tempos do Império Britânico, era muito frequentada pelos ingleses. Seguimos para o vale Spiti, “o nosso deserto”, como lhe chama Jitender Thakur, que a partir de agora, e até ao fim, será o nosso abençoado guia.

O caminho é sinuoso, tomara que houvesse adjetivo melhor para descrever o que é andar nas estradas da Índia. Como dizem os camiões locais, brilhantemente coloridos com letras e paisagens, all India permit. Ansiedade controlada, a verdade é que – entre telefonemas infindáveis enquanto se conduz, ultrapassagens em cima de curvas sem qualquer visibilidade, serpenteados para contornar vacas e macacos – tudo funciona. Entramos nos Himalaias rodeados de verde, um esplendor para quem gosta de montanhas, e, à medida que avançamos, a paisagem vai ficando cada vez mais lunar. Em Kalpa, enche-se o depósito de combustível porque, nos próximos dias, não há estações de serviço para ninguém. Também se trata da autorização para prosseguir. Entre os portugueses, há quem tenha andado a ver vídeos sobre os caminhos que nos esperam no vale Spiti e, pelo que ouço, deduzo que sejam para lá de estreitos. Nas estradas, onde eu diria que não cabe mais do que um carro e meio, veem-se várias obras. Muitas mulheres (inclusive com filhos às costas), nepaleses e indianos do estado de Bihar que para aqui vêm trabalhar de sol a sol a troco de poucos rupias. Jiji explica que o Governo indiano quer trazer o Exército, para fazer face aos ímpetos expansionistas da vizinha China.

Segunda impermanência: nos próximos dias, estaremos completamente desligados, sem qualquer hipótese de telefonar ou de nos ligarmos à internet. Nas aldeias comunitárias do vale Spiti, dizem-me, não vivem mais de 200 pessoas, o que mesmo assim me parece muito para o que vejo. As casas, com telhado de colmo, não têm grande aquecimento e, nos meses mais frios, de outubro a março, calcula-se que aqui se atinjam os 20 ou 25 graus negativos. Nas rochas que circundam a aldeia de Tabo, como que a proteger os seus habitantes, está inscrito o mantra mais importante para os budistas: Om mani padme hum. No mosteiro, originário do ano 996, só há monges durante seis meses. Passada essa temporada, fica apenas o lama, o líder espiritual responsável pelo templo, indo os monges para outras paragens.

Era suposto termos seguido viagem, em direção a Dharamsala, visitando de caminho o McLeod Ganj, o templo onde vive o Dalai Lama. Terceira impermanência: há dez anos que não chovia no vale Spiti, o mau tempo destruiu algumas vias e, sobretudo para os lados de Manali, há muita neve na estrada. A tempestade troca-nos as voltas e, como o budismo manda adaptarmo-nos às circunstâncias, aguardaremos mais uma noite em Kaza à espera da bonança, partiremos na manhã seguinte (ver texto Refugiada nos Himalaias). A 4 100 metros de altitude, o lama de Key parece muito feliz por nos receber, oferece-nos um chá com ervas (e muito açúcar!) e, no templo do mosteiro, para quem queira, há sessão de meditação fazendo uso de um mala, um rosário budista (têm sempre 108 bolas e devem ser giradas da esquerda para a direita). Mais tarde, não muito longe, em Kuanj, num convento de monjas budistas, Tashi Chhoezom, 24 anos, está visivelmente nervosa por falar para estrangeiros. Nesta região, numa família tibetana, pelo menos um dos irmãos tem de ser monge e, ao contrário do que acontece no Sul, são poucos os que, aqui, abandonam a vida monástica. Vamos tentar, diz Tashi num inglês claríssimo, aprofundar o conceito de impermanência: “Se soubermos que tudo é impermanente, vamos ser mais bondosos e amáveis e, por isso, os nossos amigos vão aumentar.” Por outro lado, acrescenta Tashi, que está há dois anos no mosteiro, “se tivermos um hóspede mal-educado, não vale a pena preocuparmo-nos muito, ele irá embora, mais dia, menos dia”. E eis como este “mais dia, menos dia” da simpática Tashi nos parece a síntese perfeita de como os budistas veem o samsara, “a roda da vida”. Tudo vai girar, tudo vai passar.

Refugiada nos Himalaias

Diário dos quatro dias e três noites em que, por causa de uma tempestade seguida de derrocada, estive retida em Mane Yogma, uma aldeia do vale Spiti, a 3 618 metros de altitude

Dia 1

5h30: Saímos cedo de Kaza. A tempestade de neve e chuva deve ter feito estragos. Jiji desconhece o estado da estrada até Tabo e tem medo. Já no caminho, no banco da frente, o nosso guia vigia as pedras que rolam lá do alto. De vez em quando, sai do carro para tirar algumas do asfalto. Seguimos calados e sossegados quanto baste. A viagem deveria durar uma hora e meia.

6h30: Primeiro problema: um troço cheio de lama, completamente alagado. Atravessamos a pé e aguardamos pelos carros mais adiante, junto a uma ponte. Todos conseguem passar e seguimos viagem. Continua a chover. Pouco tempo depois, segundo – e enormíssimo – problema: 100 metros cheios de calhaus, não se vê o alcatrão. Com o coração na boca, mas passamos. “It’s OK”, grita o motorista. Tudo corre bem até um dos carros ficar encalhado.

8h: Veem-se – e sobretudo ouvem-se – muitas pedras a cair. Os próximos três, quatro quilómetros são muito arriscados, esperamos que a chuva acalme. No meio do azar, temos sorte: uma reentrância na estrada permite estacionar os carros, protegendo-os um pouco das derrocadas. Também existe um pequeno abrigo, seis ou sete metros quadrados, não mais. Fico no carro e tento dormitar. Aviso do guia: “Não se molhem, vão ter frio.”

11h30: Continuamos bloqueados. No meu carro, está tudo calmo. Poupamos na comida que temos connosco: amêndoas, tostas e bolachas. No autocarro que também está aqui parado, sabe-se lá desde quando, há um galo. De vez em quando, ouvimo-lo cantar, que coisa mais surrealista. O dono deve ter-se posto a caminho, para um porto mais seguro, e o bicho ficou para trás.

15h: Mentalizo-me de que vou passar a noite aqui. Tenho uma lanterna, mas o saco-cama está na mala que se encontra no tejadilho. Faz frio. Devem faltar pouco mais de duas horas para começar a anoitecer.

16h: A organização da viagem pede que nos reunamos no abrigo. Propõe que atravessemos o rio para chegarmos à aldeia mais próxima. Calculo que sejam uns 500 metros, a pique e a três mil e tal metros de altitude. Temos de ser rápidos. Com a mochila e a roupa que tenho vestida, sigo no primeiro grupo. As tábuas da ponte estão meio soltas e, sim, metem medo. Tento não pensar muito nisso, agarro-me ao arame. Atravesso do lado oposto à pessoa que vai à minha frente, a Helena, parece-me a melhor estratégia. Subir a montanha é duro, a esta altitude o ritmo cardíaco é bastante acelerado, mas consegue-se. Um dos motoristas trata de nos apressar, sobretudo nas zonas onde há deslizamentos. De vez em quando, ouço pedras a rolar. Começa a nevar. Quando chegamos lá acima, abrigamo-nos junto a um cedro meio queimado. Estamos todos bem. Faltam os outros grupos.

17h30: Por entre campos de cultivo alagados, tentando não enterrar ainda mais os pés na lama, dirigimo-nos para uma das casas da aldeia de Mane Yogma. Deixamos os sapatos à porta. Dizem-me que os quartos estão ocupados pela família que seguia no autocarro que também está lá em baixo. Do choque ou do alívio, há quem chore. Ana Maria, uma das três pessoas do grupo com mais de 70 anos, foi carregada em ombros.

18h50: À medida que os restantes grupos vão chegando, aconchegamo-nos à volta da salamandra, na sala. Estamos livres de perigo e, por isso, bem. Tentamos secar a roupa molhada. Numa divisão que não deve ter mais de 25 metros quadrados, conto 24 pessoas. Paulo Borges sugere que se medite (“o melhor que temos a fazer é estar em mantra constantemente”) e Ana canta o mantra budista “om mani padme hum”. É noite cerrada quando nos dividimos por outras três casas. Não há eletricidade na aldeia.

19h30: Na casa onde estou, somos seis. A sala é semelhante à da outra casa: um louceiro numa das paredes e, à volta da salamandra, uma mesa baixinha e um colchão onde nos sentamos de pernas cruzadas. Uma criança dorme coberta por um tapete. A nossa anfitriã é sorridente, faz chapati (pão) e serve-nos chai (chá). Conversamos, jantamos vegetais e momos (deliciosos).

21h: Ficamos todos no mesmo “quarto”, a sala do primeiro andar. Estamos quentes e confortáveis: dormimos no chão, em colchões fininhos, com boas mantas. Na cabeça, tenho o som das pedras a rolar, mas, apesar disso, consigo adormecer.


Dia 2

6h50: Estamos todos acordados e, na aldeia, há neve. Continua a chover. Tivemos sorte com a casa em que ficámos: está limpa e a família é atenciosa. Sini, a menina de 13 anos que é irmã do rapaz de 7 anos que ontem dormia no chão da sala, entende inglês e consegue articular algumas frases. Vivem com a avó e a mãe. O rapaz mais velho, que já ontem vimos lá em baixo, é servente. É ele quem lava a loiça depois das refeições.

8h30: Temos de nos mexer. Maria oferece-se para orientar uma aula de ioga. Fazemos a saudação ao Sol – e não é que ele aparece mesmo? Arranjo-me – que é como quem diz, das calças pretas que tenho vestidas, sacudo os pelos das mantas que me cobriram durante a noite. Em frente ao quarto onde dormi, há uma casa de banho seca (ou seja, sem água). Tem apenas uma latrina, mas tem – luxo dos luxos – uma janela com vista para os Himalaias.

9h30: Avistamos a casa onde estivemos ontem e, das escadas, acenamos aos nossos “vizinhos”. Sini já foi para a escola. Jiji, o nosso guia, aparece enquanto tomamos o pequeno-almoço (um iogurte azedo que me soube pela vida). Diz que é possível que a estrada seja desimpedida durante o dia.

10h30: Parou de chover, podemos dar um passeio. Também houve derrocadas na estrada que dá acesso à aldeia deste lado do rio. Para bom entendedor, estamos isolados (seguros, porém).

13h: Faço uma visita aos meus companheiros de viagem mais velhos (ficaram na primeira casa que nos acolheu) e percebo que não dormiram bem. Ana Maria continua deitada. Por baixo, há uma loja que vende brinquedinhos de plástico, material escolar, bolachas e chocolates, produtos de higiene... Compro um baralho de cartas e bolachas.

15h: Depois do almoço, visitamos as duas escolas de Mane Yogma (primária e secundária). Dizem-me que, não muito longe, existe um lago. Há quem acredite que o trekking trará algum turismo à aldeia e, daí, as obras que vemos em algumas casas que estão a ser transformadas em homestays. Vamos até à montanha que ontem subimos e, pelo caminho, avistamos uma raposa. Os carros permanecem no mesmo sítio, a estrada continua impedida.

17h: Paulo Borges organiza mais uma sessão do curso de iniciação ao budismo e, a propósito, propõe que se fale sobre refúgios: “Estamos aqui por causa de um imprevisto. Temos agora a oportunidade de não termos distrações. A visão do Buda é essa: tentar ver o lado sagrado de qualquer situação. Quando surgem experiências menos agradáveis na nossa vida, em que nos refugiamos?” Fala-se na paz interior que várias pessoas do grupo encontraram em Mane Yogma, Raquel diz que se tratou de um momento “feliz”, mas, quando se põe a hipótese de tentar avisar as nossas famílias, nem todos estão de acordo.

20h30: Jantamos sopa de feijão. Extremamente picante, mal consigo pegar-lhe. Peço água quente para encher o meu cantil.

21h30: Pelas conversas, percebo que, enquanto estivemos lá em baixo retidos nos carros, os motoristas fizeram uma fogueira com as tábuas da ponte que, depois, atravessámos. Fico também a saber que o galo que estava no autocarro… acabou no espeto. Jogamos à bisca antes de adormecer.


Dia 3

Acordo e não sei que horas são, já não tenho bateria no telemóvel nem power bank. Consegui dormir, embora continue a acordar durante a noite, a pensar que devíamos tentar avisar a embaixada portuguesa em Nova Deli. Não acredito que consigamos ir embora hoje. Num saco de plástico, juntamos o lixo que vamos fazendo (sobretudo dodots e lenços de papel, enquanto os tivermos…) e, assim, não estragamos o composto que a “nossa” família usa na horta. Conseguimos água quente e sabão, eu e a Maria lavamos as cuecas que temos vestidas. Está sol, vão secar rapidamente.

9h: Tomamos o pequeno-almoço. Lavo-me “à gato” na única pia que existe e escovo os dentes no quintal. Verificamos as condições do seguro de viagem e, enquanto isso, chegam Igor e Diana, o casal da organização. Dizem que conseguiremos sair da aldeia entre as 11h e as 12 horas. Saímos de casa até ao “miradouro”, de onde é possível avistar os carros e a estrada. Vamos ainda mais longe: há dois grupos de pessoas, a pé, lá em baixo. Nada de bulldozers. Tivemos, de facto, muita sorte. Mais adiante, entre pedras e terra, a estrada desapareceu. As notícias de que sairemos hoje de Mane Yogma parecem-nos manifestamente exageradas.

12h: Visitamos Ana Maria, Henrique e Gabriela, os nossos queridos companheiros de viagem septuagenários. Encontramo-los ansiosos com a situação, estamos todos preocupados com eles. No terraço da casa, dá para apanhar banhos de sol e eu aproveito. A “avó” da casa oferece-me um tapete e, de rosário na mão, senta-se ao meu lado.

13h: A dona da lojeca aparece. Compro um pacotinho de champô, um creme, umas canetas para a Sini e umas bolas saltitonas para o irmão dela (que eu não sei como se chama). Amanhã, se estiver sol, eu e a Maria arranjaremos uma maneira de lavar o cabelo.

15h: Está na hora do nosso passeio da tarde. Mal chegamos ao “miradouro”, apercebemo-nos de que o moral das tropas melhorou substancialmente. Lá em baixo, duas bulldozers desobstruem a estrada e, em algumas zonas, já se vê a estrada limpa dos pedregulhos. Muito provavelmente, conseguiremos sair de Mane amanhã.

18h: Paulo Borges orienta a última sessão do curso. Seguimos para jantar nas nossas casas e recolhemos. Sairemos cedo.


Dia 4

6h: Acordamos para ir embora. Deixo algumas coisas na família que nos acolheu: um guarda-chuva que comprei em Kaza, o que sobra das bolachas e o creme. Estão todos felizes por partir.

7h50: Jiji conseguiu enviar algumas mensagens na véspera. Já na estrada, conta-me que, para o lado de Manali, há registos de uma centena de carros presos, 18 mortos e 15 desaparecidos. Justiça lhe seja feita: ele sempre disse que não poderíamos ir naquela direção. Seguimos nos mesmos carros para Tabo, onde comemos aqueles que nos pareceram ser os melhores crepes do mundo.

(A VISÃO viajou a convite da agência Macro Viagens. Os portugueses que seguiam no mesmo grupo que nós são referenciados na reportagem apenas com o nome próprio, de modo a garantir a sua privacidade.)

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