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As técnicas do "melhor professor de Portugal"

Sociedade

Os métodos que Rui Correia utiliza para ensinar têm muito pouco de tecnológico. A sua técnica dos “copos-semáforo” permite-lhe saber se os estudantes estão (ou não) a compreender o que diz

Luis Barra

O meu adversário na sala de aula é alguém que julga que sabe tudo.” Ou: “Como a distração faz parte da vida, o meu maior estímulo é encontrar a fórmula que capte o olhar e o interesse de quem tenho à minha frente.” Ou ainda: “Querer saber como os alunos aprendem faz toda a diferença.” São citações de uma e da mesma pessoa. Resultado: o professor de História já foi a casa de alunos buscá-los para irem à escola, é padrinho de casamento de dois dos seus antigos estudantes e nunca mandou nenhum “para a rua”. “Soa a provocação, mas acredito, sim, em mandá-los todos para a rua para fazerem coisas.”

Quem fala assim é Rui Correia, professor de História, da Escola Básica de Santo Onofre, do Agrupamento Raul Proença, nas Caldas da Rainha, que, esta semana, foi distinguido como o melhor professor do País no Global Teacher Prize Portugal, numa cerimónia que decorreu no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, apresentada por Ricardo Araújo Pereira. E o que não faltou ali foram momentos de provocação... ao Governo. “Quando o ministério não tem juízo, o corpo docente é que paga”, brincava o humorista, avisando ainda Rui Correia de que “o dinheiro do prémio vai ficar retido durante nove anos, quatro meses e dois dias...”, numa alusão clara à conhecida reivindicação dos professores, bem no epicentro da mais recente crise política. Nada que abalasse o discurso do vencedor, mais empenhado em fintar o nervosismo da hora.

“Antes de subir ao palco só pensava: quem quer que ganhe este prémio passa a ter uma responsabilidade ainda maior. E de repente... fui eu!”, exclamou, antes de dedicar o galardão a todos os professores do País e a quem o entregou, não resistindo ao trocadilho: “É gente que sabe estar, como se vê.” Além dos 30 mil euros, Rui Correia fica automaticamente nomeado para a edição internacional, conduzida pela Fundação Varkey desde 2015, com o objetivo de reconhecer o desenvolvimento educacional em contextos socialmente desfavorecidos. O grande vencedor do galardão, entretanto conhecido como o Prémio Nobel da Educação, receberá um milhão de dólares (cerca de 893 mil euros).

Verde, amarelo, vermelho

Já mais longe dos holofotes, aquele docente de História, cheio de nervoso miudinho mas também de muito orgulhoso, aceita revelar um pouco mais de si. A dar aulas há perto de 30 anos, Rui Correia confessa que se tornou professor com um intento: “Para que, a três minutos de morrer, possa olhar para trás na minha vida e sentir que valeu a pena, que contribuí para melhorar o mundo à minha volta. E ser professor garante-me ter um bocadinho essa perceção.”

É um propósito que o acompanha desde pequeno, por culpa das muitas voltas que a sua vida deu. Nascido em Viseu há 53 anos, tinha cinco quando foi para Angola, devido a uma comissão de serviço do pai, farmacêutico. A família regressaria a Portugal, pouco antes do 25 de Abril, e instalou-se na Figueira da Foz, onde o jovem Rui acabou o liceu, antes de se mudar novamente para ser estudante em Coimbra. Desde o fim do curso que dá aulas a alunos do 3º Ciclo – miúdos entre os 12 e os 15 anos – e é neles que pensa quando entra na sala de aula.

“O grande desafio, sempre, é saber quem está a pensar, quem está a raciocinar no que estou a dizer. O ideal era que fosse toda a gente e durante o tempo todo, mas, como isso é impossível, procuro encontrar estratégias que permitam aproveitar ao máximo a capacidade de os alunos prestarem atenção.” Tudo isto porque, como gosta de assinalar, estudar não tem só que ver com a escola; está relacionado com tudo o que lhes acontece. “A minha grande preocupação é nunca desistir de nenhum aluno.” E isso, insiste, só se faz desmontando esta ideia de escola em que alguém fala e em que os outros ouvem.

Para o ajudar nesta missão difícil, e depois de várias tentativas e erros, Rui Correia revela que se socorre, regularmente, de métodos interativos, mas low-tech. “Não sou de modas e preciso de tecnologias infalíveis”, justifica, “só assim posso ter feedback imediato sobre a aula que está a decorrer”. E passa a explicar. “Uso muito a técnica dos copos-semáforo. Todos os alunos têm um copo verde, outro amarelo e outro vermelho. Têm o primeiro em cima da mesa para dizer que estão a perceber a matéria, o segundo quando há alguma distração e gostariam que eu repetisse – e é muito empolgante quando voltam, pouco depois, ao copo verde –, e o vermelho só é usado quando não perceberam nada ou querem fazer uma pergunta. Aí quem responde é quem tem o copo verde.”

Do mimo e outras dinâmicas

Faz já dois anos que se rendeu a esta estratégia dos copos, mas tem mais. A outra é a das páginas amarelas. “Nunca falo mais de 15 minutos, não faz sentido. Depois peço-lhes para escreverem o que compreenderam sobre o que eu disse.” Isso, garante, faz com que a aula decorra de forma tranquila – e eficaz. “Porque acredito que, ao escreverem por palavras deles o que ouviram, também aprendem. Além de praticarem a escrita...” E, no fim, têm todos de ler em voz alta o que escreveram.

“Ao longo da vida, fui colecionando várias ideias que, quando se adaptam bem ao núcleo de miúdos que tenho à frente, são ótimas”, sublinha antes de reconhecer que o retorno dos estudantes, ao sentirem este nível de envolvimento do professor, é também muito maior do que alguma vez poderia imaginar. “Concorri porque me ligaram da escola a avisar que tinham chovido dezenas de recomendações à minha candidatura, que nunca tinham visto nada assim e que eu precisava de fazer alguma coisa”, conta.

Com o dinheiro do prémio, espera poder injetar versatilidade nas dinâmicas da sala de aula daquela escola, tão necessitada de “mimo”. “Cada vez gosto menos de mesas dentro da sala, porque nos fixam a um determinado lugar – e uma aula tem de ter vários núcleos de atenção”, sugere, sem receio de controvérsias. “Por exemplo: quando estou perante um aluno ensonado, não lhe aponto o dedo; faço, antes, tudo para atrair o seu interesse. O professor tem de conseguir cativá-lo, o ónus tem de estar deste lado”, defende Rui Correia. “O erro também é muito importante para se dar a volta. Diria mesmo que errar é indispensável. É preciso ter liberdade de ensinar e de errar – porque há estratégias que funcionam com uma turma e com outra não”, conclui.

Dito isto, torna-se claro que aqueles três minutos finais de tranquilidade a que aspira estão mais do que assegurados.

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