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A última moda do YouTube mostra como é viver na prisão

Sociedade

D.R.

Os quatro canais prisionais mais populares no YouTube já ultrapassam os 2,1 milhões de subscritores e cerca de 342 milhões de visualizações por página

Cumprida a pena de sete anos de prisão efetiva por posse de cocaína e arma de fogo, em 2015, Joe Guerrero tinha 32 anos e estava sem rumo. Natural da Virgínia, nos Estados Unidos da América, passou grande parte da sua vida adulta a lutar contra o sistema de justiça criminal, muito graças à dependência de drogas que começou logo na adolescência e o levou a vários anos de roubos, festas exuberantes, tudo misturado com um comportamento destrutivo. Já fora do cárcere, sem uma profissão, a sofrer de ansiedade que não o deixava sair de casa e com o relacionamento familiar à beira do colapso, Joe temia que o seu único destino fosse voltar para a prisão.

Numa tentativa de ultrapassar a má fase da vida, Joe Guerrero começou a documentar no YouTube a batalha para se reintegrar na sociedade. Começou por filmar as idas às agências de trabalho temporário e publicava alguns vídeos, em que relatava as suas frustrações com a liberdade vigiada. Sete meses passaram e Guerrero publicou um vídeo sobre como fazer uma pistola de tatuagem na prisão, tornando-se viral com 2,3 milhões de visualizações.

Três anos e mais de 700 vídeos depois, o que começou como uma série de vlogs amadores transformou-se num canal do YouTube com mais de 1,2 milhões de subscritores chamado After Prison Show. O canal é agora o seu trabalho a tempo inteiro, dando-lhe um rendimento anual de seis dígitos, e para trás ficou um emprego de operário numa fábrica. “Até agora, a minha vida tinha sido um fracasso constante”, disse Guerrero, cuja experiência nas redes sociais antes da prisão limitava-se ao Myspace, ao jornal The Washington Post.

O After Prison Show insere-se numa realidade americana, bastante diferente da portuguesa. Com 698 americanos atrás das grades por cada 100 mil habitantes, os Estados Unidos acumulam mais presos per capita do que qualquer outra nação, de acordo com dados do centro de estudos Prison Policy Initiative, uma organização sem fins lucrativos que analisa o impacto da criminalização em massa. Combinando populações prisionais estaduais e federais, com prisões, centros de detenção de imigrantes e instalações de menores, a organização afirma que há cerca de 2,3 milhões de pessoas presas em todo o país.

“Toda a gente na América tem agora um membro da família ou um amigo ou conhece alguém na prisão”, disse Shaun Attwood, um ex-traficante de droga cujo canal no YouTube focado na brutalidade da vida na prisão tem mais de 181 mil assinantes. Entre os vídeos mais populares estão os feitos por Marcus “Big Herc” Timmons, 46 anos, um ex-presidiário cujo estilo contundente e cómico alimentou a sua ascensão, passando de ladrão de bancos condenado a estrela das redes sociais. Em conjunto, os quatro canais prisionais mais populares no YouTube têm mais de 2,1 milhões de subscritores e cerca de 342 milhões de visualizações por página.

Estes canais funcionam como janelas para um mundo repleto de mitos definidos por argumentos de Hollywood. Primeiro veio Orange Is the New Black, as memórias de Piper Kerman foram adaptadas, em 2013, num dos maiores sucessos da Netflix. A mesma plataforma de streaming estreou a 10 de maio Jailbirds, uma série documental, dividida em seis partes, sobre o complexo e violento mundo das mulheres presas na cadeia do condado de Sacramento.

Por cá, em fevereiro, a polémica estalou assim que alguns presos decidiram transmitir em direto no Facebook as festas organizadas dentro dos estabelecimentos prisionais de Paços de Ferreira e do Linhó. Imagine-se o que aconteceria se um presidiário resolvesse criar um canal no YouTube com dicas sobre como tomar banho e usar a casa-de-banho, defender-se da agressão sexual, negociar com membros dos gangs, fazer uma pizza usando noodles, sacos de lixo e tiras de milho, sobreviver a um tumulto ou usar manteiga de amendoim para esconder o contrabando.

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