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Sandra Elvas, assistente social: "Lutamos muitas vezes contra a rotina de uma vida inteira"

Sociedade

A diretora mostra um dos apartamentos da residências sénior instalada no Bairro Padre Cruz, em Lisboa - um modelo muito longe da imagem do lar a que estávamos habituados

José Carlos Carvalho

Dirige uma residência para seniores, num modelo muito próximo do moderno cohousing e longe do lar em que todos se deitam e apagam as luzes às dez da noite. Quem é que não sonha com um futuro assim?

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A lógica daquela residência sénior, essa, é já bem conhecida e faz o maior sucesso entre os seus moradores: todos têm casas individuais privadas – quarto, sala com cozinha e casa de banho – mas dispõem também de espaços comuns, tudo para diminuir o custo, afugentar a solidão e promover sentimentos de partilha. Um modelo que ganhou força nos países nórdicos há alguns anos e está agora a dar os primeiros passos por cá, como forma de promover um envelhecimento ativo e saudável.

“Era uma área que estava muito desprotegida e daí ter-me cativado”, conta Sandra Elvas, 43 anos, que gosta de contar que foi o serviço social que a escolheu, a ela que sempre se preocupara com o bem-estar do outro. No fim da faculdade, estagiou na psiquiatria do Amadora-Sintra e isso deu-lhe bagagem para aquela população que, às vezes pode parecer que não, mas sabe ser muito difícil.

“É muito importante ouvir e apoiar os problemas das pessoas na comunidade em que estamos. Uma simples depressão pode hipotecar a vida de uma pessoa para sempre. E às vezes nem as populações mais favorecidas sabem tratar a doença: têm informação, mas também têm vergonha de o assumir”, nota Sandra, que é também diretora daquelas residências, sempre a assinalar que o projeto é feito com as pessoas, sem lhes impor nada. “Ainda mais porque, contra nós, está a rotina de uma vida inteira.”

Uma vez, conta, entrou um casal a dizer que queria saber se podia inscrever-se só para o centro de dia – que outra das possibilidades daquele edifício da Santa Casa da Misericórdia erigido no topo do bairro Padre Cruz, em Lisboa – e Sandra estranhou.

“Geralmente, as pessoas preferem estar no seu espaço, só quando se sentem incapazes é que fazem outra opção.”

Indagou se tinham necessidade de companhia, de alimentação mais saudável ou mesmo acompanhamento psicológico. “Foi quando a mulher disse que tinha era vergonha de estar em casa.” Sandra perguntou se podia ir ver e primeiro disseram-lhe que não - “foi quando se acenderam os sinais vermelhos todos.”

Ao fim de uma semana de conversa, lá a autorizaram finalmente à tão pretendida visita, sem nunca forçar nada. Quando lá chegou, as razões do embaraço tornaram-se claras. “Aquilo não era bem uma casa, era um estábulo.” Como quem diz, uma única divisória para a cama e um lavatório - para a cara e para a loiça - na zona em que os cavalos antigamente bebiam água, tudo debaixo de um telhado que deixava passar a água da chuva.

A descrição envergonha porque nem imaginamos pessoas em Lisboa a viver assim, no meio desta pobreza envergonhada, mas Sandra rapidamente passou da incredulidade à ação. “Ajudei logo a senhora a fazer a mala”. A mesma que lhe diz, repetidamente, “ai, se não fosse a doutora nunca tinha conseguido sair dali”.

Ali há residência e centro de dia e também creche, daí o trabalho ser muito bem articulado para promover atividades conjuntas. Na zona das residências há 30 apartamentos, com capacidade para 35 pessoas, tudo gente com mais de 65 anos e a viver em condições de grande vulnerabilidade, mas com autonomia – um projeto que ganhou vida com a requalificação do bairro, privilegiando por isso os moradores das casas que foram deitadas abaixo. “Para poderem continuar na comunidade.”

Assim, não só cada um tem o seu apartamento como vai às compras e confeciona a sua alimentação. “A ideia é que sejam capazes de viver sozinhos e não os privar das das suas escolhas.” Além disso, podem entrar e sair a qualquer hora (até de madrugada, se quiserem!) e receber a família (“Quantas vezes não há crianças a correr pelo corredor...”, confidencia-nos também aquela assistente social).

Esta preocupação em ir de encontro dos desejos e anseios desta população corresponde também a uma mudança de paradigma – porque o idoso hoje já não tem as necessidades de há 50 anos e é um grupo que só vai aumentar. “Temos um índice de envelhecimento que está nos 153 idosos para cada 100 jovens”, assinala ainda Sandra. “Em 2050 prevê-se que esse valor esteja nos 315”.

É por isso que defende que a geração agora na década dos 50 deve começar a preparar o seu envelhecimento, para não ser apanhada desprevenida. Os conselhos da assistente social são relações positivas, estar na comunidade e no associativismo, permanecer ativo, cuidar da alimentação, fazer exercício físico e até votar. “Já não faz sentido continuar a alimentar a cultura do trabalho. As pessoas mais velhas podem não trabalhar, mas têm o seu valor. E não devemos esquecer que, futuramente, quem mais vai investir na economia são os idosos, que até já são os maiores gastadores - antes de mais, em medicamentos. “

Ou seja, o futuro está ali, à nossa frente. Afinal, essa mistura de saúde, educação e participação na comunidade, na linha do modelo anunciado no Ano Europeu do Envelhecimento Ativo, há cinco anos, já existe. Todos os meses, há reuniões gerais, para os residentes apontarem o que falta, cabendo à assistente social encontrar respostas. E a felicidade, para muitos deles, pode ser muito simples.

“Por exemplo, há uma senhora que vive sozinha, mas gosta de ter companhia ao almoço. Então combina com as vizinhas: ela cozinha enquanto as outras vão às compras. E no fim dividem o gasto.”

Há quem goste de estar ao computador, mas a grande reivindicação, essa, foi um pacote televisivo com mais canais, como tinham em casa. A qualidade do que comiam era outra preocupação e foi então que uma outra senhora de 84 anos, e vegetariana há 20!, se propôs a fazer um workshop de alimentação mais saudável. “É disto que se trata: identificar necessidades e encontrar a solução nas suas capacidades.”

E há ainda um grupo que faz uma espécie de policiamento comunitário no bairro, para o tornar mais seguro para todos – seja a assinalar buracos na rua ou a sensibilizar os vizinhos para a reciclagem ou para apanharem os cocós dos cães.

“Só é difícil aceitar a opinião dos outros quando não sabemos pormo-nos no seu lugar, e achamos que fazemos melhor. Mas isso só deve acontecer quando a pessoa não está capaz de tratar de si própria e se pode pôr em risco.”

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