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Há cada vez mais "homens feios" a recorrer à cirurgia plástica para ficarem atraentes

Sociedade

ADAM GAULT/SPL/ Getty Images

Seja pela pressão social, pelo desejo de validação ou pelo simples facto de quererem ser mais atraentes, os homens estão a recorrer à cirurgia cosmética cada vez mais. Esta é a história dos “celibatários involuntários” que querem deixar de ser celibatários

Pedro Dias

Pedro Dias

Jornalista

Um artigo pulicado pela revista The Cut revela que cada vez mais homens recorrem à cirurgia plástica facial para se tornarem mais atraentes para o sexo oposto. O artigo faz alusão à comunidade online masculina autointitulada “incels” e aos extremos a que recorrem para conseguirem ter traços faciais “esculpidos”, “angulares” e, esperam, “atraentes”.

"Incel" é o diminutivo de “involuntary celibate”, que se traduz para “celibatário involuntário”. A expressão é usada para referir pessoas – neste caso, homens - que, apesar de desejarem ter relações sexuais, não o conseguem. O termo surgiu online e foi adotado por uma vasta comunidade masculina heterossexual que, nas suas próprias palavras em fóruns, aceitou “tomar o comprimido preto” da realidade e aceitar que é “feio” ou “não atrativo para mulheres” e que como tal está “destinado a viver uma vida infeliz e a morrer sozinho”.

Segundo Ross Haenflet, professor de sociologia no Grinnel College, no Iowa, EUA, os "incels" são caracterizados pela visão radical que partilham do sexo oposto e da sociedade. A seu ver, o sexo é algo que lhes é devido e a culpa de não o terem não é deles, mas sim das mulheres que não os desejam e dos homens que nasceram "injustamente” atraentes.

A estes homens eles apelidam de “chads”. Os "chads" são descritos no fórum de "incels" Lookism como homens que são “louvados dia e noite pelos seus genes de altíssima qualidade, fazem montanhas de dinheiro, recebem quantidades absurdas de validação, nunca têm de se preocupar com pagar a renda ou com qualquer responsabilidade” e que têm relações sexuais com “supermodelos que vomitam só de pensar em tocar-nos”.

Os "incels" tendem a adotar uma visão misógina da sociedade em que a mulher existe para servir o homem. Acreditam que as mulheres lhes devem sexo, que são “inferiores aos homens”, que não são “leais”, e que a culpa de não conseguirem arranjar uma companheira reside no “crescimento do poder social feminino”.

Para tentar fugir ao seu “destino”, os "incels" estão cada vez mais a recorrer a cirurgias plásticas que os transformem nos "chads" que tanto invejam. Procedimentos como reconstruções faciais, implantes nos maxilares ou transplantes capilares são cada vez mais procurados por estes homens, de forma a aumentar a sua autoestima e atratividade.

A investigação tenta fazer a ligação entre os procedimentos cirúrgicos extremos a que se sujeitam estes homens a um tipo de transtorno dismórfico corporal. A Anxiety and Depression Association of America descreve este problema como uma doença do foro psicológico em que uma pessoa fica obcecada com o que considera serem “falhas” na sua aparência corporal. Esta doença pode vir acompanhada por sintomas de ansiedade, depressão ou obsessivo-compulsividade, e as vitimas tendem a ter uma série de comportamentos de “camuflagem” das suas falhas, entre eles, o recurso recorrente a cirurgia estética.

Embora o artigo se refira exclusivamente a homens americanos, o fenómeno não é exclusivo ao país. Tijon Esho, cirurgião estético da Dr Esho Clinic, no Reino Unido, relatou ao Independent que as cirurgias estéticas estão também a ser cada vez mais procuradas por homens britânicos, mas que estes não se inserem necessariamente na comunidade "incel".

“Isto é um fenómeno muito preocupante que tem vindo a crescer ao longo dos anos, quase como uma nova forma de transtorno dismórfico corporal exclusivamente masculina, guiada pela pressão de como os homens são vistos nas plataformas sociais. Mas, neste caso, é diretamente derivada da forma de como eles sentem que o sexo oposto os vê”, explica. “Eu não diria que este tipo de tratamento é exclusivo à comunidade 'incel', pois é algo que atualmente tem muita procura”, remata.

A American Society of Plastic Surgeons revelou, em Março, um aumento do número de pessoas em busca de cirurgias estéticas. Em 2018, foram feitas nos EUA cerca de 250 mil procedimentos estéticos a mais que em 2017. Já em Portugal, foram registadas mais de 38 mil cirurgias plásticas em 2017, mais mil do que em 2016, revela o INE.

A Internet reagiu ao relatório de forma mista. Muitos prezaram a profundidade da investigação e a relevância do tema nos nossos dias. Outros criticaram a visibilidade que o artigo deu à comunidade "incel", um grupo que “não merece uma voz”. Um utilizador de Twitter comentou que o problema dos "incels" reside “nas suas mentes e atitudes, e não nas suas caras”, afirmando que “são perigosos e vivem segundo uma ideologia que escolheram subscrever. Não merecem qualquer simpatia, são predadores”.

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