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As baleias têm defesas naturais contra o cancro que podem vir a ser usadas em pacientes oncológicos

Sociedade

FERNANDO CASTILLO

Um grupo de cientistas mapeou o ADN de várias baleias e descobriu que estes mamíferos têm uma defesa genética natural contra o desenvolvimento de cancro. As descobertas podem viabilizar a criação de medicamentos para uso humano

Pedro Dias

Pedro Dias

Jornalista

A idade e o peso são considerados fatores de risco para o desenvolvimento de cancro. Como as baleias são dos animais com mais tamanho e longevidade do mundo, seria de esperar que tivessem uma grande propensão a desenvolver cancro. Mas não. Pelo contrário, têm um risco menor que qualquer outro animal.

Uma equipa liderada por Mike Tollis, professor assistente na School of Informatics, Computing, and Cyber Systems da Universidade do Norte do Arizona, nos EUA, e composta por cientistas de 10 outras instituições quis perceber porquê. Para tal, sequenciou o ADN de uma baleia-corcunda e comparou-o com os genes de outros mamíferos, entre eles outros gigantes dos mares como a baleia-azul, a baleia-comum, a baleia-da-gronelândia e o cachalote.

Os investigadores concluíram que os genomas de todas as baleias tinham uma coisa em comum: partes deles evoluíram mais rápido que nos restantes mamíferos. Nomeadamente, as partes responsáveis pelo ciclo celular e pela reparação de ADN, essenciais ao funcionamento normal das células.

Todos os seres vivos sofrem ciclos celulares, que é o processo que permite às suas células dividir-se e multiplicar-se. Por vezes, as células sofrem mutações durante este processo, que na maior parte dos casos não constituem qualquer perigo para a saúde. No entanto, quando o corpo não consegue corrigir estas mutações somáticas, elas podem levar à formação de cancro. É assim, de uma forma geral, que se forma o cancro em todos os seres vivos.

A idade e o peso são fatores de risco nos humanos. "Quanto mais tempo se vive, mais divisões celulares se sofreu e maior a probabilidade de se vir a sofrer uma mutação causadora de cancro no genoma das células descendentes”, informa Tollis. “De forma semelhante, os indivíduos volumosos são feitos de mais células, o que também aumenta o risco de mutações cancerígenas”, pois há mais ciclos celulares para se fazer, acrescenta o autor.

Mas na baleia, estes fatores parecem não ter relação com o aparecimento de cancro. “Isto sugere que as baleias são únicas entre os mamíferos - de forma a evoluírem para o seu tamanho gigantesco, estes importantes genes de ‘limpeza’, que estão evolucionariamente conservados e previnem cancro de forma natural, tiveram de acompanhar a manutenção da saúde da baleia”, afirma Tollis.

“Também descobrimos que, apesar de as partes do genoma da baleia relacionadas ao cancro terem evoluído mais depressa do que nos outros mamíferos, as baleias acumularam, em média, muitas menos mutações de ADN nos seus genomas ao longo do tempo, em comparação com outros mamíferos; o que sugere que têm taxas de mutação mais lentas”, comenta o autor. Este fenómeno pode também influenciar a exposição da baleia a mutações somáticas causadoras de cancro, limitando-as.

O estudo tem por base estudos anteriores da Universidade do Estado do Arizona sobre o mesmo fenómeno observado em elefantes, outro animal de grande porte com muito pouco em comum com a baleia, mas com mecanismos de supressão de cancro próprios. Os cientistas estimam que o mesmo se passasse com os dinossauros, os maiores seres vivos que alguma vez pisaram a terra, visto os pássaros - os seus descendentes diretos - também possuírem uma elevada resistência ao cancro.

O próximo passo dos investigadores é o de melhor entenderem o fenótipo que suprime o cancro, através de experiências em células de baleia. Tal trará uma maior validação ao presente estudo e talvez permita, no futuro, a criação de medicamentos derivados do genoma da baleia para combater o cancro em humanos.

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