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Meio milhão de vítimas nas estradas portuguesas em 10 anos

Sociedade

D.R.

Dados recolhidos pelo Automóvel Club de Portugal traçam o retrato preocupante da sinistralidade rodoviária no nosso País, apontando previsões e medidas concretas para 2020

Portugal registou um total de 471 352 vítimas nas estradas nacionais (entre mortos, feridos graves e feridos ligeiros) na década compreendida entre 2008 e 2018, diz um estudo do Automóvel Club de Portugal. São 8 099 mortos, 23 835 feridos graves e 439 418 feridos ligeiros que põem a nu o mau comportamento dos portugueses ao volante.

O estudo do Automóvel Club de Portugal (ACP), divulgado esta quarta-feira, 8, é um “trabalho de investigação” da autoria de João Queiroz, presidente da Associação Estrada Mais Segura, que tem como “únicas fontes de informação os dados públicos”.

Em Portugal, a sinistralidade rodoviária tem um custo económico e social de 24,1 mil milhões de euros. No conjunto dos 28 países da União Europeia, num ranking de 2015, Portugal ocupa os últimos lugares no que ao total de feridos e mortos por cada milhão de habitantes diz respeito.

Na contabilização dos feridos, Portugal ocupa o 24.º lugar com 4 163 vítimas por cada milhão de habitantes, sendo ultrapassado apenas pela Eslovénia, Bélgica, Alemanha e Áustria. A lista é encabeçada pela Dinamarca que, com 555 feridos por cada milhão de habitantes, é o país com menor número de vítimas na estrada.

Já na contabilização das vítimas mortais, Portugal ocupa o 17.º lugar (com 60 mortos por cada milhão de habitantes), ficando Malta (com 26), em primeiro e a Bulgária (com 99), em último.

Para 2020, a previsão aponta para 520 mortos, no total do ano, nas estradas, valor já distante do 399 da meta desejada. Quanto à localização dos acidentes, é dentro das localidades que se morrerá mais (270), seguido de fora das localidades sem auto-estrada (190) e, por fim, nas auto-estradas (30). Com o mapa do país dividido em seis regiões (Norte, Centro, Área Metropolitana de Lisboa, Lisboa, Alentejo e Algarve), só a região Norte surge pintada a verde, com uma previsão de 625 mortos e feridos graves.

Europa, um oásis da sinistralidade

Há vários anos que João Queiroz acompanha as questões da sinistralidade rodoviária, tendo feito parte das equipas que delinearam, entre outros documentos, o Plano Nacional de Prevenção Rodoviária (2003-2010), a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária (2008-2015), o Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária (Pense 2020) e Programa de Proteção Pedonal e de Combate aos Atropelamentos (PPPCA). Na sua opinião o panorama geral não é totalmente negativo. “Ao longo dos tempos, a sinistralidade melhorou substancialmente. Tem vindo sempre a diminuir, salvo um ano pontual com um acidente grave. Hoje, e desde 2010, as vítimas mortais são contabilizadas a 30 dias, de forma rigorosa”, analisa.

Mas para João Queiroz, isso não quer dizer que os portugueses tenham passado a conduzir melhor. “As grandes questões do comportamento continuam por ser atendidas”. Caso da utilização do cinto de segurança e dos sistemas de retenção para as crianças.

O especialista considera que o nosso sistema de aviso e socorro é bom, sobretudo num tempo em que o telemóvel é uma tecnologia que serve para o bem (por exemplo, chamar auxílio em caso de acidente) e para o mal (distrai quem conduz).

“Em Portugal, a velocidade não é superior, em termo médios, aos restantes países da Europa. O mesmo se passa com o álcool, apesar de mais de 20% dos condutores que morrem virem a conduzir com taxa de alcoolemia superior à permitida por lei. Diria mesmo que a Europa é quase um oásis no panorama da sinistralidade rodoviária, apesar de morrerem mais de 25 mil pessoas por ano”, compara o especialista.

Em 2017, Portugal teve 61 mortos por cada milhão de habitantes, quando a média europeia é de 49,5. Pelas contas de João Queiroz, em 2018 serão 63 mortos por milhão de habitantes, baixando a média europeia para 49.

Por mais conselhos que dê, ações tão simples como verificar uma vez por mês, no mínimo, a pressão dos pneus ou colocar radares nos semáforos, João Queiroz não tem dúvidas: “O sistema tem de ser melhorado desde o princípio, logo na sua organização.”

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