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Moçambique: cuidar de quem trata da saúde dos outros

Sociedade

Luís Barra

Também os trabalhadores humanitários que intervém em cenários de catástrofe precisam de cuidados de saúde e estão vulneráveis ao stresse pós-traumático. A primeira responsabilidade da equipa da Cruz Vermelha Portuguesa a atuar em Moçambique é cuidar de si mesma

Vânia Maia

Vânia Maia

em Moçambique

Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

em Moçambique

Repórter Fotográfico

A missão da farmacêutica Sílvia Bentes não se esgota no tratamento dos utentes do Posto Médico Avançado montado há duas semanas pela Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) no bairro de Macurungo, na Cidade da Beira. A voluntária da Médicos do Mundo, organização que se associou à operação humanitária da CVP, também tem de se preocupar com o bem-estar de toda a equipa.

Diariamente, garante que nenhum dos 26 profissionais de saúde no terreno se esquece de cuidados básicos como usar repelente de insetos, aplicar protetor solar, tomar o medicamento profilático da malária ou ingerir um suplemento de vitamina B (acredita-se que ajuda a afastar os mosquitos). E está atenta a qualquer sintoma de doença que possa surgir.

Mas os cuidados com a equipa não terminam aqui.

“Estas situações de calamidade exigem-nos recursos psicológicos que não estamos habituados a usar”, alerta Joana Pinheiro, uma das duas psicólogas que integram a equipa da Cruz Vermelha. Por isso, o estado anímico dos profissionais de saúde merece toda a atenção.

“É natural as pessoas reagirem a situações anormais. Temos de relembrar esse facto quando se enfrentam eventos críticos”, nota a psicóloga. Fundamental é saber lidar com essas reações.

A pensar nisso, a preparação começou ainda antes de aterrarem em Moçambique. Tenta-se que a equipa esteja o mais informada possível sobre o cenário que vai encontrar e o tipo de situações com as quais terá de lidar.

São dados conselhos práticos a todos os elementos. Criar “tempo de pausa”, longe do local de trabalho, é uma das recomendações. Praticar exercício físico, fazer jogos ou alimentar-se e hidratar-se convenientemente são outras das sugestões.

Joana Pinheiro também destaca a importância do espírito de equipa: “A união é muito importante porque só nos temos a nós. A maior parte das pessoas deste grupo não se conhecia antes, mas é fácil criar relações neste ambiente porque estamos todos vulneráveis e agarramo-nos uns aos outros.”

Partilhar as angústias que vão vivendo com o grupo ou com alguns dos seus elementos também ajuda a libertar a tensão. O isolamento é sempre um sinal de alerta e deve ser combatido. Além disso, também o contacto com Portugal traz conforto emocional. “Ainda que aconteçam dentro deste contexto, os momentos para falar com a família são fundamentais para descontrair”, sublinha Joana Pinheiro.

É preciso estar vigilante perante sinais de stresse como distúrbios de sono, ansiedade, falta de energia, problemas de concentração, perda de apetite, apatia, irritabilidade, dores de cabeça ou de estômago, taquicardia ou assumir comportamentos de risco.

A saúde dos profissionais de saúde é tão importante que a Organização Mundial da Saúde (OMS) vai destacar uma equipa responsável por prestar apoio de emergência aos trabalhadores humanitários no terreno – cerca de mil. A Cruz Vermelha Portuguesa é apontada como uma das possíveis opções. O que implicaria ter uma equipa e uma viatura disponíveis 24 horas para socorrerem aqueles que têm a missão de ajudar os outros.