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Moçambique: emigrantes portugueses entre o trauma e o recomeço

Sociedade

Luís Barra

O nome não permite equívocos. O restaurante Tugas, na cidade da Beira, é propriedade de uma portuguesa. Foi em Moçambique que Adelaide Moreira decidiu recomeçar a sua vida – e nem o ciclone abalou a sua convicção. Mas, entre os amigos, há quem ainda esteja refém da noite do temporal

Vânia Maia

Vânia Maia

em Moçambique

Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

em Moçambique

Repórter Fotográfico

Uma chapa de zinco serve de penso rápido ao muro que resguarda a moradia de dois andares onde vivem Adelaide Moreira e João Pedro Miranda. No rés-do-chão, funciona o restaurante Tugas, onde é possível comer bacalhau com natas, bife à portuguesa ou francesinha, entre outras especialidades.

Em 2014, Adelaide Moreira, 53 anos, viajou com os irmãos até à Beira. A certeza foi quase imediata: era naquela cidade moçambicana que queria recomeçar a sua vida. Divorciada e desempregada, decidiu deixar Vila Nova de Famalicão para trás e investir as economias na montagem do restaurante.

Apesar de ter sentido uma grande quebra de movimento nos primeiros dias após o ciclone Idai ter atingido o centro de Moçambique, o negócio já regressou ao normal. A clientela habitual é de classe média alta. Ao cair da noite, a esplanada tem sido tomada por funcionários humanitários que vieram prestar apoio às vítimas da tempestade – as Nações Unidas estimam que 1,8 milhões de pessoas continuem a precisar de ajuda urgente.

Vários restaurantes foram alvo de tentativas de assalto. “São dos poucos sítios onde há comida em abundância”, justifica Adelaide Moreira, que se viu obrigada a reforçar a vigilância. Devido à insegurança, alguns dos seus funcionários recusam-se a trabalhar até tarde por causa da falta de eletricidade em diversas zonas da cidade.

O marido, João Pedro Miranda, ainda não parou desde a calamidade. É especialista em reparação de geradores e automação industrial e, tendo em conta os estragos, não tem mãos a medir. Sai de casa com o nascer do sol.

Luís Barra

A noite do temporal, que se prolongou pela madrugada de dia 15 de março, foi de nervos. Entre os cerca de 2 mil portugueses que vivem na Beira, várias dezenas perderam as suas casas. Mas Adelaide Moreira sabe que está entre os privilegiados - tombou um muro, partiram-se alguns vidros e caiu a árvore que dava sombra à esplanada. Os verdadeiros sobreviventes são os residentes das mais de 90 mil habitações parcial ou totalmente destruídas ou os familiares e amigos das 598 vítimas mortais contabilizadas até agora, só em Moçambique.

Só se arrepende de não ter conseguido convencer Florinda Maia, 55 anos, a dormir em sua casa na noite do ciclone. “Fomos muito teimosas e não quisemos ficar uma com a outra”, lamenta.

O marido de Adelaide Moreira estava numa viagem de trabalho, no Chimoio, e o da amiga em Portugal, pelo mesmo motivo.

Sozinha na sua casa à beira-mar, Florinda Maia ainda tentou desvalorizar o vento que começou por volta das sete da tarde de dia 14, mas rapidamente se tornou impossível. Partiram-se os vidros das janelas, voaram os caixilhos e a mobília começou a flutuar. A água dentro de sua casa chegou aos 1,20 metros. O pânico levou Florinda Maia a esconder-se dentro de um guarda-fatos. “Foi um filme de terror que eu ali vivi”, conta, ainda com dificuldade.

Ficou incontactável – todos os meios de comunicação deixaram de funcionar nas horas seguintes à tempestade. E, quando o marido entrou no avião, em Portugal, não sabia qual o cenário que iria encontrar no regresso a casa. Mas Florinda Maia já estava a salvo em casa da amiga. A empresária também sofreu prejuízos nos armazéns das suas lojas de decoração, têxteis-lar e mobiliário de luxo. Alguns deles ficaram totalmente destruídos com a mercadoria lá dentro.

Na sequência da tempestade, a filha do casal, Sofia Maia, 30 anos, viajou até à Beira. No regresso, levou a mãe a passar uma temporada no Porto, onde vive. Florinda Maia confessa que não faz ideia de quanto tempo vai permanecer em Portugal. Mas sabe do que poderá vir a ter saudades primeiro: “Adoro o povo moçambicano. São espetaculares.”

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