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Cientistas vão escavar na Antártida para analisar as amostras de gelo mais antigas de sempre

Sociedade

Barcroft/Getty Images

Investigadores querem extrair gelo com mais de 1,5 milhões de anos no Continente Gelado, de forma a compreender como o clima evoluiu ao longo dos anos - e esperam que esse gelo nos dê pistas para o futuro

Depois de dois anos a estudar e a fazer o reconhecimento dos territórios da Antártida, uma equipa de investigadores está pronta para montar o acampamento e começar os preparativos para perfurar o gelo.

O objetivo do projeto, denominado Beyond Epica, reside a 2,75 quilómetros do solo, de onde pretendem retirar amostras de gelo com pelo menos 1,5 milhões de anos, as mais antigas alguma vez analisadas.

Com um apoio de cerca de €11 milhões de euros da Comissão Europeia, este projeto tem como objetivo estudar o passado do clima e tentar perceber as tendências para o futuro.

O acampamento foi montado numa área conhecida como Little Dome C, 3,2 quilómetros acima do nível do mar, e, apesar de os cientistas ainda não saberem o sítio exato onde vão perfurar (segundo o British Antartic Survey irá ser anunciado no dia 9 de abril), está decidido que as escavações terão início em junho de 2020.

Até agora, o recorde pertence ao projeto Epica, que escavou um pedaço de gelo a 3 200 metros de profundidade que teria, supostamente, 800 mil anos. Esse "fóssil de gelo" demonstrou uma relação profunda entre os níveis de CO2 e as temperaturas globais.

Através destes registos hoje sabemos que atualmente a concentração dos gases de efeito de estufa é muito superior que a qualquer registo nos últimos 800 mil anos”, disse ao jornal The Guardian Raimund Muscheler, chefe do departamento das ciências quaternárias (período da Era Cenozoica) na Universidade de Lund, na Suécia. “Este projeto é muito importante porque nos vai ajudar a perceber melhor como funciona o nosso clima.”

As amostras são troncos cilíndricos perfurados nos mantos de gelo e podem ajudar os cientistas a compreender melhor a relação entre as mudanças da atmosfera e o clima. Estes dados também podem ser utilizados para gerar modelos que podem prever o futuro do clima no nosso planeta.

Os mantos de gelo são formados pelo acumular da queda de neve ao longo de muitos anos – cada queda de neve forma um manto único e singular. Estas camadas de neve ficam progressivamente mais finas à medida que são comprimida pelo gelo através da adição de mais camadas de neve”, explicou Poul Christoffersen, glaciologista no Instituto de Pesquisa Polar Scott da Universidade de Cambridge.

A neve prende bolhas de ar e partículas de pó que oferecem uma representação da atmosfera da Terra e do clima de um determinado período de tempo do nosso passado. Um “termómetro do passado”, diz Christoffersen.

Além desta informação, também é possível retirar dados sobre as temperaturas do passado através da comparação da concentração de gases nas diversas camadas, podendo assim obter informação referente a centenas de milhares de anos.

Estes blocos de gelo com milhões de anos vão fornecer-nos novos dados sobre como funcionava o clima e porque é que houve uma alteração na periodicidade da glaciação. Pode estar ligado aos gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, mas não temos a certeza. Se assim for, isso quererá dizer que estes gases podem trazer efeitos dramáticos ao clima da Terra.”

O investigador Raimund Muscheler, por seu lado, espera que a informação retirada deste estudo sirva para adaptar políticas às alterações climáticas: “Talvez esta informação ajude a convencer o público e os responsáveis políticos que é necessário tomar medidas urgentes.”

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