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O caso de Jennifer, uma americana vítima de mutilação genital feminina, pode ser apenas a ponta do icebergue

Sociedade

Renee Bergstrom, americana do Midwest, causou sensação há pouco mais de dois anos revelou que também tinha sido vítima de Mutilação Genital Feminina

D.R.

Criada numa comunidade cristã muito conservadora do interior americano, esta mulher garante que foram os pais que a sujeitaram ao ritual

Jennifer, que pediu para não revelarem o seu apelido, explica que decidiu contar a sua história depois de lançar uma campanha para pressionar o seu estado natal - Kentucky, no interior leste - a proibir a Mutilação Genital Feminina (MGF).

Internacionalmente condenado, o ritual, que normalmente envolve a remoção parcial ou total da genitália externa ou interna da mulher, é frequentemente associado a um leque de países africanos – ou então nas comunidades que aqueles têm espalhadas pelo mundo - e asiáticos.

Mas há cada vez ativistas anti-MGF a defender que a história de Jennifer, contada pela Thompson Reuters Foundation, sugere que a prática secreta também poderá acontecer em algumas comunidades brancas conservadoras, um pouco por todo o mundo.

Diz Jennifer que o seu pai era sacerdote numa igreja evangélica conservadora e que ali se ensinava que “os homens eram os líderes" e que "Deus fez as mulheres submissas”. Daí que muitas coisas vistas como normais no mundo ocidental ali fossem pecados. “Para uma mulher, a sua sexualidade era um pecado. Ter prazer era pecado”, recorda, agora com perto de 40 anos.

Jennifer, que pediu para não revelarem o seu apelido, está a lançar uma petição online para acabar com a prática no estado do Kentucky - um dos poucos onde ainda não é proibido

Jennifer, que pediu para não revelarem o seu apelido, está a lançar uma petição online para acabar com a prática no estado do Kentucky - um dos poucos onde ainda não é proibido

D.R.

A sua história começa quando tinha perto de cinco anos e foi com a irmã mais velha fazer uma longa viagem. “Os nossos pais disseram-nos que íamos a um lugar especial. Pareceu-nos uma imensa aventura.”

Mas o entusiasmo rapidamente se transformou em terror. “Só me lembro de me segurarem os braços e as pernas e alguém me tapar os olhos. Foi horrível. Acho que desmaiei. Quando voltei a mim, tinha as pernas amarradas - para não me desfazer em sangue”.

Na viagem de regresso, Jennifer soube que tanto ela como a irmã tinham sofrido algo horrível - mas, já em casa, a mãe só disse que nunca iriam falar sobre isso. Desde então, e durante boa parte da sua vida, Jennifer acreditou que a maioria das mulheres passava pelo mesmo procedimento. Só percebeu que não era o caso quando estudou saúde reprodutiva na escola de enfermagem. Mas manteve o segredo: “Achei que era pecado falar sobre isso. A religião pode ser uma ferramenta poderosa para manter alguém em silêncio."

Em todo o mundo estima-se que cerca de 200 milhões de meninas e mulheres tenham sido sujeitas à MGF, dados das Nações Unidas. Sabe-se que é praticado em pelo menos 29 países africanos - e partes do Oriente Médio e da Ásia - mas também foram encontrados casos em comunidades da América Latina e Europa Oriental.

...E Renee foi a primeira

Jennifer é a segunda americana a fazer uma confissão destas. Em dezembro de 2016, foi a vez de Renee Bergstrom, então com 70 anos, revelar que tinha sido cortada quando tinha três anos. A mãe achava que ela se masturbava e então decidiu levá-la a uma clínica da igreja, daquelas que não se ensaiava em usar um bisturi naqueles casos. Estávamos em 1947.

“Depois, quando fiz 15 anos, numa consulta médica, indaguei sobre a sensação de puxar o tecido da minha cicatriz. Só que, sem saber, fui à mesma clínica. O médico decidiu então envergonhar-me ao dar-me um livro intitulado O Pecado do Auto Prazer”, contou Renée ao The Guardian. Seguiu-se o horror. A dificuldade em dar à luz, o facto de tanto ela como esse primeiro filho quase terem morrido, as propostas loucas para remover um dos mamilos e criar um clítoris falso. “Sempre achei estas propostas repulsivas. Mas foi um desconforto que continuou durante uns 50 anos.”

Sabia-se que, no século XIX; alguns médicos nos Estados Unidos tinham feito cortes clitorianos para “tratar” a masturbação e outros problemas parecidos. Os historiadores da medicina sempre garantiram que a prática morrera entre o início e meados do século XX. Mas agora já não se tem tanta certeza.

Shelby Quast, diretora da Equality Now, um grupo que trabalha para acabar com a MGF, assumiu que é possível haver mais casos destes em comunidades religiosas muito conservadores, seja qual for a crença. "O que sabemos é que a MGF sempre é usada para controlar mulheres e meninas e sua sexualidade - e muitas vezes há uma forte pressão sobre elas para que permaneçam caladas".

Jennifer, que relatou dores crónicas infindáveis, repetidas infeções e relações sexuais sempre muito dolorosas - “uma vida de dor”, resumiu – espera agora que a sua história encoraje outras pessoas como ela a quebrar o seu silêncio. E daír ter lançado a petição a pedir uma lei contra a MGF no Kentucky, um dos 21 estados na América que não criminaliza a prática.

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