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Airbnb: há um problema de câmaras escondidas nas casas

Sociedade

Chesnot/Getty Images

A empresa assegura que está a afastar os anfitriões que filmam quem usa as suas casas. Mas há dúvidas de que esteja a fazer o suficiente. A história de quem descobriu umas câmaras numa zona privada de uma casa fala por si

As regras do Airbnb são conhecidas: as câmaras são permitidas em zonas ao ar livre e até em salas de estar e outras áreas comuns, mas nunca nas casas de banho ou nas divisões onde se possa dormir. Por isso, quando Max Vest chegou à casa do anfitrião do seu Airbnb em Miami, essa questão nem se punha. É verdade que o homem que o recebeu se apresentou como Ralph, apesar de se ter respondido como Ray em todas as conversas anteriores. Mas essa foi o único sinal de que algo poderia não estar bem.

Afinal, aquela casa tinha uma ótima classificação e muitos dos comentários mencionavam o quão amigável ele era. Então, Vest, que viera da Florida, não pensou mais no assunto e acomodou-se no apartamento de dois quartos e duas casas de banho que iria partilhar com Ralph – ou seria Ray? - e a sua namorada. Entre as oito e as nove da noite, saiu para jantar. Quando chegou, os anfitriões recolheram-se no quarto adjacente ao seu, e ele resolveu fazer o mesmo.

Foi quando viu uma luz. Duas caixas pequenas, pretas e retangulares estavam empilhadas ao lado de uma tomada do outro lado do quarto de hóspedes, ambas de frente para a cama. De longe, pareciam carregadores de telemóvel. Mas quando Vest se aproximou, percebeu que eram câmaras e estavam a gravar.

Sem hesitar, vestiu-se rapidamente, pegou nas suas coisas e guardou ainda os cartões de memória das câmaras como prova. Foi então que entrou em pânico: era quase meia-noite, estava sozinho na casa de alguém cujo nome ele nem sabia bem e aparentemente estava a ser gravado. Além disso, o anfitrião até podia estar a observar o momento em que ele descobriu as câmaras.

"Eu não sabia se estava a ser visto em tempo real ", confessou Vest, citado pela The Atlantic, no início do ano. “O que descobri desde então é que [as câmaras] gravam num cartão de memória, mas também podem transmitir em tempo real. O anfitrião ou qualquer um poderia estar a ver o que se passava.

Vest estava com medo do que poderia acontecer se Ralph o visse sair. “Sei o que estava em jogo, se ele tivesse noção do que descobrira”, sublinhou Vest, que acabou por conseguir sair do apartamento, entrar no carro e fazer dois telefonemas: um para a mulher, outro para a equipa de segurança do Airbnb.

Diga-se que nem Vest, nem a própria The Atlantic, conseguiram saber o nome completo e a verdadeira identidade de Ralph - a empresa negou sempre, socorrendo-se da sua política de identidade. Mas reembolsou-lhe o dinheiro, pagou-lhe um quarto de hotel naquela noite e acabou por remover aquele alojamento do site.

Mas Vest considera que isto não foi suficiente: no seu entender, a Airbnb devia ter contactado o anfitrião mais cedo por causa da discrepância do nome além de que – e isso soube Vest depois - lhe faltava uma autorização para alugar a propriedade, dado que não era ele o dono.

Diz Vest que a empresa fez pouco para o apoiar nas suas reivindicações, apesar dos imensos emails a garantir que estava a levar aquele caso extremamente a sério e que a segurança dos hóspedes é a sua prioridade. “Isto não foi uma experiência negativa”, contesta Vest. “Isto é um ato criminoso.”

As regras do Airbnb, que proibem filmagens em zonas privadas, levaram mais uma adenda no ano passado: se os anfitriões indicarem que possuem câmaras sejam em que lugar for da sua propriedade, os convidados receberão um pop-up a informar onde estão e para onde estão direcionadas. E para reservar aquele espaço, passa a ser preciso clicar em “concordar”, indicando que se está ciente das câmaras e se consente ser filmado.

É claro que há muitas razões para se ter câmaras nas casas alugadas a estranhos. Servem, por exemplo, para apanhar os hóspedes que tentam roubar, ou destroem coisas, ou que dizem inicialmente que viajam sozinhos e, depois, chegam com mais cinco pessoas.

Segundo um representante do departamento de comunicação da segurança do Airbnb, a empresa tenta filtrar todos os anfitriões que podem vigiar os convidados, comparando-os com bancos de dados de criminosos. Além disso, também usa pontuações para sinalizar comportamentos suspeitos, a juntar à revisão sistemática a quem tem regularmente pontuações baixas.

Em comunicado, um representante da Airbnb disse ainda: “A segurança da nossa comunidade - tanto online quanto offline - é a nossa prioridade, e é por isso que levamos muito a sério as denúncias de violações de privacidade e empregamos tecnologias sofisticadas para ajudar a evitar que maus atores usem nossa plataforma."

Mas quatro pessoas que encontraram câmaras nas casas que alugaram garantiram, entretanto, à The Atlantic que a empresa não foi coerente com as regras ao investigar as queixas, forneceu muitas vezes informações incorretas e faz recomendações que, segundo eles, podiam colocá-los de novo em risco. Por exemplo, o Airbnb disse a Vest para interagir com seu anfitrião depois de descobrir as câmaras. Ou seja, como Vest saiu a correr, acabou por levar as chaves da casa com ele – e a Airbnb insistia que devia ser ele a devolvê-las. “Foi aí que conclui que não estavam de todo a levar isto a sério. Ou a devolução das chaves não estaria no topo das prioridades”.

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