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A pior doença de sempre está a dar cabo da população de anfíbios e isso pode ter efeitos dramáticos

Sociedade

Mark Wilson/Getty Images

Foi há cem anos que uma pandemia de gripe matou 100 milhões de pessoas, qualquer coisa como 5% da população mundial. Mas esta praga aniquiladora de sapos e rãs pode ter consequências bem mais dramáticas para o futuro do planeta

Em 2013, uma patologia misteriosa varreu a costa ocidental da América do Norte, causando a aniquilação da estrela do mar. Dois anos depois, a vítima foi o antílope asiático de nariz grande que perdeu dois terços dos seus 200 mil indivíduos, por causa do que parecia ser uma infeção bacteriana. Mas nenhum destes casos se aproxima do poder destrutivo de Bd, um fungo extraordinariamente potente e inigualável na capacidade de matar não só uma ou outra colónia de animais, mas espécies inteiras.

Bd, abreviatura de Batrachochytrium dendrobatidis, é um fungo da classe Chytridiomycota que ameaça a população mundial de anfíbios, comendo-lhes a pele e provocando-lhes ataques cardíacos fatais. Acreditava-se que era o responsável pelo desaparecimento de 200 espécies, mas esse é um número ultrapassado. Os novos dados, compilados pela equipa de Ben Scheele, da Universidade Nacional da Austrália, mostram uma realidade bem mais assustadora.

Segundo Scheele, o fungo causou o declínio de mais de 500 espécies, cerca de 6,5% do total conhecido. Destas, 90 foram totalmente eliminadas, outras 124 perderam quase 90% da sua população e as hipóteses de recuperação são pequenas. Nunca a história registou uma única doença com tal capacidade de destruição. “Este fungo representa uma visão completamente nova do que uma doença pode fazer à vida selvagem”, sublinhou ainda Scheele, citado pela The Atlantic.

Nem todos têm imediatamente noção do que estas perdas significam em grande escala – mas sabemos que os anfíbios sobrevivem no planeta há 370 milhões de anos e, em apenas cinco décadas, uma doença quase os dizimou. Se uma nova doença fizesse o mesmo e aniquilasse 6,5% de todas as espécies de mamíferos, o planeta não ia aguentar. “E apesar da atenção que se está agora a dar a este assunto, acho que não se tem bem noção do que perdemos”, acrescenta Karen Lips, da Universidade de Maryland, que também participou no novo estudo.

Foi nos anos 1970 e 1980 que os especialistas em anfíbios começaram a partilhar histórias sinistras sobre populações outrora abundantes que desapareceram misteriosamente – sem ninguém saber explicar o que acontecera. "Foi mais do que tentar encontrar uma agulha no palheiro; ainda estávamos a tentar avaliar a existência do palheiro", escreveu Lips recentemente.

Já a análise de Scheele mostra que, a partir do momento em que o fungo foi finalmente identificado, em 1998, já tinha feito boa parte do seu trabalhinho: pelo menos 60 espécies já estavam extintas e centenas de outros iam pelo mesmo caminho.

Chegamos assim ao ponto em que compreendemos como o Bd é o perfeito assassino de sapos - mata com gosto e sem confusão. Enquanto algumas doenças afetam apenas hospedeiros específicos, o Bd cobiça nutrientes encontrados em peles de anfíbios, e assim atinge todo o grupo indiscriminadamente. Além disso, espalha-se facilmente pela água e resiste fora dos seus hospedeiros.

Agora, há quem defenda que este fungo não agiu sozinho – e que teve no ser humano um cúmplice involuntário. É o que sugere um estudo genético conduzido por Matthew Fisher, do Imperial College London: segundo explica esta análise, o Bd desenvolveu-se em algum lugar da Ásia. A partir daí, uma linhagem especialmente virulenta e transmissível espalhou-se pelo mundo no início do século XX - época em que o comércio internacional estava em alta. Os animais infetados poderiam ter sido arrumados a bordo de navios ou transportados deliberadamente como alimento ou animais de estimação. E a máquina assassina espalhou-se para outros cinco continentes.

No novo estudo, a equipa de Scheele compara ainda o mundo moderno ao Pangea, o tal supercontinente único que existia no alvorecer dos dinossauros. Há muito que desapareceu, mas o ser humano praticamente recriou esse cenário - já que, para as doenças da vida selvagem, o globo inteiro apresenta-se de novo como uma única massa facilmente atravessada. “Num contexto normal, estes fungos teriam morrido fritos ao entrarem numa embarcação à vela, mas agora são viáveis”, rematou.

Assim, não restam muitas outras opções a não ser limitar os seus movimentos – a melhor estratégia que se conhece – e isso significa reduzir o comércio de vida selvagem. “A sua movimentação à volta do mundo pode ter consequências devastadoras”, salienta ainda Jodi Rowley, do Museu da Austrália. “Hoje, já mais consciência do impacto de espécies invasoras, mas o que compreendemos, entretanto, é que são os que vão à boleia, inadvertidamente – como estes parasitas – que representam a maior perda para a biodiversidade.”

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