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Quais são os efeitos no cérebro de uma noite mal dormida?

Sociedade

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Continuam a ser um enigma para os cientistas mas, agora, acredita-se que possam existir cinco tipos de insónia. Veja qual é o seu e as consequências que o devem preocupar

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Demorar mais de meia hora a adormecer ou ter dificuldade em manter o sono, pelo menos três noites por semana, ao longo de, no mínimo, três meses – é esta a fórmula que dita as insónias crónicas, as quais afetam cerca de 10% da população. As consequências, essas, são múltiplas: sonolência, irritabilidade ou dificuldades de concentração. Agora, uma equipa de investigadores do Instituto Holandês de Neurociência decidiu ir além da análise dos sintomas das noites mal dormidas e considerar aspetos não diretamente relacionados com o sono, como a personalidade dos pacientes ou a sua capacidade de resposta em situações de stresse, em mais uma tentativa de encontrar as causas das insónias, que permanecem um mistério quando esta patologia não está associada a outras doenças.

Publicado no início deste ano, na prestigiada revista científica The Lancet Psychiatry, o estudo analisou os dados de mais de quatro mil pessoas e identificou cinco padrões de insónia (ver caixa). Os diferentes tipos variam de acordo com os níveis de ansiedade e de stresse dos pacientes, mas também dependem do seu grau de felicidade e de bem-estar. Esta divisão, concluíram os cientistas, é útil na personalização do tratamento. Enquanto as benzodiazepinas (ansiolíticos) se mostraram eficazes nas pessoas com insónias dos tipos 2 e 4, por exemplo, as diagnosticadas com tipo 3 não sentiram grandes melhorias. Já a terapia cognitivo-comportamental, provou-se especialmente eficiente nos doentes classificados com o tipo 2.

Os eletroencefalogramas também revelaram diferentes reações cerebrais, segundo cada uma das categorias, reforçando a importância das neurociências na investigação das causas das insónias. Os investigadores ressalvam que os participantes no estudo eram voluntários, ou seja, podem não ser representativos de toda a população, abrindo a possibilidade de existirem mais tipologias da doença.

Cérebros hiperativos

O investigador da área da medicina do sono Daniel Ruivo Marques sublinha a relevância de estudar a heterogeneidade da insónia, mas também os seus aspetos neurológicos. O docente da Universidade de Aveiro analisou na sua tese de doutoramento a eventual correlação entre uma das principais redes neuronais do cérebro, a Default-Mode Network, e as insónias.

A Default-Mode Network está associada ao processamento autorreferencial das emoções e à memória autobiográfica, seja recuperando acontecimentos do passado, projetando o indivíduo no futuro ou colocando-o no lugar dos outros – situações em que o sujeito é o ator principal. Esta rede neuronal está mais ativada quando não há nenhuma tarefa a mobilizar a atenção da pessoa, ou seja: quando alguém está entregue aos seus pensamentos.

À semelhança de outros estudos internacionais, também a investigação de Daniel Ruivo Marques detetou, através de exames de ressonância magnética funcional, uma maior ativação cerebral desta rede neuronal nas pessoas com insónia. Enquanto nos voluntários sem problemas de sono a ativação da Default-Mode Network diminui quando desempenham outras tarefas – como tentar adormecer –,no caso dos pacientes com insónia a ativação mantém-se. Esta hiperatividade poderá justificar os pensamentos automáticos disfuncionais dos insones, como ficarem obcecados com a ideia de que não vão conseguir adormecer, o que aumenta a ansiedade e alimenta a insónia.

As habituais dificuldades de concentração destes doentes também poderão estar associadas ao funcionamento permanente desta rede neuronal, mesmo quando deveria estar silenciosa, exigindo, assim, mais energia a quem sofre de noites mal dormidas para desempenhar as tarefas do quotidiano, devido a este “ruído” de fundo. “É um erro considerar a insónia crónica uma perturbação exclusivamente da noite, o seu impacto estende-se às 24 horas do dia”, nota o docente de Psicologia.

O estudo também revelou que os padrões neuronais disfuncionais dos pacientes com insónia foram corrigidos após serem sujeitos a terapia cognitivo-comportamental, o tratamento (não farmacológico) de primeira linha desta patologia que implica a melhoria dos hábitos de sono, através da modificação de crenças disfuncionais e comportamentos mal adaptativos – ensinando aos doentes que acordar durante o sono, por exemplo, não tem de ser sinónimo de uma noite arruinada.

O investigador admite que existe mais conhecimento sobre os efeitos da privação de sono do que sobre a insónia per se – que implica, ou não, privação de sono (apesar das dificuldades em adormecer, a seguir o paciente pode dormir oito horas). “As pessoas com privação de sono apresentam um défice de controlo do córtex pré-frontal sobre as amígdalas, associadas a aspetos mais emocionais, o que ajuda a explicar que quem dorme mal ferva em pouca água”, ilustra o investigador do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC) da Universidade de Coimbra.

Além das alterações de humor e da irritabilidade, também as dificuldades de concentração estão associadas ao córtex pré-frontal, igualmente responsável pelo controlo da impulsividade. Tomar decisões depois de uma noite mal dormida é, por isso, desaconselhado. E fazer diretas antes de um exame importante também não é boa ideia. “O sono consolida a aprendizagem, é como se de madrugada carregássemos no botão ‘salvar’, por isso é que depois de uma noite em claro temos a sensação de o conhecimento estar debaixo da língua, mas não conseguimos aceder-lhe”, esclarece.

A memorização também poderá ser especialmente afetada, já que os pacientes com insónia têm, habitualmente, menos períodos de sono lento profundo, fundamental na consolidação das memórias. É também durante esta fase do sono que ocorre o processo de limpeza de detritos cerebrais que elimina proteínas tóxicas, como a beta amiloide, associada à doença de Alzheimer.

A neurologista Dulce Neutel reitera que “o mecanismo exato que leva o doente com insónias a não dormir é desconhecido, mas alguns estudos mostram que algo funciona mal no processo de ativação e desativação cerebral”. A insónia paradoxal poderá resultar precisamente dessas falhas. “Nesses casos, o paciente perceciona que não dorme, mas os eletroencefalogramas mostram que sim.” A médica do Centro de Eletroencefalografia e Neurofisiologia Clínica (CENC), em Lisboa, avança com uma hipótese para este erro de perceção: “Uma das razões poderá ser manterem-se despertas áreas do cérebro que ainda não conseguimos detetar.” O mistério continua a tirar o sono aos cientistas.

Retratos mal dormidos

No início deste ano, cientistas do Instituto Holandês de Neurociência identificaram cinco tipos de insónia:

Tipo 1 - Pessoas com elevado nível de emoções negativas, como angústia e ansiedade, e baixo grau de satisfação e de felicidade

Tipo 2 - Nível moderado de ansiedade, mas boa relação com emoções positivas e sensação de felicidade

Tipo 3 - Grau moderado de angústia, acompanhado por poucas experiências de prazer e de felicidade

Tipo 4 - Baixo nível de stresse e de ansiedade no quotidiano, mas com insónias de longo prazo após episódios de vida stressantes

Tipo 5 - Sem registo de sensações negativas ou de insónias perante acontecimentos stressantes

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